

Ins Pedrosa

A instruo dos amantes








     

     
     
     
     
      memria do av Domingos
     e para os meus amigos.
     
     
      
      "...O meu jardim continha um s farrapo de sol limpo
      desdobrado sobre o verde do relvado como 
      nos piqueniques se lanam as toalhas. 
      O meu jardim tinha aquelas rvores todas. Pelo suor das tardes 
      speras mos de jogos indolentes, eu subia. 
      Do terceiro ou quarto ramo horizontal eu abarcava a rua. Tudo
      era assim e tinha s trezentos metros. 
      Quo longe esta baa est do cu, mau grado o vento."
       
       Jorge Colombo, Poemas
     
     
     

     
     
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     Se Cludia fosse uma rapariga dada aos delrios romnticos prprios da sua idade, teria escolhido um outro cenrio para princpio de paixo. Mas Cludia trazia 
os nimos desprevenidos, e deu-lhe para entontecer por Dinis no funeral de Mariana.
     Tratava-se, alis, de uma bela cerimnia. O pai da morta explicou que a pequena se tinha desequilibrado da varanda, e o padre l fez de conta que o Senhor escreve 
direito por linhas tortas. Assim, a pobre alma passou oficialmente ao convvio dos anjos com um visto de vertigem involuntria.
     Os suicdios so excelentes estimulantes da solidariedade humana. Viva, Mariana no despertara maior entusiasmo que o das chalaas de circunstncia. Nunca ningum 
cuidou de averiguar quem ela era, porque ela trazia sobre o corpo o nico antdoto de curiosidade eficaz numa mulher de dezasseis anos: a gordura. Mariana era realmente 
to gorda que podia permitir-se passear pelas ruas do bairro s trs da madrugada sem despertar o dente certeiro das porteiras ou o lcool fogoso dos rapazes. Nunca 
ningum disse mal dela, como normalmente ali se dizia das pessoas a quem se queria bem. Agora, pela primeira vez, Mariana tinha a importncia da culpa. Mas nem aquela 
gloriosa culpa parecia pertencer-lhe por inteiro; os vizinhos culpavam o pai, a famlia culpava a morte precoce da me, os velhos culpavam os novos. S os novos, 
liderados pelo namorado de Cludia, faziam a devida vnia  defunta: 
     "Ela matou-se porque quis", disseram. Ela tinha ousado enfrentar a morte, e isso lhes bastava. Era por isso que estavam todos ali, aperaltadssimos. Os rapazes 
puseram gravata e pentearam os cabelos. As meninas prenderam com ganchos as franjas enormes e rezaram convictamente as oraes esquecidas. At Lusa e Laura, as 
gmeas escandalosas, apareceram de saia pelos joelhos, com olheiras de martrio. Como os grandes santos e os grandes criminosos, eles preferiam as vaidades profundas 
s verdades aparentes. 
     Teresa, a lrica, viria a escrever um poema intitulado "Lgrimas por Mariana", combinando a chuva daquele enterro com os gritos da senhora do 34 que vinha do 
caf e descobriu o corpo desfeito no cimento. Mas o grupo havia de ler o poema em voz alta e no meio de grande galhofa, para que Teresa percebesse que aqueles floreados 
piedosos eram de um despudor indigno.
     Eles no tinham seno a sabedoria pura dos afectos brutos. Surripiavam os espelhos dos elevadores s pelo prazer de os esmigalhar pelas escadas, de se observarem 
multiplicados neles, e de esperar que algum estranho acabasse por se ferir. Estragar os adereos do mundo trabalhador e roubar-lhe pequenas utilidades, como carros 
e dinheiro, era cumprir uma misso de rigor e limpeza. Nunca eram descobertos e toda a gente sabia que eram eles. Esta impunidade provava-lhes que eram temidos, 
e que o mundo adulto era feito do palavroso convvio com o medo. Ouviam sermes imensos, pasmavam de ver a quantidade de palavras que os velhos eram capazes de arranjar 
para embrulhar os caminhos que no tinham tido coragem de seguir. Era s por isso que odiavam as escolas e faziam questo de prescindir das palavras. Para proteger 
essa pureza radical a que se tem chamado, consoante os tempos e as convenincias, loucura ou lucidez.
     A tragdia de Mariana foi corriqueira e morna como todas as grandes tragdias: amaram-na tanto que se esqueceram de reparar nela. A me morrera-lhe ao primeiro 
ano de vida. O nico facto que com ela partilhara, para alm do parto, foi a febre tifide que pouco depois a mataria. As mes tm normalmente uma vantagem sobre 
os pais: precisam menos dos filhos do que do exerccio do amor que os filhos lhes proporcionam. Dedicam-se s crianas como os marinheiros antigos se dedicavam ao 
mar: com susto, surpresa e doidice.
     Privada de me, Mariana foi condenada a ser, desde a infncia, adolescente. Uma esttua parada no tempo para proteger do envelhecimento o pai, os avs, a famlia. 
Alimentaram-na e protegeram-na (do frio, do calor, das correrias, do mundo) como se ela no fosse mais do que uma boneca de porcelana ou um monstruoso bibelot. Mariana 
foi demasiado mimada para poder suportar o mundo. Sofreu a infncia com a terrvel maturidade de um adolescente e decifrou a adolescncia com a impiedosa infantilidade 
de um adulto. O pai amou-a com o amor absoluto, sufocante, que era a memria do seu prprio desamor. Encontrou-se assim precocemente confrontada com o desajuste 
dos espelhos e com a sfrega cegueira dos olhares.
     Mariana soubera escolher o seu destino, despojara-se do grosso vu de invisibilidade, era agora um deles. Estavam todos no patamar do 45-A quando se ouviu aquele 
baque seco. Foi ao princpio de uma tarde de domingo. O frio era tanto que no havia maneira de arranjar uma casa livre. As famlias estavam coladas aos aquecedores 
e  televiso. Para piorar a situao, a diva do chefe tinha voltado a levar com o cinto do pai, e estava incapaz de subir para a mota.
     Ningum ousaria propor uma volta sem Cludia e despertar a fria de Ricardo Luz. As iras do chefe eram raras e definitivas. Ganhara o lugar de comando com um 
pontap e dois murros: a Cravo e Canela estrebuchava debaixo do bruto corpo do Traficncias, que tentava viol-la ali mesmo, em cima da mota,  entrada da garagem 
do 41. Eles estavam no costumeiro poiso do 45-A, e espreitavam, muito calados, encolhidos contra a porta. A rapariga desatou a gritar, o Traficncias tapou-lhe a 
boca, e Ricardo irritou-se:
     - Embora. Vamos mostrar-lhe quem  que  homem, pessoal.
     - Deixa estar, que a mida j vai descobrir o que  um homem. - bichanou o Radar, num tremor de excitao. 
     - E se ela no ficar satisfeita, a malta vai l depois dar-lhe o resto. - acrescentou o Joo, com um sorriso meigo, acendendo um cigarro.
     - Cambada de ces cobardes,  o que vocs so. Ento vem mafioso de fora abusar das midas da nossa quinta, e vocs ficam a rir-se, borrados de medo, , seus 
tarados?
     - Oh Luz, tangareasy, p! O Traficncias no  para brincadeiras, sabes bem. - recordava o Linhos, em voz de falsete.
     - Tu nem conheces a mida. Vamos que ela seja amiga do homem, hem? - aventava o Filipe, a dar lustro ao capacete da mota.
     - Bem. J vi que convosco no me governo. At j, galinholas. Vou ali e j venho.
     Nessa noite os rapazes descobriram duas coisas: que a Cravo e Canela afinal se chamava Cludia, e que Ricardo Luz passava a ser o chefe do grupo. Aperceberam-se 
desta mudana de vida no breve minuto que mediou entre a sada de cena do Traficncias, praguejando agarrado  braguilha, e a entrada fulgurante de Ricardo, com 
a beleza do bairro ao colo, desfeita em lgrimas.
     - Pronto, boneca, j passou. O Lobo Mau no volta mais.
     - E se voltar, estamos c ns para lhe limpar o sebo, beldade. - avisou o Radar, adejando em redor do casal.
     - X! V se ganhas vergonha na cara, maricncio. - rosnou Ricardo, enquanto secava as lgrimas  sua protegida.
     - Muito prazer em conhec-la, apesar das circunstncias infelizes. Filipe, para as amigas Marlon Brando. Como  que a menina se chama? 
     - Chama-se Cludia, e no est para aturar os vossos desmandos imbecis. No percebem que a rapariga no est bem, seus broncos?
     - Calma,  chefe! A gente s quer animar a pequena, com sua licena. - explicou o Joo, lanando um dos seus sorrisos de encantador desprotegido.
     - Obrigada pelos cuidados, chefe. - disse Cludia, com uma gargalhadinha nervosa.
     A partir daquele instante, a liderana de Ricardo Luz tornou-se inquestio-nvel. No era o mais forte: os msculos mais evidentes pertenciam a Filipe do Carmo, 
autoproclamado Brando das Avenidas. s vezes chamavam-lhe o Apertos, por causa da roupa, que escolhia sempre um nmero abaixo, para uma melhor exposio das salincias. 
O maior desgosto de Filipe era andar a p; quando o vinha visitar, o pai prometia-lhe uma mota, mas acabava sempre por trocar de carro e ficar sem dinheiro.
     - O teu pai s pensa nele, Filipe Manuel, v se te convences disso. Ele nem os teus estudos paga, filho. Sou eu que me mato para tu andares a chumbar anos a 
fio, e tu s pensas no homem, que Deus Nosso Senhor me valha!
     - O homem, o homem. At parece que no foi ele que me fez.
     - O que  que tu ests a insinuar, Filipe Manuel?
     - Nada, me. S me espanta que tu, que at s bruxa, no consigas ganhar a lotaria.
     Neste ponto da conversa a me de Filipe Manuel atirava-se para o sof a gemer, ameaando desmaios transcendentes, e o filho abraava-a, com pedidos de perdo 
e juras de eterno amor.
     Desde que o marido sara de casa, a me de Filipe dedicara-se  causa esprita e aos espoliados do Ultramar.
     Afirmava-se eternamente devedora do esprito do bisav Anselmo, que lhe aparecera em sonhos, seis meses antes do reviralho, exortando-a a sair de Loureno Marques, 
porque os turras iam ganhar. O bisav Anselmo s no lhe contara, talvez por falta de intimidade com a bisneta, que o marido havia de mandar vir, com o resto das 
bagagens, uma mulata vinte anos mais nova do que ela, e grvida dele. Filipe nunca quis conhecer a meia-irm e ficava com os cabelos em p s de ouvir falar em esquerdas 
ou liberdades. Almoava com o pai no primeiro e no ltimo sbado de cada ms, se tudo corresse bem.
     A maior parte das vezes, no corria: os negcios estavam difceis, o trabalho no Partido era muito, o pas mudava devagar.
     - Compreendes, no , meu filho?
     Filipe fazia voz grossa e dizia que sim. Pensava que com o tempo se habituaria  indisponibilidade do pai, mas no conseguia, e o dio s liberdades crescia-lhe 
na proporo directa da saudade. Um senhor. Filipe insistia:
     -  uma em ponto, pai. No te atrases, por favor.
     Mas ele atrasava-se sempre. Uma e meia, desastre completo: os outros j estavam todos a almoar, no o viam chegar no Mercedes prateado. Se ele ao menos lhe 
desse a mota. Filipe estava farto de andar com o capacete debaixo do brao. Dizia que era para as boleias, mas ningum acreditava. At no comboio para o liceu, usava 
o capacete em vez de livros:
     - Gastam-me o msculo, que foi feito para outras matrias. 
     Mas precisava de grandes audincias e muita companhia para dar aplicao aos famosos bceps. Quando o provocavam a solo, fazia que no ouvia, e estugava o seu 
passo largo de forcado imaginrio. Contava mil e cem vezes a pega que fizera a um touro bravio, numa festa ribatejana. Esquecia-se invariavelmente de contar que 
o touro em questo era uma vaca escura, e sentada.
     Ricardo Luz era pouco dado a narrativas, e menos ainda a relatrios de feitos. Escondia o tronco rijo em camisas largas. Tinha uma vulgarssima Honda 50. A 
Kawasaki 750 era do Joo de Brito, que dormia numa cama de dossel. Os outros escarneciam-lhe a casa barroca e o dinheiro da famlia.
     - No tens vergonha de ser novo-rico,  Jonas?
     - Novo-rico, com um pai que podia ser av dele?
     - E, calhando,  mesmo!
     Joo batia duas vezes as longas pestanas, lanava-se em voo picado sobre os difamadores e restaurava em meia dzia de safanes a fachada da honra. Depois sacudia 
a poeira do bluso e compunha os caracis acetinados numa olhadela discreta ao espelho retrovisor. Os setenta e cinco anos do pai no o incomodavam; a me ainda 
no atingira os quarenta e ofuscava qualquer garota de vinte. Adoravam-se: Joo e a me faziam um belo par. O velhote, era como se no existisse; falava sozinho, 
no se sabia de qu. S se calava enquanto preenchia cheques, e a famlia fazia por multiplicar estes agradveis momentos de silncio.
     - Ento, o que  que se faz hoje?
     Era Radar, o ano, a pr a voz nos bicos dos ps. Nutria uma paixo funda por Cludia, a partir daquele primeiro instante, j l iam dois anos. No entanto, 
estaria disposto a alimentar paixes igualmente fundas por qualquer outra rapariga, desde que fosse um bocadinho correspondido. E desde que a garota tivesse pelo 
menos treze anos. 
     Infelizmente, a nica apaixonada que recenseara festejara h pouco o dcimo aniversrio, usava aparelho nos dentes e era sua prima direita.
     - Ento, pessoal? O que  que se faz? - repetia o mal amado.
     Ainda por cima, as pastilhas elsticas tinham-se acabado, e ningum se sentia com pacincia para ir l abaixo ao Kuanza comprar mais. Joo tirou o ltimo pedao 
da boca e ofereceu-o, num gesto magnnimo. Teresa corou e aceitou. Gostava dele h cinco meses inteirinhos, com uma constncia desesperada.
     Lembrava-se do momento exacto em que ele lhe tinha feito aquela festa no queixo. O sol transbordava os contornos do cu. Joo estava sentado na mota e as luvas 
ampliavam-lhe a forma das mos. A luz reflectia-se nos metais da mquina, fulgia-lhe nos olhos verdes, mergulhava-o numa iluso de celulide. Ela roubara de casa 
metade de um po-de-l para distribuir pelo grupo. Como de costume, toda a gente devorou o bolo a troar dela: "Olha a Santa Teresa, protectora dos famintos", e 
coisas assim. Teresa ficava triste. Parecia-lhe que o cabelo e os olhos acompanhavam, num progressivo embaciamento, a invaso daquela tristeza. Pedia a Deus milagres 
cada vez mais pequenos e profanos: cinco centmetros a mais de altura, dez centmetros a menos de largura, um ondeado, por ligeiro que fosse, no cabelo. Dava prendas 
para se tornar famosa no corao dos outros, mas os outros eram rapidssimos a desmontar-lhe o engenho, numa gargalhada.
     Queria alcanar a sublime vulgaridade de Cludia, que ganhava sempre. Mas daquela vez, h exactamente cinco meses e seis dias, o Joo fizera-lhe uma festa no 
queixo e dissera: "To querida."
     E depois tinha ficado de boca aberta  espera que ela pusesse l a fatia do bolo. Duas palavras bastaram para disparar nela esse passatempo terrvel. Teresa 
fazia de qualquer obstculo um pretexto para o mistrio, uma ponte de glria para a solido. Apaixonara-se j por quase todos os rapazes do grupo, um a um e para 
a eternidade.
     Estavam muito encostados uns aos outros, magicando em alternativas confortveis ao gelo da tarde, quando se ouviu aquele rudo seco, e depois o grito da senhora 
que vinha do caf. Foi no dia seguinte, no funeral de Mariana, que Cludia se tornou outra.
     Dinis parou junto dela em frente da campa aberta e ela quase desmaiou. Era um odor de terra hmida e de sal e de chuva e de rosas queimadas em lcool. Pareceu-lhe 
que era a morte, aquilo que assim a entontecia. Nem sequer lhe viu o rosto. A morte  a nica testemunha da paixo. Tem cimes dos corpos e queima-os devagar. Quando 
os corpos se entregam ao imprio dos seus lumes  a morte que os ilumina. Depois rouba-os, como se perpetrasse um crime perfeito, esquecendo-se de que os corpos 
deixam traos.
     Escusado ser dizer que nenhum destes pensamentos turvou, por um momento que fosse, a cabea de Cludia. Mais tarde houve quem comentasse que lhe faltava naquela 
poca idade e experincia. A prpria Cludia gosta de repetir que nessa altura era demasiado jovem e irreflectida, como se a vida nos concedesse um prmio de serenidade 
em troca dos nossos perdidos quinze anos. O que faltou a Cludia naquele instante parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar instinto de defesa 
que disfaramos sob o nome de razo. H seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar partes dentro do seu prprio corpo e de as estruturar como castelos 
autnomos e armados.
     O comum dos mortais reage  queda de uma das suas praas-fortes redobrando o armamento da outra. Os monumentos espalhados pelas cidades evocam os que levaram 
esta tcnica aos limites da perfeio humana. Em menor ou maior grau, quase todos recebemos no sangue uma capacidade de separao interna que nos habilita para as 
obras da sobrevivncia. Cludia no sabia dessa distino nem de distino nenhuma. Deixava correr os dias e precisava do espelho para se entender como pea solta. 
As inquietaes da literatura faziam-na rir porque lhe pareciam artificiais. A beleza e a ausncia de imaginao punham-lhe laivos de mulher fatal. Desde que Ricardo 
Luz a elegera rainha ela convencera-se simplesmente disso mesmo:
     "Sou uma mulher fatal". O seu corpo era a traduo perfeita das linhas ideais. Nos dias em que o pai lhe batia, Cludia aparecia com uma fita mtrica no bolso, 
para medir a cintura e as ancas das outras, por vingana. Teresa invejava-a, Isabel admirava-a, e a fuso destes dois sentimentos criara-lhe uma aura que a tornava 
segura do mundo. Todos os rapazes sonhavam obviamente com ela. Cludia via nesse excesso de sonho a prova fsica da sua inteira realidade. O crebro de Cludia pensava 
tanto como os seus braos, o seu estmago ou o seu corao. Formava uma unidade resplandecente. Nada a podia proteger da fissura sem centro que a mudou de uma s 
vez, como um abalo ssmico.
     Nem lhe viu o rosto. Alis, Dinis no tinha propriamente o tipo de semblante que se recordasse. Vira-o j centenas de vezes, de passagem, e no saberia dizer 
de que cor eram os olhos do irmo de Isabel Marta. Havia fotografias de James Dean nas paredes do quarto dele, mas Isabel dizia que o Dinis nascera velho, porque 
passava a vida a ir  Gulbenkian ver filmes a preto e branco, muito antigos. Ou ento fechava-se no quarto a ouvir msica clssica. O grupo via-o passar, muito srio, 
com uma pasta de cabedal na mo, e s no o hostilizava abertamente por respeito para com Isabel.
     Nessa mesma noite, depois do funeral, Cludia adormeceu a tentar lembrar-se de um qualquer pormenor visual que a sossegasse, e no conseguiu mais do que a memria 
daquele cheiro pesado e quente. Decidiu que a culpa era do corpo da morta, da chuva sobre a terra, do cansao dela, e entrou pelo sono a sonhar com perfumes num 
rapaz que tinha a cara do namorado dela e que a beijava doidamente sobre a relva molhada. Mas, reparando melhor, ao fundo do sonho havia o cemitrio, e um ser, l 
muito ao longe, agarrado a uma enorme pedra tumular em forma de ursinho de peluche. No se percebia se aquela figura parda metida numa capa de plstico era homem 
ou mulher.
     O ser permanecia imvel e curvo como um fantoche esquecido sobre o tempo, e olhava.
     
     

     
     
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     Nessa mesma noite, voltaram a brincar s escondidas por entre os tmulos, no cemitrio. Quando saltavam o muro do territrio sagrado j no eram seno um feixe 
de coraes estereofnicos; chegavam a temer que os mortos acordassem a rir s gargalhadas daquela orquestra cardiolgica. Faziam-se muito hericos. Os rapazes iavam 
as pequenas que ainda cheiravam ao quente da cama onde se tinham enfiado todas vestidas. Eram exmias em abrir a porta da rua sem o mnimo rudo. Treinavam-se a 
olear dobradias como a pintar os olhos, nas horas desertas das casas. Faziam ginstica pelos corredores para se tornarem leves nesse momento em que eles as tomavam 
nos braos, sobre o muro.
     Teresa s vezes sonhava que estava excessivamente pesada e que o seu par a abandonava do lado de c, no cho. 
     "Salta, Comanecci!", ordenava-lhe agora o seu prncipe Joo, e ela fechou os olhos e voou para o colo dele tonta de alegria, a acreditar que ele via mesmo nela 
a aura da estrela romena. 
     "Salta, Comanecci!", repetiu ele, como numa cano, mas Teresa olhou para trs e viu o corpo de Cludia ascendendo, radioso, s mos de Joo. Teresa decidiu 
ento que os rapazes se repetem para melhor se ocultarem. Joo recordara-se de Nadia Comanecci em honra dela. 
     A frase transbordara da sua viril timidez, e ele apressara-se a banaliz-la para que ningum entendesse o que ela queria dizer. E evidentemente, o que a frase 
queria dizer era que Joo amava Teresa.
     Cludia nunca atribuiria quela frase outro significado que no o literal. Literalmente, o que a frase dizia era: "V l, no tenhas medo, sobe!". Eventualmente, 
em post-scriptum, poderia tambm querer dizer: "Sou to engraado, no sou?".
     Mas era s isso. Mesmo que estivesse apaixonada por Joo, Cludia no levaria mais longe aquelas palavras. Mas nunca lhe passaria pela cabea apaixonar-se por 
Joo. Nem sequer se apaixonara por Ricardo. "Traio-te enquanto te atraio", era o seu lema secreto. No por uma especial resoluo de infidelidade, mas porque lera 
nos olhos tristes da me que os homens tm em geral a fatalidade de se prenderem ao desapego.
     Cludia no era capaz de inventar romances e torn-los reais.
     "No tenho imaginao", confessava ela, com uma inveja simptica, quando lia os poemas de Teresa. "Onde  que tu vais buscar estas coisas?" Depois ria-se: "Que 
grande romntica que tu me saste!" O rosto de Teresa iluminava-se, e comeava a pensar na grande tragdia amorosa que ia criar para si.
     Cludia era to bonita e to prtica que estava definitivamente arredada desse grandioso destino.
     O jogo tinha regras precisas: sorteava-se a vtima, que contava at trinta para que os fantasmas corressem a esconder-se atrs das campas. De olhos vendados, 
a vtima tinha que procurar, agarrar e nomear o fantasma, sem falar com ele.
     Todas as partes do corpo serviam para o jogo; e, uma vez agarrado, o fantasma tinha que ficar quieto a deixar-se identificar. Se a vtima errasse o nome, continuaria 
a sua peregrinao de morto-vivo at ao reconheci-mento. Ento, o fantasma revelado tornar-se-ia a prxima vtima humana. Tratava-se de um jogo muito simples.
     Ricardo Luz estava atrasado, e os outros hesitavam em jogar sem ele. Diziam que era chato, que no tinha graa, mas na verdade tinham sobretudo medo de provocar 
a ira do deus, porque Cludia estava ali. Viam-no j atroando os ares de insultos e acusaes temveis, bramando que o que eles queriam era pr as mos no corpo 
da rainha, entre outras coisas. As raras zangas de Ricardo Luz desencadeavam tremores de terra.
     Sem ele, punham-se a andar  toa, a irritar-se uns com os outros, a deixar de ter ideias divertidas, a pensar no mundo.
     Filipe sussurrava agora meiguices pueris ao ouvido de Isabel.
     Beijava-a muito e com muito aparato, como sempre que os outros estavam por perto. Isabel fechava os olhos e encolhia-se-lhe nos braos para fingir que estavam 
sozinhos e que ele continuaria a ser assim extremoso se no houvesse ali mais ningum. Mas sentia-lhe nos ombros um perfume horrivelmente alheio. Durante muito tempo 
Isabel no percebera que odor era aquele. At que um dia a criada entrou no quarto e ajoelhou-se ao seu lado a arrumar as camisas na gaveta. Desde ento, Isabel 
recusava-se a ir a casa de Filipe quando a criada estava l. No suportava a memria do sorriso maternal que a mulher lhe lanara, acariciando devagar as camisas 
do namorado dela. Estava tudo dito, e Isabel calara-se uma vez mais.
     Jurara a si prpria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro 
a gua-de-colnia barata misturada de suores. A intimidade no podia compadecer-se da desordem dos sentidos. Para Isabel, o amor pertencia ao reino da absoluta inaco. 
Filipe podia fazer tudo o que quisesse, desde que continuasse a preferi-la num s olhar. O resto - os beijos, as prendas, os chocolates que ele lhe dava - eram legitimaes 
exteriores, apetites momen-tneos, que no tinham mais significado do que os gritos, os amuos e o tal perfume de criada. Se algum ousava defend-la da ocasional 
brutalidade do amado, revelava-se feroz: "No te metas. Ningum tem nada a ver com isto." Depois fazia-se um grande silncio.
     Isabel sabia tornar-se invisvel como ningum. Teresa passava horas a olhar para ela, meditando no desperdcio de tamanha beleza.
     
     Neste mesmo instante, Teresa  Isabel, recebendo o beijo de Joo da boca de Filipe. Mas no  Joo nem Filipe nem sequer Radar quem agora a descobre. "Este 
fantasma chama-se Teresa!" - o grito da vitria vem de Cludia. O jogo recomea, Teresa treme de pavor, para dizer a verdade odeia andar ali entre tmulos, est 
sempre a pensar que vai tropear e cair e tornar-se ridcula. Concentra-se, mas  difcil achar o cheiro de Joo naquela terra hmida, confunde-o com os outros, 
ainda agora agarra nas mos do Linhos e desata a tremer, percorre-lhe devagar os braos e o peito, o nariz e os olhos, dedo a dedo, toca-lhe os lbios e sussurra: 
"Joo". O Linhos fica feliz, por uma vez tomaram-no por um homem como os outros, se ao menos Deus Nosso Senhor lhe concedesse a voz de Joo, por um segundo, s para 
ele poder dizer que sim. V-se obrigado a berrar "Querias!", Ricardo faz "Schiu, ainda acordam a mortandade!", Teresa volta a contar at trinta e depois, que remdio, 
acaba por identificar Cludia.
     Mas hoje Cludia no corre, leve e eficiente, como de costume.
     Demora-se e afasta-se cada vez mais para os confins do cemitrio, onde nunca ningum se esconde. H entre eles um acordo tcito de susto que delimita a rea 
do jogo. Para l do primeiro quarteiro  campo implicitamente proibido. Esta noite Cludia passa a fronteira dos jazigos de famlia, avanando s cegas, perdido 
o medo e a coragem dele, perdida a bssola brilhante e a certeza dos passos, perdido tudo o que no seja o aroma a rosas queimadas em lcool e terra molhada.
     Parecia sonmbula. Talvez fosse isso. Talvez o objecto spero em que o p de Cludia bateu no fosse mais do que uma alucinao. Mas ela juraria que o objecto 
se ergueu de um pulo e correu com todas as foras para longe dali. No sabia como  que tinha ido parar justamente quele stio. Lembrava-se apenas de um embate 
e de um corpo fugindo pela noite, a resfolegar.
     
     

     
     
      3
     
     Enquanto o ciclo de cinema pornogrfico decorria  porta fechada na sala de Ricardo Luz, as donzelas cavaqueavam na varanda. Mas Cludia estava cada vez menos 
pelos ajustes, e incitava  rebelio. Comeou por declarar que sentia um frio desgraado e que aquela cambada de tarados sexuais no tinha o direito de as deixar 
ali especadas a tarde inteira, capazes at de apanharem alguma gripe. A Isabel ainda puxou dos berlindes que trazia no bolso, numa tentativa de conciliao.
     Cludia ficou danada e ps-se a clamar contra a submisso feminina:
     - Esta agora anda-me de berlindes para se entreter, onde  que j se viu.
     Clamou tanto que a cabea do Radar acabou por aparecer do lado de l do vidro, entre as cortinas, com as sobrancelhas franzidas e um dedo  frente da boca. 
Cludia ps-se a abanar a porta e a despejar palavres. A cabea eclipsou-se, mas Cludia teimava furiosamente na porta e no discurso metafrico. Ento deixou de 
se ouvir o rudo compassado da mquina de projeco, e Ricardo Luz surgiu de rompante. Isabel comeou a roer as unhas e Teresa ps-se a olhar para a rua com toda 
a ateno, como se a gritaria no existisse. Alis, foi tudo muito rpido. De repente, Cludia j tinha proclamado a igualdade de direitos das mulheres, Ricardo 
Luz j tinha tentado beij-la e logrado esbofete-la, e agora ela ali estava, muito digna, ainda a sacudir da mo a dor da bofetada de resposta:
     - Ento, meninas, vo continuar presas neste galinheiro ou vm comigo?
     Teresa pediu-lhe que se acalmasse. Isabel limitou-se a corar tudo o que podia, e era muito. Quando Cludia saiu feita furaco, juntaram-se as duas a segredar, 
preocupadas, acerca da sade mental dela e do que iria acontecer a seguir. Os rapazes sorriam-lhes e abriam uma cerveja para Ricardo Luz.
     - Queres beber qualquer coisa, Isabelinha? E a Teresoca, tambm no? Ento at j, bonequinhas.
     Isabel fez-se outra vez vermelha, e pensou duas coisas: primeiro - o Filipe fica to ridculo quando se esfora para ser bonzinho; segundo - o Ricardo s vezes 
 um bocado parvo. Teresa no se fez vermelha, e s pensou que a Isabel e a Cludia eram as pessoas mais felizes do mundo.
     s vezes cresce-se para trs, para o stio onde se guarda a infncia, iluminada pelas luzes trmulas das experincias que depois vieram. Cludia passeava pelos 
prdios em construo. Adorava trepar pelos andaimes, subir at l acima e ficar sentada sobre uma tbua estreitssima a olhar para a rua.
     Os guindastes estavam parados, os homens lavavam os automveis enquanto ouviam os relatos no rdio e os midos jogavam  bola. Do alto daquele prdio inacabado 
os barulhos da rua pareciam sons de pssaros, intermitentes e agudos. O sol estava ainda arrefecido mas o ar azul falava dos prximos dias de Vero, e subitamente 
ela viu-se triste. Entrou pelo apartamento sem portas nem janelas nem divises e ps-se a imaginar como seria aquela casa quando as pessoas l morassem. Desejou 
que os operrios no voltassem e que o prdio ficasse sempre assim, vago e oco, s para ela. Tinha comeado a desenhar uma cidade com bocadinhos de tijolo quando 
ouviu passos atrs de si. Voltou-se e estremeceu. No precisou de lhe distinguir os grandes olhos castanhos, o nariz arrebitado ou os lbios carnudos para perceber 
que aquele recorte em contraluz era Dinis Marta.
     O irmo de Isabel Marta no pertencia a grupo algum. Se fosse malparecido ou acanhado o seu isolamento no seria desconcertante. Mas Dinis era um rapaz normalssimo. 
 certo que estava entre os melhores do liceu em Portugus e Filosofia, mas tambm brilhava em Educao Fsica, o que o livrava do estigma da debilidade. Dizia-se 
que tinha uns amigos em Lisboa. Viam-no sair do autocarro ao fim da tarde.
     Passava por eles e cumprimentava-os com um sorriso to seguro que nem sequer podiam zombar-lhe a reverncia. No havia meio de encontrar uma alcunha para aquele 
enervante Dinis, que ainda por cima era da famlia de Isabel. Limitavam-se por isso a retribuir-lhe os "ols" distantes com um mutismo desdenhoso.
     Cludia nunca o vira seno de longe, quando passava, e no lhe dava mais importncia do que qualquer um dos outros. At ao momento daquela proximidade, no funeral 
de Mariana. A terra a cair sobre o caixo, o cu a desfazer-se em chuva e de repente um perfume terrvel, o brao dele a raspar no ombro dela.
     Passara mais de um ms sobre esse segundo, e Cludia reparava nisso agora que Dinis avanava lentamente para ela.
     - Desculpa. Vou-me j embora. Julgava que no estava aqui ningum.
     Exactamente assim? Ou teria sido:
     - Vou-me j embora. Julgava que no estava aqui ningum. Desculpa.
     A ordem das palavras no  arbitrria, nunca. Sobretudo a ordem das palavras banais, impensadas. Cludia reteve apenas duas: "Desculpa" e "Ningum". E guardou-as 
soltas, com o eco que elas nunca teriam irradiado na sequncia da frase. Dinis disse que se ia embora mas ficou. Perguntou-lhe se estava a desenhar uma base espacial 
e ela explicou-lhe que era uma cidade de outro planeta, com arranha-cus em forma de estrela.
     - E as estrelas so todas envidraadas e encaixam umas nas outras, para as pessoas poderem saltar de janela para janela quando lhes apetecer, ests a ver?
     A Dinis parecia-lhe aquela arquitectura indesejavelmente indiscreta, mas Cludia argumentava que a bisbilhotice no era menor nos prdios de cimento armado. 
     - Nestes prdios de estrelas no h porteiras, e pode-se sair de uma casa para outra sem que ningum fique a saber.  muito mais secreto.
     Dinis mencionou ento um filme chamado "Janela Indiscreta", mas Cludia no conhecia. Fez-se um silncio embaraoso.
     Cludia no tinha jeito nenhum para o silncio.
     - A Isabel disse-me que tu querias ser maestro. Contou-me que uma vez chegaste a partir o jarro de porcelana da sala com uma colher de pau, quando estavas 
a reger a orquestra, ao som da nona sinfonia de Beethoven.
     - Era Wagner.
     Em circunstncias normais, Cludia teria encolhido os ombros e continuado a rir. Mas desta vez sentia-se apenas pequena e humilde. Repetia para si mesma "Hitchcock. 
Wagner", furiosa por no possuir um qualquer nome pesado e estrangeiro que a pudesse distinguir. Humilde, mas ainda assim furiosa por inteiro. Fitou-o com a expresso 
de uma tristeza infinda.
     Talvez Cludia soubesse que tudo quanto se diz  a mentira de uma verdade apenas pressentida, e os seus olhos revelavam, sem que ela o suspeitasse, que a humildade 
no  mais do que uma das mltiplas formas da compaixo. Dinis no sabia o que fazer daquele olhar to cheio de mgoa e desamparo. E largou num riso estranho, contagioso, 
fora do tempo.
     
     L em baixo, a banda dos bombeiros marchava, trajada a rigor, ao som de uma cantiga muito antiga. Era uma  cantiga muito simples que lembrava a Dinis aquela 
madrugada em que a Adlia tinha ido bater  porta dos pais dele, aos gritos: "Oh minha senhora, Deus nos valha, anda a uma revoluo! Os homens estavam agorinha 
mesmo a dizer ali na rdio que as Foras Armadas esto a acabar com o regime! At falaram de arrombamentos de sangue e tudo, minha Nossa Senhora!". O rapaz saltara 
da cama mais do que depressa e correra a perguntar se a revoluo era feita pelos bons ou pelos maus, mas os pais estavam to aflitos como ele e tambm no sabiam. 
Naquela madrugada de quinta-feira, Dinis obteve uma informao indita e preciosa: afinal de contas, os pais tambm no sabiam tudo. Eram iguais a ele. A princpio 
no gostou muito da novidade. Sentia que a qualquer momento lhe podia cair uma bomba na cabea ou entrar um nazi pela sala de jantar e dar-lhe um tiro, sem que a 
famlia pudesse fazer nada para o evitar.
     Claro que antes da revoluo ele j tinha percebido que havia pessoas to poderosas que at os crescidos tinham medo delas.
     s vezes o pai barafustava contra o chefe do Governo, e punha-se aos gritos: "Desliga-me essa porcaria, que faz mal  vista!" quando o senhor aparecia na televiso. 
Ento a me dava em tremer e pedia-lhe que falasse mais baixo, porque as paredes tinham ouvidos. "Com esse teu feitio, filho, com essa mania que tu tens de ferver 
em pouca gua, ainda um dia vais parar  priso." O rapaz no alcanava o motivo que levava as mes a tratarem os pais por filhos, mas achava piada. Cogitava que 
no era possvel vir um polcia para levar o pai para a priso s porque ele no gostava daquelas conversas em famlia, que eram realmente muito chatinhas, e parecia-lhe 
que a me s dizia aquelas coisas para calar o pai. Era o mesmo estratagema que a Adlia usava para o fazer comer a sopa: "Se o menino no come, vem o homem do saco 
e leva-o."
     Ora. O pior  que um dia o pai decidiu mesmo vender a televiso. Disse: "No quero mais fascismo dentro da minha casa", e acabaram-se de vez os desenhos animados 
e as tardes de domingo com a Shirley Temple. E de outra vez, estava ele entretido a pintar bigodes e chifres e cabeleiras de mulher e assim nas caras dos senhores 
que apareciam nos jornais quando a me entrou na sala aos berros: "O que  que tu ests a fazer, mido? Queres desgraar-nos a todos? Tu nunca mais me voltes a fazer 
isso, ouviste? Se esses senhores sabem que tu ests a fazer pouco deles vm c a casa e levam-te preso, ouviste?" E depois a me enfiou os jornais no lava-loua 
e queimou-os, para ningum ver.
     Mas a partir daquele dia 25 de Abril a me no voltou a fazer "chiu!". Agora ela tambm rezingava, alto e bom som, que o ministro X era um parvo e que o secretrio 
de Estado Y ficava ridculo com aquele capachinho na cabea. Afinal no houve arrombamento de sangue, como dizia a Adlia. Ao fim da tarde, o pai levara-o pela mo 
at  rua, para ver as pessoas a rir e a chorar de alegria. Havia tanta gente na cidade que o pai acabara por o iar para os seus ombros: "Olha bem para esta festa, 
meu filho. Nunca te esqueas deste dia." 
     Quando deu por isso, Dinis estava a lembrar-se em voz alta, e Cludia sorria-lhe. Por isso tratou de mudar de assunto muito depressa, como se no tivesse dado 
por nada. Contou-lhe peripcias do liceu, respostas impertinentes que punham os professores encabulados. Nem todos aqueles episdios tinham acontecido, mas isso 
s os tornava mais verdadeiros.
     Cludia e Dinis ainda estavam a rir-se quando as luzes da rua se acenderam, l em baixo. De repente ela olhou para o relgio e assustou-se. J devia estar em 
casa h mais de uma hora, ia ouvir outra vez do pai, e o Ricardo  que ia ficar com as culpas. Abandonaram rapidamente a cidade das estrelas, andaime a andaime. 
Estava escuro e o ar ameaava grandes turbulncias.
     Cludia vacilava. Dinis segurava-lhe a mo e avanava a passo firme, indicando-lhe o caminho, o que a punha cada vez mais trmula. O irmo de Isabel quis lev-la 
at casa e ela estava mesmo para dizer que sim quando a voz do Radar surgiu do Alm, mais precisamente do patamar do 45-a, atroando os cus de estrofes sexuais em 
honra de Murinelo.
     Murinelo vinha hoje de Severa, com o xaile negro a bater nas pedras da calada. Podia vir de Napoleo ou de Cinderela, de bobo da corte ou de sheik do petrleo, 
que os versos eram sempre os mesmos, ou quase. s vezes introduzia-lhe umas variaes subtis, substituindo os pormenores anatmicos ou trocando o adjectivo belo 
por vocbulos de idntica rima, tais como amarelo, chinelo, vitelo, marmelo e martelo. Da primeira vez, o homem do carto ofendeu-se e respondeu-lhes num complexo 
arrazoado que metia uma Dona gueda de Sousa Peres: Murinello, S-Carneiro e um insulto incompreensvel, que parecia "avaros", mas que depois a Teresa explicou ser 
"ignaros", sinnimo de ignorantes. A Teresa esclareceu-os ainda quanto ao tal S-Carneiro, que no era o poltico mas sim um poeta j morto, por sinal de suicdio, 
cuja me era a tal D. gueda. O que o homem queria portanto dizer era que Murinelo era um nome ilustre, daqueles que se escreviam com dois ll, e que eles eram todos 
uns analfabetos. Foi um fartote de rir. E as gargalhadas mais estridentes eram as de Teresa, porque os outros tinham precisado dela para perceberem aquela histria 
que tanto os fazia rir.
     Pela primeira vez, Cludia afligia-se com a brincadeira. Pela primeira vez, olhou para dentro dos olhos de Dinis e viu que ele tambm no achava graa. Teve 
vontade de chorar muito e de soprar sobre o corao dele at o lanar  deriva das suas lgrimas e disse-lhe que no, que no valia a pena, que era melhor ir sozinha, 
que estava atrasadssima, adeus. Depois virou-lhe as costas e correu com quantas foras tinha, rezando para que Ricardo Luz no tivesse tempo para a ver e vir a 
correr atrs dela, quando passasse pela horrvel zona do patamar 45-a.
     A hora de atraso valeu-lhe dois dias de clausura, que Cludia nem tentou quebrar. Ouviu incontveis vezes aquele disco velho da Amlia que o pai tanto amava 
e que sempre lhe parecera insuportavelmente choroso. Alm disso, devorou todas as reservas de bolachas que havia na despensa, sem sequer pensar que faltava menos 
de um ms para os campeonatos de ginstica. Colou o nariz  janela do quarto e deixou-se ficar assim, a olhar para as pessoas que saam do autocarro, at o cu ficar 
cor-de-rosa e vermelho e lils e preto. A me ps-lhe a mo na testa, disse que ela devia estar com febre.
     
     Nesses dois dias, Dinis Marta no foi para Lisboa de autocarro nem atravessou o bairro. Murinelo vestiu-se de mendigo e de militar. Cludia no acreditou que 
aquele oficial distinto pudesse ser o velho do carto.
     Murinelo possua um guarda-roupa prodigioso; em tempos, dizia-se, tinha feito fortuna e fama a alugar fatos para teatros. Mas isso tinha sido h muitos anos, 
ainda ela nem era nascida. Contava-se que fechara as portas no dia em que soube que o filho tinha morrido na guerra, e que depois endoidecera. Mas Cludia no o 
achava mesmo nada louco. Murinelo tinha uma balana quase to velha e to torta como ele para pesar carto e jornais, e nunca se enganava nas contas. Antes se enganasse: 
dois quilos de papel por vinte e cinco tostes era uma sovinice dos diabos. Cludia e as amigas chegavam a levar-lhe dez carregamentos num s dia, em vsperas de 
festas ou quando apareciam umas calas de ganga verdadeiramente americana nas lojas.
     As mscaras de Murinelo eram deslumbrantes mas cheiravam a naftalina e a chichi de gato, como ele. Alm disso, pareciam ter pelo menos dez sculos de p em 
cima. Mas aquela farda verde estava impecavelmente limpa. Os gales dourados cintilavam-lhe sobre os ombros. Cludia ficou fascinada a olhar para a figura quase 
loira que marchava sobre um par de botas reluzentes. Nunca tinha reparado que o velho tinha o cabelo loiro. Normalmente andava to porco e desgrenhado que era impossvel 
perceber-se onde  que comeava o cabelo e acabava a pasta de poeira. De repente, Murinelo parecia um cavalheiro de meia-idade, resplandecente como o av Matias.
     At aos seis anos de idade, o grande sonho de Cludia era andar de avio ou assistir a um enterro. As pessoas crescidas troavam dela, o que a princpio a irritava 
um bocado. Um dia Cludia percebeu que as pessoas, coitadas, no compreendiam o que ela lhes estava a dizer e deixou de se enervar. Limitou-se a dizer-lhes menos 
coisas, para no ter que lhes ver aqueles esgares patticos. Claro que aos cinco anos Cludia no pensava por estas palavras, pela simples razo de que no as conhecia, 
mas pensava por outras um bocadinho mais brutais que iam dar ao mesmo.
     O sonho de Cludia tornara-se absolutamente srio e cheio de lgica. Se as pessoas que morriam iam para o cu, era porque algum as levava ao colo, num escadote 
enorme, at  primeira nuvem. Portanto, quando os avies atravessavam as nuvens, as pessoas vivas olhavam atravs do vidro para as pessoas mortas, perguntavam-lhes 
se estavam boas, conversavam um bocadinho com elas e diziam-lhes adeus, at  prxima. Por isso  que as viagens areas estavam to caras e toda a gente gostava 
tanto e tinha tanto medo de andar de avio. Era preciso ter muito cuidado. s vezes o piloto do avio distraa-se a conversar com um amigo que encontrava numa nuvem 
e o avio caa. Claro que Cludia nunca contou esta histria inteirinha s pessoas crescidas, porque as pessoas crescidas rebentavam a rir mal ela lhes dizia que 
o seu sonho era andar de avio ou ir a um enterro. Fazia pena. Se calhar, cismava Cludia, elas no gostam de ouvir falar em mortos porque j esto muito velhas 
e no lhes apetece ainda passar para o outro mundo. Devia ser por isso que comeavam logo a fazer-lhe festas na cabea e a berrar que aquela criana era uma gracinha 
e a mudar de assunto. As pessoas crescidas tm a mania de fazer um grande alarido por qualquer coisinha. No dia em que os homens chegaram  Lua, que por sinal foi 
de noite, como se viu na televiso, fartaram-se de lhe pegar ao colo e de a abanar e de lhe gritar aos ouvidos: "Tu sabes o que isto significa? Tu ests a ver? Os 
homens chegaram  Lua num fogueto, percebes!". Como se ela fosse burra e como se a Lua no estivesse mesmo ali,  vista de toda a gente.
     S o av Matias se parecia com ela, nisso de vaiar os espantos em vez de os tomar por surpresas.
     

     
     
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     A gua pesava sobre os remos, mas era preciso chegar quele salgueiro, l adiante. "Rema, rema, av" - incitava ela - "mais depressa!" E o av no estava disposto 
a perder o grau de heri por causa de dois pedaos de madeira e um bocadinho de rio.
     Quando o homem apitou, regressaram  margem, saltaram do barco, compraram dois gelados e passearam pela cidade. Matias escolhia as ruas mais movimentadas, onde 
sempre aparecia um amigo a dizer: "Que linda neta que tu tens! E  to parecida contigo!" Cludia franzia as sobrancelhas, a magicar que se calhar os velhos achavam 
que as pessoas eram todas parecidas.
      que por mais que olhasse, no conseguia perceber. O av Matias tinha rugas, olhos azuis, cabelos loiros e lisos. Ela tinha a pele completamente esticada e 
os olhos castanhos como os cabelos, aos caracis. E sobre os caracis dela havia um lacinho, coisa que o av s usava sobre o colarinho da camisa.
     Imaginar o av com um lacinho em cima da cabea deu-lhe uma desbragada vontade de rir. Mas o av achou que Cludia se ria de o ouvir explicar ao amigo que andava 
ali a passear porque a menina gostava de ver gente, e ficou amuado.
     Tratava-se de um lamentvel equvoco; Cludia nunca denunciaria a meiga vaidade do av, porque ficava fascinada com o brilho que essa vaidade punha nos olhos 
dele. Alm disso, para ser sincera, adorava que as pessoas dissessem que era bonita. O mais engraado  que as pessoas pensavam que ela no percebia os elogios, 
porque era muito pequena. Ento Cludia fazia-se distrada e julgava-se um gnio de perspiccia, embora por outras palavras. Era assim: se os crescidos a achavam 
pequena de mais para perceber o que diziam dela, era porque no tempo em que eram pequenos no percebiam o que diziam deles. Logo, ela era mais esperta do que o normal 
numa pessoa to pequena.
     Mas agora o av puxava-lhe pela mo, amuado, informando-a de que tinham que ir para casa porque a av Lurdes os esperava para lanchar. Ainda mal tinham aberto 
a porta, j a av despejava o seu rosrio de lamrias:
     - O qu, to cedo, l vm vocs sujar-me tudo, ainda nem tive tempo para preparar o lanche, tenho tanta coisa para fazer, e di-me tanto a cabea!
     As dores de cabea da av Lurdes tinham pelo menos os sessenta e cinco anos dela. O av Matias riu-se, dobrou-se at chegar ao ouvido de Cludia, murmurou-lhe: 
"Vamos fugir os dois!", agarrou-lhe na mo e desarvoraram a correr pela escada abaixo.
     A av Lurdes brandia contra o mundo a fina perversidade da resignao, o que lhe valia o ttulo de santa, pelo menos entre a vizinhana. Cludia no conseguia 
entender como  que uma mulher que nunca sorria, que nunca tinha um rebuado no bolso e que nunca parava de rezingar podia ser uma santa.
     Santo era o av Matias, e foi isso mesmo o que ela disse uma vez alto e bom som  tia Dulce. A senhora ficou com a cara esquisita que a prpria av Lurdes tinha 
posto daquela vez que estava na sala a comentar com umas amigas a pouca-vergonha da gravidez de uma rapariga solteira e Cludia esclarecera que a rapariga no tinha 
culpa porque os filhos apareciam por vontade de Deus. Por mais que magicasse, Cludia no compreendia a razo das pessoas crescidas ficarem to caladas quando se 
lhes dizia aquelas verdades elementares. Na catequese ensinavam-lhe que os santos eram alegres e bonzinhos e que os bebs eram presentes de Deus. C fora, parecia 
que as coisas estavam todas ao contrrio. A av Lurdes, que j nascera com dores de cabea e a detestar passeios, praias, cinemas, televiso e crianas, era uma 
santa. S se era por ir a todos os enterros da cidade. Nos dias de funerais, a av Lurdes nunca tinha dores. Acordava cedinho, arrumava a casa muito depressa, arranjava 
o cabelo, punha o seu melhor vestido, que era preto, e saa de casa a passo ligeiro, com os olhos a brilhar, sem se zangar com ningum. Mas Cludia no gostava do 
brilho dos olhos da av Lurdes. Era uma fasca fria, metlica.
     s vezes Matias sentia que casara com uma alma penada disfarada de mulher. Namoraram-se pouco tempo, e quase sempre de janela para janela. Lurdes tinha uns 
longes interessantes.
     Quando a viu de perto, Matias percebeu que aqueles olhos encovados no ocultavam mistrio algum, a no ser o do mais irrecupervel embaciamento. Mas nessa altura 
j se encontrava casado com ela, para o melhor e para o pior. Lurdes devia estar desatenta quando o padre mencionou "o melhor", e jamais lhe ocorreu que acompanhar 
o marido nas suas misses ao estrangeiro ou sair com ele ao domingo pudesse fazer parte das atribuies conjugais. Ou talvez nunca tivesse pensado nisso.
     Na noite de npcias, Lurdes mostrou ao marido a arca onde guardava a sua roupa de defunta e o tero que ele lhe havia de meter entre os dedos. Depois saiu do 
quarto para vestir a camisa de flanela e pediu-lhe que fechasse a luz antes de entrar. Caiu sobre a cama, suspirou, disse-lhe que lhe doa a cabea e entregou-se-lhe 
com a rgida indiferena de uma morta.
     Por infelicidade, Lurdes nunca teve sequer uma gripe. Esta absoluta ausncia de tragdia forava-a a terrveis malabarismos de imaginao. Teve que ampliar 
cem vezes os padecimentos do parto para conseguir estimular as compaixes. Inventou ferros de tortura, feridas sem retorno, para poder explicar o acto do nascimento. 
E avisou Matias da impossibilidade de um prximo filho. Matias ainda argumentou que uma criana precisa de um irmo para crescer com alegria.
     Mas Lurdes interrompeu-o logo com a sua voz magrinha e lamentosa, alegando que as crianas trazem em si alegria que chega e sobra, e que quanto mais cedo perceberem 
que viemos ao mundo para expiar os nossos pecados, pois tanto melhor, e que ela prpria tambm tinha sido filha nica e no se queixava, e que ainda por cima a vida 
estava muito cara para esses luxos de meninos, e que bem se via que no era ele quem os paria, e que alm de tudo ela estava muito velha para ter mais filhos.
     Lurdes tinha s trinta e dois anos quando deu  luz a menina que havia de vir a ser me de Cludia, mas Matias nem protestou. Podia ter-se amaldioado por no 
ter casado mais cedo, com uma daquelas camponesas sadias que catrapiscavam os rapazes fardados, ou com uma chinesa de olhos planos, que as havia to gentis em Macau. 
Mas o arrependimento no era o seu forte. Adiara a paixo definitiva porque cada viagem o deslumbrava. Lurdes encontrara-o chapado em frente da sua janela porque 
nunca lhe passara pela cabea procurar fosse o que fosse para alm dela. Matias soube depois que s uma vez Lurdes sara daquela cidadezinha, aos quinze anos e a 
rogo de uma amiga, para ir  praia, ali a vinte quilmetros. Foi muda durante toda a viagem e, quando l chegou, olhou para o mar e perguntou aos pais da companheira 
se faltava muito para voltarem para casa. Durante os breves meses do noivado, Matias tomara os suspiros da sua eleita por nsias incontidas, e os seus longos silncios 
por cismas de paraso. Cara na emboscada recorrente das almas expansivas, que  a de contundirem alheamento e timidez, e de se apaixonarem perdidamente por essa 
profunda iluso.
     
     Atiraram-se para o primeiro banco do jardim, j sem flego. O av apertou-a com toda a fora e encheu-a de beijos. Os amuos do av Matias eram sempre rpidos 
e inesperados como um vendaval que se esquecia logo. O av tirou um lpis e um caderno do bolso para lhe ensinar as letras, mas Cludia saltou para o cho e disse 
que s lhe apetecia danar.
     Cludia julga que se lembra de todas as conversas e brincadeiras que teve com o av Matias. De como ele lhe escondia as bonecas, s para troar de a ver furiosa, 
quando era muito pequenina, ou de como ele a pendurava pelos ps quando ela se engasgava, at que o rebuado casse no tapete.
     E depois, muito depois, quando ela andava na escola primria e ele lhe contava a Histria de Portugal de uma maneira distinta de toda a gente. O av s fizera 
a escola primria porque tinha sido muito pobre, e no pudera estudar tudo o que queria.
     Lurdes rabujara horas a fio quando Matias decidiu que a filha iria para Lisboa tirar um curso, por muitos sacrifcios que isso lhes custasse e por mais que 
as ms-lnguas soltassem as suas profecias de escndalo. E agora Lurdes ralhava-lhe de manh  noite porque ele se metera a estudar, depois de reformado. Chamava-lhe 
velho baboso, velho jarreta e outras coisas assim, insignificantes, que Cludia derretia com uma s frase: "Sabes tantas coisas, av!"
     O av falava-lhe daqueles dias em que os livros eram reproduzidos  mo pelo calor do chumbo - ou antes ainda, quando os manuscritos sobreviviam aos mares, 
 fora de braos. Ento os caminhos repartiam-se em dois. Ousava-se at  glria ou at  morte, fosse ela de esquecimento ou de esttuas. Havia palavras grandes 
como Eternidade, e as pequenas escreviam-se com maisculas, como F. "Ns, portugueses, sempre preferimos o luxo ao conforto; sempre preferimos descobrir a investir. 
Deitvamos bois pelas ameias quando estvamos a morrer de fome, para que os inimigos no suspeitassem da nossa misria. Vestamo-nos dos mais finos brocados quando 
os dinheiros das ndias se escoavam. Sempre soubemos desprezar as necessidades primrias em favor de frivolidades extraordinrias. Percebes, Cludia?" Cludia fazia 
que sim, mesmo quando no percebia muito bem. Adorava aqueles versos do Cames para Dinamene, que o av recitava de cor como se estivesse no teatro, mas no percebia 
o que  que a raposa que estava l no cu eternamente tinha a ver com a "alma minha gentil que te partiste / to cedo desta vida descontente".
     Fazia-se tarde. O rio puxava o sol com a delicadeza que as mes costumam usar para tirar a chupeta da boca dos bebs adormecidos. A essa hora voltavam os dois 
para a casa velha onde estava a velha av a rabujar porque era quase Primavera e as andorinhas estavam de volta e iam fazer ninhos debaixo das suas telhas e iam 
sujar-lhe os vidros todos.
     Cludia colava o nariz ao vidro a olhar para Murinelo-militar e a lembrar-se do cabelo do av Matias, loiro e frgil sobre o lenol do hospital, h exactamente 
cinco anos. Comeava o calor, havia uma multido de gente feliz na rua com cravos na mo, a cantar coisas tontas, cativantes. A me de Cludia fazia a barba ao av 
Matias, muito devagarinho, e ia-lhe dizendo: "Houve uma revoluo, percebe, paizinho? Os capites como o paizinho juntaram-se todos e acabaram com a ditadura, percebe 
paizinho?  uma festa, paizinho." A me de Cludia estava muito triste porque o pai estava a morrer sem saber o que se passava. Mas Cludia jura que viu os olhos 
dele a brilhar de marotice, como se tivesse acabado de lhe roubar a boneca favorita, s para a enganar.
     

     
     
     
      5
     
     Roubar gasolina era a missa de sexta-feira  noite. Tinha um lado prtico - salv-los do inferno da imobilidade, e um lado metafsico - uni-los pelos laos 
da cumplicidade. As raparigas faziam de vigilantes, com grande profissiona-lismo.
     Infelizmente, no havia palmas. Mas havia alguma coisa de melhor e maior: a honra intensa de defenderem os seus rapazes.
     O ar queimava como gelo debaixo da pele. Esperavam h quase duas horas que o turno da polcia mudasse e que o Bigodes aparecesse. O Bigodes dominava as artes 
da sociabilidade; sabia cavaquear, sempre que acendia um cigarro oferecia outro e adivinhava o instante exacto em que devia mudar de passeio para deixar os rapazes 
entregues ao seu trabalho. Em tudo se distinguia do Troca-passo, que andava para ali noites inteiras sozinho, sem falar a vivalma, com o modo turvo dos deserdados 
do mundo. Havia que ter pacincia.
     Era quase meia-noite, hora limite das donzelas, quando o labor arrancou. Cludia instigava os mancebos a que se despachassem, sob pena de passarem a noite seguinte 
a danar uns com os outros. Filipe fez-lhe notar que as meninas das vivendas haviam de l estar todas, mui suspirantes,  espera da pura reencarnao de Marlon Brando 
que era a sua pessoa.
     As meninas das vivendas eram o grande trunfo dos rapazes; conferiam-lhes a fora quimrica de uma instituio de modo a manterem as suas raparigas em sentido. 
Cludia e as outras tratavam de as desdenhar com aplicao, em anlises cidas que comeavam pela biqueira dos sapatos e acabavam no ltimo caracol de cabelo. "So 
umas pirosas", concluam, muito senhoras de si. E uns dias mais tarde, apareciam com uns fios de ouro ou umas prolas maternas debaixo dos bluses de ganga.
     Mas certa vez, depois de uma festa particularmente torturante, Teresa estragou tudo; surgiu vestida  menina das vivendas - saia de pregas, soquete branca, 
brincos dourados, cabelo em cascata - e foi recebida com um coro de enxovalhos. Nem Isabel lhe poupou gargalhadas, porque aquele excesso comprometia toda uma trajectria 
de mansas diligncias em prol da extino das meninas das vivendas.
     No era possvel sequer ter pena de Teresa, porque a pena que ela tinha por si prpria cavava um fosso de seriedade entre ela e o mundo, e no h maior antdoto 
para a ternura do que a sisudez. Teresa era uma sentimental e julgava-se romntica; sobrestimava-se na ideia de amar toda a gente. Ora um amor alheado de estmulo 
apresenta-se, no mnimo, como uma ofensa, uma incitao  crueldade. Teresa sentia-se dilaceradamente acima do comum dos mortais, e encontrava nessa divina fatalidade 
o ali mento da sua sobrevivncia. Jamais lhe ocorrera que aquele seu sentimento de excepcionalidade pudesse ser a causa do ostracismo a que os rapazes a votavam 
nas festas. Como todas as pessoas vaidosas, julgava-se um poo de obscuridade e era um lago de impdicas transparncias.
     Assim, Teresa estava convencida de que os rapazes a deixavam sentada a um canto porque no lhe encontravam a ftil beleza das outras. A futilidade era o seu 
grande consolo e a sua tremenda impossibilidade. Era mope, mas preferia no ver a usar culos. Passava horas ao espelho a combinar saias e blusas, mas nunca conseguia 
nada que se assemelhasse a uma imagem de descontrada elegncia.
     Cludia decidiu ignorar a histria das meninas das vivendas e cobrir de ridculo a imagem cinematogrfica de Filipe. Disse qualquer coisa acerca de Brandos 
das vivas da sorte. Ps toda a gente a rir e Isabel com aquela vontade de chorar seca e funda em que ningum reparava. Nem sequer Filipe, que se sossegava na ideia 
de que a amava muito, e muito bem.
     Filipe cultivava a maior das misoginias, que  a de compreender as mulheres. Costumava dizer que havia trs variedades de Belas Adormecidas: as mais baratas 
eram as que no acordavam nunca; dentro da gama mais sofisticada, que acorda com um beijo, havia as que tinham um mecanismo para adormecer outra vez e as que no 
voltavam a adormecer, por mais que se lhes fizesse - e eram estas, evidentemente, as que saam mais caras.
     Isabel esforava-se por relembrar constantemente o instante redentor. Fazia um calor hmido. O cho do caf estava forrado de beatas. O empregado demorava horas 
entre uma cerveja e outra. Sim, ela lembrava-se de tudo. Da camisa azul, do isqueiro que no funcionava, das flores tortas que ela ia desenhando no guardanapo de 
papel, sempre a repetir que no tinha jeito nenhum. s tantas, Filipe disse-lhe que as flores ficavam tortas porque tinham vergonha.
     - Vergonha de qu? - perguntou.
     -Vergonha de serem s flores, ao p dos teus dedos. - respondeu ele.
     Hoje, custa-lhe a acreditar que ele tenha mesmo dito um disparate daqueles. E que tudo fosse verdade. Fazia um calor hmido e mal se conheciam. A seduo no 
 ntima da perversidade. Move-se no terreno seguro do jogo. Ele olhava, ela ria-se, a mo dela tremia e ele tecia-lhe elogios desajeitados aos dedos. Era tudo to 
bvio. Depois o jogo acabou. Disseram tudo, e disseram que tudo havia de ser para sempre. E desde ento, ficaram sem recordaes.
     Isabel nunca soube o que era a leviandade, o que a tornou casta e desastrada na expresso dos amores. Sobressaa; era a mais alta das trs raparigas que formavam 
a barreira de proteco nas manobras de transferncia de combustvel. Olhava a distncia como um faroleiro disciplinado, mas no via; limitava-se a sentir o desconforto 
daquela noite igual a milhares de outras. As vozes dos amigos chegavam-lhe lentas, longnquas como sopros de outra vida. Falavam agora de roupas, fatos de festa, 
saldos.
     De repente, no fim do Inverno, parecia que estava tudo em saldo. Saldavam-se as contas com o passado, verificava-se que afinal nada tinha sido exactamente assim, 
revolviam-se as gavetas para deitar fora o que j no prestava, compravam-se roupas novas em lojas de promoo, remexia-se, renegava-se.
     As meninas adquiriam a bom preo o bafio das modas anteriores, com aquele ar espertalho de desafio ao futuro. Saias sem forro, calas que picavam, fibra sinttica 
que parecia mesmo mesmo l, napa em vez de cabedal. Mas amanh era festa, o ritual do traje tinha que se cumprir a rigor.
     - E tu, Isabel, o que  que vais levar?
     Encolheu os ombros, informou sumidamente que qualquer coisa.
     Ou uma coisa qualquer, melhor dito. Umas calas, que os vestidos no lhe ficavam bem. Filipe discordava: de mini-saia e salto-agulha  que ela havia de deslumbrar 
multides. Isabel detestava-se a si prpria quando o ouvia perorar sobre esttica feminina, porque era obrigada a desprez-lo.  certo que no tivera foras para 
deitar fora os sapatos de cetim vermelho que ele lhe oferecera, mas escondera-os na arrecadao. Recriminava-se: "No sei gostar dele, porque no consigo deixar 
de ver o mau gosto dele.
     Adoro-o mas no sei gostar dele, o que quer dizer que no sei gostar de ningum. Alis, se ele no tivesse mau gosto, tambm no gostava de mim." s vezes Isabel 
tinha a impresso que, no fundo, Teresa era o sonho de Filipe. Chegava mesmo a sentir cimes, porque Filipe costumava elogiar as bijutarias farfalhudas que Teresa 
usava. E, o que era pior, Teresa ficava engraada com aquelas bugigangas excessivas.
     Teresa estava sempre to ocupada a desmerecer-se que no dava por nada. Sentia pena de no fazer um gnero, como as outras duas. Os vestidos tornavam-na demasiado 
menina, as calas de ganga demasiado banal. Mas desta vez nada disso importava, porque o Joo pedira-lhe para o ajudar a escolher umas calas e uma camisa, na manh 
seguinte. 
     - Amanh vou s compras com o Joo, e logo decido. - declarou, afastando da testa a franja de cabelos escorridos, quase a explodir de orgulho.
     - Ah,  verdade, Teresoca. Esqueci-me de te dizer que amanh afinal no vou contigo. Fiquei de ir a casa da Alexandra arranjar-lhe as dobradias da escrivaninha, 
e depois ela vai escolher a roupa comigo.
     Teresa j nem ouviu os comentrios a propsito das mltiplas espcies de dobradias existentes no mercado e sobre a forma de as consertar, nem as dissertaes 
acerca do sbito apego de Joo aos trabalhos manuais. Disse:
     - Deixa l, no faz mal. - e tratou de se concentrar na espinhosa tarefa da conteno do choro.
     Teresa chorava com uma facilidade prodigiosa. Isabel admirava-lhe sinceramente a tcnica.
     
     J estavam a arrumar o tubo de aspirao e as ferramentas quando o Linhos chegou bradando que o automvel que haviam acabado de esvaziar era o do pai dele. 
Ningum sabia que o pai do Linhos tinha mudado de carro. Voltaram a despejar a gasolina no depsito, puseram as meninas em casa e foram para o Luar de Angola beber 
cerveja, discutir poltica e treinar os instintos.
     S s cinco da manh, bbados e abraados e perfumados pelos mesmos corpos de mulher  que se revelavam mansos, dolentes, apaixonados. Ricardo Luz era a excepo. 
     Acompanhava os outros nos copos e nas conversas, mas ficava no bar enquanto eles iam l para dentro com as raparigas. Ningum tratava de averiguar das causas 
daquela abstinncia, at porque nenhum deles queria que Ricardo pensasse que as raparigas lhes davam mais prazer se tivessem estado com ele primeiro. A omisso era 
uma das principais regras da amizade masculina. No estado sbrio, os homens no se tocavam, nem para um aperto de mo. Cumprimentavam-se com ligeiros acenos de cabea. 
Em momentos especiais - mortes na famlia, problemas com a polcia ou com as motas, fins de namoro - admitiam-se pequenas demonstraes de calor humano: encontres, 
safanes, caneladas ou sopapos. A regra servia tambm para as relaes de amizade entre raparigas e rapazes, o que fazia com que todos se esfolassem por arranjar 
namoradas.
     Filipe apresentava-se naquela noite particularmente ardente, e garantia a quem o quisesse ouvir que se mataria no dia em que a sua princesa o deixasse. Ricardo 
Luz recordava-lhe os tratos de pol a que ele submetia a pequena, mas Filipe contrapunha-lhe argumentos slidos; se s vezes a mandava para casa era por amor. Por 
amor a srio. Para a proteger do pessoal das barracas, que tinha a mania de se pr a olhar para ela com olhos de fome. E para ver se ela estudava. Para o bem dela. 
O Radar comentou que tambm devia ser para o bem dela que ele a fazia chorar tanto. Para ver se ela no fazia chichi na cama.
     O Radar esmifrava-se para ter graa; o que o salvava era que j ningum o ouvia. Sobrava-lhe em idade o que lhe faltava em tamanho -excepto nas orelhas. Chegara 
a desafiar Ricardo Luz e acabara espancado, em cuecas, no meio da rua. Desde ento tentara tornar-se a voz do chefe, mas falhava sempre o tom. Tomava a fidelidade 
por uma categoria de eco, e havia entre eles a ideia de que os papagaios no so de fiar. Ricardo Luz olhava de esguelha o seu infeliz porta-voz.
     Estava mesmo a v-lo a passar-se para o bando de drogados do Traficncias ou dos catitas das vivendas. Bastava que lhe dessem trela, ou um cheirinho a fmea. 
Pelo sim pelo no, mantinha-se o Radar a milhas de qualquer ajuste de contas.
     Nunca o chamavam quando era preciso dar uma tareia em algum.
     Ele nem sequer sabia que o grupo tinha mscaras de ataque  maneira dos assaltantes das sries americanas. Um dia o Joo roubou o cofre do pai. O Radar soube 
pelas porteiras que o pai do Joo tinha sido assaltado. Entrou no caf em grande alarido de solidariedade, urrando contra o descaramento desses miser-veis que se 
atreviam a roubar a famlia de Joo Caetano de Brito. Ningum lhe prestou ateno. Radar deduziu que os homens se querem imperturbveis, e calou-se. No era agora 
o caso:
     - Pois, pois. Tambm deve ser para o bem dela que a fazes chorar tanto. Para ver se a mida no faz chichi na cama.
     Ricardo comeava a cansar-se da moralidade da conversa.
     Limitou-se a acrescentar, j num encolher de ombros, que devia ser a bem de Isabel que Filipe se punha na frente dela a fazer concursos de linguado com as gmeas. 
Mas foi uma tirada infeliz; Filipe recordava-se muito bem de o ver no forrobod com as duas pecadoras. Lembrava-se at de o ouvir dizer que se Cludia tivesse dado 
um beijo que fosse na boca de algum, j no lhe servia. Ricardo jurou que no tinha voltado a tocar nas malucas, desde que comeara a namorar Cludia.
     - Enjoaste, foi o que foi. - concluiu Radar, numa segunda tentativa falhada.
     As gmeas Lusa e Laura viviam a expensas da lei da indiferenciao. Nem a av, que lhos servia de me, era capaz de as distinguir. Os mesmos redondos olhos 
azuis, os mesmos estudados passos de boneca, a mesma pele leitosa, a mesma voz de vidro. Pareciam rplicas animadas de uma pintura de altar.
     A av tinha-as na conta de santas e educara-as nas roupas e trejeitos das artistas de Hollywood; passava os seres a talhar folhos de cores chamejantes para 
alindar as suas meninas, e recusava-se a v-las crescer. As gmeas perce-beram rapidamente que bastava que uma delas estivesse em casa pelas duas, e divertiam-se 
em noites alternadas. Os pais tinham fugido para a frica do Sul durante a revoluo, antes que algum lhes viesse perguntar que gnero de trabalho era o deles, 
na antiga polcia poltica. Prometeram que mandariam buscar as filhas assim que pudessem. Agora a av escrevia-lhes longas cartas explicando que no era justo fazer 
com que as crianas interrompessem os estudos e se separassem dos amigos, que eram muitos. s vezes a av levava uma tarde inteira para pintar as unhas s meninas, 
porque as campainhas da porta e do telefone no lhes davam cinco minutos de descanso.
     A ausncia dos pais de Laura e Lusa conduzira a casa a uma poca de recesso. As gmeas no estavam habituadas a ter desejos impossveis, e come-aram a jogar 
com o seu capital de mistrio. Durante uns tempos conseguiram levar os rapazes a apostar dinheiro sobre as suas identidades. Este recurso esgotou-se-lhes quando 
os jogadores perceberam que no havia maneira de ganhar. Foi ento que decidiram pr os seus beijos a concurso, mais ou menos como tinham visto nos filmes.
     Fixavam um preo para o beijo mais comprido, deitavam-se lado a lado com os respectivos concorrentes e deleitavam-se a competir uma com a outra. De qualquer 
maneira, o prmio ia para um mealheiro comum, e o balano das vitrias redundava num fraterno empate. Laura possua melhores pulmes, mas tinha o cuidado de fechar 
rapidamente a boca ao terceiro beijo, para assegurar a igualdade da irm. Quanto aos parceiros de jogo, vencedores ou vencidos, pagavam religiosamente. Era essa 
a principal semelhana entre este concurso e os tais filmes com barraquinhas de vender beijos.
     Lusa e Laura apaixonavam-se pelos mesmos homens. Alis, o que as apaixonava era o espectculo da paixo, e no o homem.
     Dormiam juntas numa cama larga debruada a laos cor-de-rosa, e entretinham-se a comparar as qualidades dos seus muitos pretendentes, antes de adormecerem. Adormeciam 
abraadas desde a nascena. A av era capaz de ficar horas, enternecida, a v-las dormir assim, Lusa sobre o peito de Laura, os caracis louros misturados entre 
os lenis. Nenhuma fotografia as fixara nesta ntima doura; ningum as conseguia unir em frente  cmara. Havia apenas aquele retrato desfocado, tinham elas seis 
meses, onde se adivinhava o brusco desfazer de um enlace. No dia do primeiro aniversrio, a famlia tentou imortaliz-las de mos dadas, mas as gmeas cerraram os 
punhos e berraram em unssono at que as deixassem em paz.
     No gostavam de raparigas, Apreciavam os rapazes, desde que se apresentassem aos pares e estivessem dispostos a pagar-lhes os beijos. Dizia-se que a cicatriz 
que rasgava a face direita do Traficncias fora desenhada por uma delas. De qualquer forma, viam-nas muitas vezes com o bando do Traficncias, e erguiam-se rumores 
acerca de negcios de droga. Sempre que ia  janela e via Filipe na conversa com Lusa ou Laura, Isabel repetia para si mesma que s podia ser por causa do haxixe 
que, de tempos a tempos e entre homens, Filipe gostava de fumar. Fazia por apagar da memria aquela festa em que Filipe participara nos nojentos concursos delas, 
diante do seu nariz.
     Afinal de contas, ele pedira-lhe desculpa logo a seguir. E a culpa era toda do sonso do Joo, que passava a vida a provoc-lo. Filipe s queria provar que tinha 
muito mais flego do que Joo. Alm de que fica mal um homem recusar-se a uma mulher, ela tinha que perceber isso. Isabel queria perceber, sabia que era essa a lei. 
Pressentia, no entanto, que podia no ser a nica lei, que talvez houvesse um outro mundo, um mundo macio, logo ali ao lado. Mas tinha medo de investigar, medo de 
ficar sozinha. Lusa e Laura estavam livres desse pavor. Jamais saberiam o que era a solido. As raparigas curvavam-se sobre as carteiras do liceu para ver se era 
verdade que as gmeas traziam navalhas presas nas ligas.
     Mas as gmeas eram rapidssimas:
     - Oh coisinha, ests interessada nas pernas da minha irm? 
     Nunca se conseguia perceber em que  que elas estavam a pensar. Decidiu-se que as gmeas, pura e simplesmente, no pensavam. Era a melhor maneira de lidar com 
aqueles quatro olhos iguais, aterradoramente inexpres-sivos. Batiam as pestanas a compasso e eram sempre as primeiras a pr o dedo no ar, nas aulas. No brilhavam 
em nada, mas tinham boas notas a tudo. Houve um ano em que experimentaram separ-las, a conselho do psiclogo da escola; apresentaram to bons resultados que os 
professores suspeitaram que uma delas estaria a responder aos testes das duas.  que a letra de Lusa era a cpia da letra de Laura, ou vice-versa. Os rapazes punham 
brios de detective nos beijos, mas no conseguiam chegar a qualquer concluso. A lngua de Lusa tinha o peso e o toque da lngua de Laura, a mesma gua e o mesmo 
sabor aucarado. As gmeas espalhavam um perfume de lenha e anis que excitava sem perturbar.
     - O que se faz com as gmeas no conta. Elas no so namoradas de ningum, por isso as nossas namoradas no tm nada que se ralar com elas. - disse o Linhos, 
que no tinha namorada.
     Filipe rematou a conversa clamando que, seja como for, um homem no  de pau, e que se uma pessoa havia de ficar a matutar numa garota qualquer, mais valia 
despachar logo o assunto.
     - A Isabel  outra coisa. A Isabel  a minha mulher. 
     Claudia acordou ao som da milionsima sexta sinfonia conjugal.
     A msica era sempre a mesma, em allegro troppo forte, com um coro de fundos suspiros. Nem as palavras mudavam. Ests a imaginar coisas, dizia ele. E daquela 
vez que vos encontrei de mo dada, dizia ela. Foi uma loucura passageira, dizia ele.
     Quero o divrcio. H mais de um ano que. O que  que queres que eu faa? Quero que morras. Estpida. Brutamontes medieval.
     Olha a nossa filha. O qu? Pode ouvir.  bom que saiba. Ests a imaginar coisas. Pes-me doida. Queres pr-me doida, mas eu no deixo. J te jurei mais de mil 
vezes. Se ao menos eu conseguisse esquecer as tuas promessas. Se nunca as tivesse ouvido. Mas. Qual mas. Eu era uma menina, e depois tu disseste-me que ningum corre 
atrs de um comboio quando j vai l dentro, lembras-te. No. Nunca se lembram, vocs. Ns?
     Os acordes finais deste glorioso dueto j no os ouviu Cludia, que se raspou pela porta de servio, sem banho nem nada.
     
     A ressonncia do mar alimentava a atmosfera daquele stio seco feito de arranha-cus sem rasgo. O mar era ali uma entidade invisvel, aparentemente inexistente. 
Havia uma ou outra nesga disponvel  vista das varandas dos ltimos andares, que por isso mesmo eram os primeiros a ser vendidos. S os habitantes permanentes podiam 
sentir o odor das mars e ouvir aquele eco, misturado ao rolar espaado dos comboios, pela noite fora, quando o silncio crescia at  insuportabilidade dos sons 
mnimos. Mas a viso do mar excedia os limites da vida submersa. No havia memria de que algum tivesse sugerido sequer um passeio at aos cafs da marginal. Como 
se qualquer trajecto que extravasasse o permetro traado pelo bloco de prdios perpetua-mente inacabados fosse uma traio  ordem das coisas e  coeso do grupo. 
Transpunha-se a fronteira de manh cedo, para tomar o comboio que levava ao liceu, e regressava-se de vez  ptria  hora do almoo.
     O tempo comeava para l dos confins do territrio conhecido Enquanto todos permanecessem ali, nada se alteraria. A Histria conservar-se-ia entre parnteses 
e a idade seria eterna. Jogavam s cartas dias a fio. A evoluo do campeonato de King estava pregada na parede do quarto de Ricardo Luz, mas ningum se lembrava 
da data de incio da competio nem se previa que tivesse fim. A parede ia ficando cheia de totais parciais, e todos eles podiam ainda ganhar. As raras sadas faziam-se 
para praias distantes, onde se chegava de mota com o p e o suor de uma viagem. As viagens so pretextos desse medo maior que  o de no podermos fugir de ns. Viaja-se 
como se dorme. Todas as fotografias so sonhos quase perfeitos, quase reais e por isso serenamente mortos.
     Cludia caminhava pela primeira vez sem destino. Seguiu o cheiro e o som at encontrar o mar inteiro diante dela, um azul imenso, duro e dcil, que transformava 
a luz numa outra coisa mais forte e escura. No soube quantas horas ficou sentada naquela rocha, porque subitamente o tempo aparecera para apagar os traos domsticos 
da existncia. Perdeu o domnio do mundo e sentiu-se embriagada por um riso estranho, interior, que no tinha qualquer relao com o seu velho hbito de rir.
     

     
     
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     "As tuas mos nos meus ombros, lentas como uma maldio. Os meus cabelos e os teus dedos. O teu perfume igual  minha vontade de mim."
     Foram estas as frases que ficaram no dirio de Cludia depois de uma noite inteira de escrita. A primeira pgina do caderno amarelecido ficou completamente 
riscada. A segunda tambm.
     Desesperava e teimava ("ai, que feio, que sujo que isto est a ficar"), explodia se no escrevesse aquelas coisas miserveis e exaltantes que sentia e no havia 
palavras para as dizer, no havia forma. Parecia-lhe que a Teresa havia de saber as palavras certinhas, certeiras: "mas tambm, a Teresa nunca sentiu nada de parecido, 
de certeza, escrevia  fora de imaginar, ai, se ao menos eu tivesse um bocado de imaginao que me salvasse deste choque bruto, deste corao to violento, verdadeiro, 
intil, ignbil, ser assim que se escreve ou leva um e?"
     O dirio era de uma vulgaridade insustentvel, um rapaz e uma rapariga de mos dadas, em perfil,  contraluz. O esforo que ela tinha feito para sorrir e agradecer 
e dizer  tia que era muito bonito. sim senhora. E a tia a meter-lhe as unhas de cabeleireira por dentro da franja, a fazer um esgar moderno de cumplicidade:
     -  romntico, no , queridinha?  para tu guardares os teus primeiros segredinhos de amor e te lembrares da tua tia que gosta muito de ti.
     Cludia tinha doze anos e ficou arrepiada a olhar para a tia, meditando que a partir de certa idade as pessoas tendem ao despudor. Logo aquela tia, to catlica 
apostlica romana, porque  que no aceitava o seu doce papel de tia e se macaqueava assim. Uma mulher velha a piscar o olho  juventude perdida; eis a imagem macia 
do apodrecimento.
     O dirio repugnante, banido durante tantos anos para o fundo do armrio, era agora o seu nico amigo seguro, por causa da chave que a defendia da ameaa do 
exterior. Mesmo assim, tratou de proteger candidamente o nome do criminoso: "Sinid, Sinid, roma ad ahnim adiv!", escreveu ela, mas riscou logo a correr, porque Sinid 
ficava feio, horrvel, estragava o som daquele latim em cdigo, acabadinho de inventar. O nome dele no tinha substituio nem fuga possvel. Era melhor cal-lo, 
pura e simplesmente, ou transform-lo em prncipe, anjo da perdio, loucura infernal, a ver se dito aquilo se tornava real e contornvel como, pensava ela, um conto 
de fadas, uma histria de entreter.
     A paixo  o rosto visvel desse sentimento trgico que mina a alma e lhe retira qualquer possibilidade de histria. As mais perfeitas obras humanas comungam 
da imobilidade sem apelo dos milhares de homens e mulheres que um dia partem sem deixar qualquer rasto, por tnue que seja. A perfeio s tem par na devoo da 
inutilidade de que  o exemplo absoluto; a Histria no  mais do que a continua tentativa de escapar  sublime cegueira desta luz. Por isso  que Cludia escreve, 
febrilmente, ela que nunca precisou de palavras. Cludia persegue a histria de que j se exilou. Aos quinze anos as pessoas so ainda demasiado requintadas para 
as estratgias da perversidade, pelo que Dinis Marta nem sequer ficou muito surpreendido quando Cludia lhe tocou  porta, naquela manh de domingo, mal a famlia 
acabara de sair para a missa.
     - Vais-te rir, mas passei a noite a sonhar contigo. - disse ela, e a voz tremia-lhe tanto que se lhe punha alta e rija, como se desse uma ordem.
     Aquela confisso era to verdadeira que s podia exprimir-se atravs da mentira; Cludia no sonhara com Dinis pela simples razo de que nem sequer, a bem dizer, 
pregara olho. A rstea de lucidez que o sol encontrou nela, empregou-a nuns saltos vigorosos sobre a cama para apagar as pistas da directa literria. Depois fechou 
as persianas todas, saiu em bicos dos ps, sem acordar vivalma, correu at ao prdio dele e sentou-se nas escadas do patamar de cima  espera que a famlia sasse 
ao encontro do Senhor.
     - Entra. Vou-me vestir.  s um instante.
     Era bvio que Dinis Marta atravessara a noite num sono de justo. Trazia a almofada marcada na cara e limpava os olhos com as costas da mo. Ela queria l saber. 
S queria livrar-se daquele lume, pegar nos dedos dele pelo tempo necessrio  percepo da sua realidade, torn-lo humano at ao esquecimento.
     A luz repousava sobre uma tranquila desordem de almofadas, livros, tricots interrompidos. As paredes da sala estavam forradas a estantes de mogno cobertas de 
livros com encadernaes pomposas. Cludia viria a descobrir mais tarde que aquela fila de lombadas era s um cenrio de cartes colados, por detrs do qual se empilhavam 
filas sucessivas de livros verdadeiros, esfacelados, com cheiro de alfarrabista.
     "Os meus velhos so assim", desabafaria Dinis, engasgado de vergonha. "Dantes, diziam que era por causa dos livros proibidos. Quem me dera que ainda houvesse 
livros proibidos, para no ter que perceber que eles acham esta labreguice uma coisa fina." E havia trs enormes aqurios cheios de vegetao onde flutuavam peixes 
de todas as cores. A casa fervia de silncios, como se fosse um prolongamento dos aqurios imateriais. Cludia olhava para Dinis e parecia-lhe que ele se movia com 
gestos de peixe, ondulantes e misteriosos. O que o teria levado  festa da vspera? Dinis Marta nunca aparecia naquelas festas. A Isabel dizia que ele se julgava 
muito superior, que tinha a mania que era bom. Mas os irmos so prisioneiros do sangue, que sempre turva a justia.
     Ele entrou tarde, por dentro do escuro,  hora em que a rispidez dos corpos se esgotara j em estratgias de aproximao. Agora, as cabeas das meninas abandonavam-se 
sobre os ombros dos rapazes, as luzes resumiam-se a um tnue foco azul e a msica alagava o ar de imponderabilidade. No fim, haviam de fazer de conta que aqueles 
abraos demorados significavam apenas o cumprimento de um ritual, uma forma de passar o tempo. Cludia estava nos braos de Ricardo quando o viu, num claro rapidssimo. 
Dinis sentara-se debaixo da nica luz e folheava uma revista. De repente ergueu os olhos e ela inventou-lhos dourados, grandes na serenidade e na doura.
     - Ricardo, estou to cansada, vamos parar.
     Dinis continuava a ler a revista, indiferente afinal; talvez aquele olhar imenso, estonteante, fixo, pertencesse ao reino das alucinaes. Cludia nunca se 
cruzara com um homem que no olhasse para ela; esse havia de ser sempre o terrvel trunfo de Dinis Marta. Ele no olhava para ela nem para ningum, e Cludia de 
repente disse:
     - Vamos fazer um jogo. Para variar, - disse ela. Cada um escreve o seu nome num papel e depois misturam-se os papis em dois montinhos. Mulheres de um lado, 
homens do outro. E cada um vai danar com a pessoa que lhe calhar no papel. E se a sorte juntar dois namorados, cada um deles vai ter de se ajoelhar e fazer uma 
declarao de amor pblica e bem explicada. Como se estivessem num tribunal, a justificar um crime, - disse ela, e toda a gente se riu. 
     - Ningum pode ficar de fora, declarou Cludia, e comeou a rasgar uma folha. Deu o pedao maior a Dinis Marta, foi buscar esse papel ao monte, como que por 
acaso. E disse que lhe apetecia ouvir aquela cano da Billie Holiday. "Comes a rain storm, put your rubbers on/- comes a snowstorm, you can get a little heat/comes 
love, nothing can be done." Depois a memria acabou, caiu, despenhou-se inteira nas mos dele, ali, na cintura dela. Fechou os olhos, desejou morrer dentro daquele 
peito que lhe escaldava o corao: "onde  que eu estou, onde  que eu comeo, no sei de mim, de onde vem esta alegria que me di tanto, se ao menos eu conseguisse 
parar de tremer."
     - Ests com frio? - Dinis havia de ser sempre assim, fulminante, cirrgico.
     - O qu?
     - Ests a tremer tanto. Perguntei-te se tinhas frio?
     Cludia perdera a voz; abanou a cabea e abraou-o com mais fora. No sabia ainda que terminavam ali os seus dias rotineiros de sedutora. Seduzia porque era 
imune  seduo; naquela noite, ganhava o direito ao desprezo e  humilhao, ao prazer e  dor que o incendeia.
     - J tomaste o pequeno-almoo? - perguntava-lhe agora Dinis.
     Cludia no conseguia engolir nada; trincou uma torrada, bebeu um golo de leite, ouviu-o falar sobre msica e concordou com tudo. Que era uma tristeza assistir 
 alienao dos jovens pela pseudo-msica de consumo americana. Que era s barulho.
     Prostituio sonora, dizia ele, e ela repetia sim, sim, pois , furiosa por se negar a si prpria, os nomes com que crescera, as coisas que at ento amara. 
Que aquela festa tinha sido uma experincia muito interessante, uma experi-ncia de carcter sociolgico, mas que no contava reincidir. Uma seca, como diria o Ea. 
Ah, pois, o Ea  muito giro, atreveu-se ela, mas arrependeu-se nos segundos imediatos.
     Giro? O que  isso, giro, tornava ele com um sorriso desdenhoso, esta juventude no sabe nada, se te perguntar a data da fundao de Portugal se calhar tambm 
no sabes, e nem o que  a CEE, e onde  que fica a China, sabes? E Mozart, sabes quem era? Sabes distingui-lo, de ouvido? Pois , e falam vocs de msica, hereges. 
Cludia corava cada vez mais; como no sabia o que queria dizer herege, achou por bem perguntar:
     - Vocs, quem? S c estou eu.
     - Vocs, - continuou ele, - os meninos das motas, das festas. Vocs, que no querem pensar a srio em nada. Vocs todos.
     - No te zangues comigo, Dinis. Por favor, no me ralhes. Explica-me essas coisas todas, mas no me ralhes.
     As lgrimas acorreram em seu socorro, num caudal eficiente.
     Dinis calou-se e comoveu-se. Acariciou-lhe os dedos e ela caiu-lhe nos braos, para que todas as datas e todos os factos e todos os nmeros, de Mozart  CEE, 
ficassem diludos no oceano de insignificncia que une as eras. O oceano trgico, invisvel, vulnervel que normalmente comea com um beijo.
     Ora Cludia presumia-se especialista na arte de beijar.
     Dissertava longamente com as amigas sobre o assunto, e formara uma tabela de referncias bem fundamentada. Havia os beijos teatrais, feitos de uma ginasticada 
nfase de lngua. "Beijos cheios de tcnica", explicava ela, "fujam deles como do Diabo; vm de bocas mais interessadas em fazer-se notar do que em dedicar-se a 
amar." o exemplo costumeiro destes sculos era Filipe, com grande desgosto de Isabel, que no apreciava o esforo da desiluso. E havia os beijos encharcados, moles, 
viscosos, denunciantes imediatos de naturezas flcidas, infantis, dependentes. E os beijos repenicados, rpidos, repetidos, cheios de bons sentimentos. "Demasiado 
amaricados", instrua Cludia, que tinha conceitos slidos sobre a virilidade masculina. E os beijos preguiosos, aplicados por rapazes embasbacados, que se limitavam 
a ficar de boca aberta  espera da aco feminina. Enfim, perfeitos eram os beijos  cinema, como os que o Clark Gable mostrava em "E Tudo o Vento Levou". Mas aquele 
beijo, o beijo de Dinis, Cludia jamais o conseguiria classificar. Para dizer a verdade, Cludia nunca mais pde falar de beijos; aquele beijo era apenas O beijo. 
O primeiro. O ltimo.
     - Quando  que voltamos a ver-nos?
     - Tu  que sabes. - respondeu Dinis, com um sorriso magnnimo.
     
     Nas semanas seguintes Cludia viveu a honra aflita de uma vida dupla e conheceu na mentira um grau superior do afecto. Mentir magoava-a, mas no havia outra 
forma de resguardar os outros.
     A situao prestava-se a anlises maledicentes; quem a apreciasse do exterior, diria que era por comodidade que Cludia mantinha o namoro com Ricardo Luz. Mas 
a fora das circunstncias e os cuidados de Cludia impedi-ram o equvoco das interpretaes desapaixonadas, que habitualmente pecam pela surda frieza da inveja. 
Cludia sentia tudo menos conforto. Tinha sobre ela, antes de mais, o sufocante peso de um segredo; s vezes j nem sabia se aquela necessidade permanente de Dinis 
era pura paixo ou sede de desabafo. Uma sede que permanecia para l dos encontros furtivos, at porque Dinis Marta no lhe alimentava os arroubos confessionais. 
A atitude do perfeito-cavalheiro, deliberava Cludia, que se tornou por esses dias hbil em camuflar de razes qualquer fio de decepo.
     Vinha da pele de Dinis com um excesso de beleza no corpo e uma irresistvel ausncia na alma. As amigas viam-se obrigadas a gabar-lhe a cor e o porte. Cludia 
ria-se; dizia que era da Primavera e dos treinos intensos para o campeonato de ginstica. Faltava agora s aulas todas, e ningum dava por isso. Estudava sofregamente 
matrias estranhas, literatura, cinema, msica, lia pela noite fora, mostrava-se sria e sensata. Ricardo achava-a mais meiga do que nunca, e era verdade. Cludia 
afastava-se irremediavelmente dele, o que lhe punha nos gestos o atencioso ardor da melancolia. Ia deix-lo, e por isso fazia amor com ele com uma sinceridade que 
at ento desconhecia. Chegava a premi-lo com a desenvoltura aprendida no corpo de Dinis.
     A um olhar masculino, pode ser que estas transposies paream insupor-tveis de promiscuidade.  que os homens tm geralmente do acto sexual uma ideia estanque, 
factual, cheia de alneas, como uma cerimnia de consagrao. Ora as mulheres tendem a ver no exerccio fsico do amor uma das muitas encarnaes possveis da generosidade, 
que nelas faz as vezes da entrega.
     Isso habilita-as a distribuir as mesmas palavras de amor e os mesmos gestos a homens diferentes, sem escndalo ntimo nem confuso alguma; o vocabulrio do 
amor  curto para a disponibilidade que as anima.  nas mincias da pele que as diferenas e as vertigens se lhes cavam; na realidade,  at provvel que sejam mais 
prdigas em juras e carinhos para com o menos amado. Porque a culpa  feminina e filha dilecta dessa admirvel capacidade humana a que chamamos compaixo.
     Cludia esvaia-se em paixo por Dinis e compaixo por Ricardo.
     No tinha sequer tempo para pensar em si prpria. Punha um desvelo de rigor em tudo o que contava, para no cair em contradies embaraosas. Mantinha-se em 
estado de alerta perante as reaces alheias, e as pessoas comearam a tom-la por confidente. Teresa contou-lhe a desgraa da sua paixo por Joo e o vexame pavoroso 
de ficar sentada a um canto, festas a fio. Cludia pegou num cigarro e desatou a falar das vezes que o pai tirava o cinto das calas para lhe bater, das denncias 
da porteira, da falta de um irmo, das horrveis gargalhadas que as outras soltavam na aula quando a professora de ginstica lhe chamava "pata de elefante" e das 
noites em que a obrigavam a ficar em casa para estudar.
     - Pois. - disse a Teresa - Mas isso  tudo por fora. So coisas que se passam  tua volta. Mas bolas. Tu s a mais bonita, a melhor, a namorada do Ricardo Luz.
     - No  bem assim. Eu sou a namorada do Ricardo Luz enquanto for a mais bonita e a melhor. E sou a mais bonita e a melhor enquanto for a namorada do Ricardo 
Luz. E ser a melhor, aqui neste bairro,  armar aos cucos, espingardar como um rufia e namorar como a Virgem Maria. Aqui  assim, e, para te dizer a verdade, estou 
a ficar farta.
     - Se eu fosse bonita como tu, tambm podia dar-me ao luxo de estar farta. Tu nunca ficars sozinha. 
     - Achas? Vamos ver. Lembras-te do Nuno do 59? Quando teve aquele desastre enorme e ficou coxo a Rita nunca mais quis saber dele. Noutro dia perguntei ao Ricardo 
se ele continuaria a gostar de mim se eu tivesse um desastre daqueles. Ele riu-se e disse para eu me deixar de disparates. s vezes penso que se eu fosse gorda e 
feia tinha a certeza de que quem gostasse de mim gostava mesmo a srio, percebes?
     - S que ningum havia de gostar de ti. Olha para mim.
     - Mas tu no s nenhum monstro, minha parva! O teu problema  que ningum acredita em ti porque tu tambm no acreditas. Para ser sincera, as tuas paixes j 
do vontade de rir aos rapazes. At a mim. Tu apaixonas-te pelo primeiro que aparece. Assim ningum te leva a srio.
     - Se eu fosse bonita, s me tinha apaixonado por um rapaz. Juro-te. Ele apaixonava-se por mim e eu era-lhe fiel para sempre.
     - No duvido. S que isso tambm no queria dizer nada.
     - Olha a Mariana. Era gorda e matou-se por causa disso. Ningum gostava dela.
     - O que  que tu sabias da Mariana? Ela at se pode ter atirado da janela para fugir a um apaixonado inoportuno. Ou at podia ter sido esse apaixonado a mat-la, 
furioso de cimes.
     - No brinques com a morte.  perigoso.
     - Pois. Por isso mesmo  que eu brinco. S as coisas perigosas  que so interessantes. Esta  a nica coisa que eu sei de certeza. 
     Isabel, que nunca se confessava, confessou a Cludia a solido de ser amada por um homem que a inventava e ofendia. At Laura, uma das gmeas-tabu, veio cair-lhe 
no colo, num intervalo de liceu, pedindo-lhe duas aspirinas para as dores menstruais e inquirindo, como quem no quer a coisa, sobre as melhores marcas de plulas.
     O rastilho deste foguetrio de confidncias no se encontrava apenas na disponibilidade de Cludia. As outras raparigas intuam agora nela o travo da experincia. 
Cludia era pressentiam-no, uma mulher, ou seja, algum que trazia na carne a tatuagem do amor. E, no entanto, Cludia fazia amor com Ricardo h quase um ano. Claro 
que ningum suspeitava de tais intimidades. Para Cludia, tratara-se de garantir a sua independncia. Ricardo aceitara essa alterao radical s leis da existncia, 
desde que ficasse no segredo dos deuses, que eram eles. E se algum dia os outros descobrissem a infraco, consider-la-iam um simples privilgio de reis. O intercmbio 
sexual entre o chefe do grupo e a sua mulher no arriscava a coeso do mundo. No oferecia perigos de mudana. At porque a namorada do chefe era, por definio, 
imutvel. A defesa de Cludia consistia na sua imunidade  paixo. Ricardo amava-a estremosamente, e fazia questo de a fazer gemer de gozo. Com Ricardo apurara 
as virtudes da fantasia. Mas agora, nos braos de Dinis, Cludia perdia a noo do tempo, do corpo, do espao e da vida. No precisava de fantasiar nada. "No tenhas 
pressa", era tudo o que Dinis lhe dizia, enquanto ascendiam ao stimo cu, num vagar feroz.
     Assim que desciam  Terra, desatava a atazan-la; se ela lhe dizia:
     - Amo-te.
     Ele perguntava-lhe se andava a ensaiar para estrela de telenovela. Cludia decifrava-lhe o cinismo como resgate do namoro dela com Ricardo, cimes fundos de 
mais para manifestaes evidentes. Adivinhava-o triste, e em parte acertava. Mas errava, pela vaidade prpria dos apaixonados, na substncia dessa tristeza, que 
nada tinha de passageiro ou circunstancial. Dinis era triste como outros so bonitos ou feios. Antes fosse mau, porque a maldade  uma deliberao da vontade, uma 
reaco  ferida prpria dos grandes amantes. A tristeza, quando se apresenta assim de raiz, provoca danos irreparveis. Porque a tristeza tem um nico antdoto 
de sobrevivncia, que  a crueldade.
     
     Foi numa noite de chuva torrencial. J ningum acreditava que a chuva pudesse voltar com aquela raiva, quando os dias se faziam mornos e maiores. Cludia estivera 
na vspera com Dinis, era sexta-feira, disse em casa que ia ao cinema, disse no caf que ia jantar a casa de uma tia, deu uma volta enorme pelas traseiras dos prdios, 
com o corao na boca. Os Martas tinham partido para um fim-de-semana na Quinta dos Regatos.
     Isabel estava de amuo com Filipe e decidira acompanhar a famlia, de forma a tornar mtua a penitncia. S Dinis ficara, o que desatou a euforia de Cludia: 
Dinis escusara-se  viagem por causa dela. Inventou novas mentiras para aquele sbado de chuva ("vou estudar com a Isabel, me, tenho um ponto difcil na segunda, 
Ricardo") e telefonou para Dinis.
     - Ofereces-me jantar?
     - Eu oferecia-te, mas j no h c nada de jeito. Ia mesmo agora abrir uma lata de sardinhas.  s o que h.
     - Ento at j.
     Cludia leu na histria da lata de sardinhas uma declarao de saudade e um apelo de salvao. Atirou-se sorrateiramente ao frigorfico e  despensa e encheu 
um saco de iguarias.
     Esqueceu-se do chapu-de-chuva. Quando Dinis abriu a porta surgiu-lhe uma rapariga gloriosa, de olhos pintados e caracis encharcados:
     - Olha para o nosso banquete!
     Nem do vinho se esquecera, quando o pai desse por falta daquela garrafa ia ser o bom e o bonito. O futuro apresentava-se-lhe coberto de deveres e recriminaes, 
visto de qualquer ngulo. Antigamente, o futuro era apenas um porto largo por onde ela passaria ao volante de um descapotvel vermelho. No sabia a marca do automvel, 
nem porque  que havia de ser vermelho e descapotvel. Gostava de idealizar a velocidade e o efeito dos seus cabelos negros sobre a carroceria fulva. Dedicava-se 
particularmente a esta viso enquanto o pai lhe batia. A imagem atingia nesses momentos o ntido rigor de uma narrativa. s vezes olhava para o banco de trs e via 
um velho morto. Ou ento o velho surgia-lhe vivo, de joelhos, pedindo perdo, no meio da estrada. S o desenlace se repetia: o velho era projectado para a berma 
e o automvel levantava voo, como no filme de Walt Disney. O pai dizia-lhe: "Isto custa-me mais a mim do que a ti" e Cludia deixava-se cair sobre a cama, sem uma 
palavra, cheia de pena do pobre homem que no futuro ia matar. Agora interessava-lhe descobrir o que podia haver para l do fim do futuro.
     Pressentia o risco de um trajecto sem retorno, e esse risco aumentava consideravelmente a excepcionalidade de Dinis Marta.
     - Vinho branco, com este frio?
     - Oh, Dinis, no sejas desmancha-prazeres, d-me uma toalha para secar o cabelo, liga o aquecedor, vais ver, vai ser um jantar fabuloso.
     Nunca houve menu mais celebrado. Dinis jantou copiosamente e Cludia elogiou cada pormenor da refeio, incluindo o bordado da toalha. Quase no tocou na comida, 
pretextando excessos de peso que o induzissem ao galanteio. Dinis encolheu os ombros e comentou: "Mais fica." Cludia concluiu de imediato que o laconismo do amante 
se devia  timidez prpria das grandes paixes, e lanou-lhe um sorriso embevecido. Mas no segundo exacto em que estendeu os dedos para lhe afagar os cabelos Dinis 
olhou o relgio:
     - Desculpa, mas eu tenho de ir dormir. Estou muito cansado e amanh quero-me levantar cedo para estudar.
     E deu-lhe um beijo na cara. Cludia levantou-se, atordoada.
     Quando recuperou a fala j estava no patamar, em frente  porta fechada. As lgrimas arrastaram-lhe para longe a raiva e o orgulho. Concentrou-se na esperana 
durante alguns minutos. Ele ia reconsiderar, arrepender-se, abrir a porta, gritar o nome dela. Ele ia. Era impossvel que no fosse, depois de tudo. Seria no mnimo 
ilgico. At mesmo irracional. E infame.
     Como se ele pudesse ser infame. No. Ouvia passos, tinha a certeza de ouvir passos, era ele, voltava, corria para ela. No. Afinal era no andar de cima. Ele 
no voltaria. Tinha de ganhar coragem e tocar  campainha. Ele abriria a porta, os olhos dele trariam aquela luz quente, e ela havia de o enlouquecer outra vez. 
Dinis apareceu com um ar enfadado.
     Cludia suplicou-lhe que por amor de Deus a deixasse ficar ali s mais um bocadinho, que precisava de beber qualquer coisa e no lhe apetecia ir j para casa. 
O que h-de ser? Um whisky, disse Cludia, que odiava o cheiro do whisky e nunca fora capaz de aguentar sequer um gole. Bem forte, acrescentou. Sem gua. Ele cumpriu 
as indicaes dela sem pestanejar e repetiu:
     - Tenho de ir dormir. At amanh. Podes ficar a  vontade.
     
     Meia hora depois o telefone tocou. Cludia voltou-se para a parede, bebeu gole sobre gole, fez todo o barulho que podia com o copo, mas ele pousou o auscultador 
e voltou para o quarto como se ela nem estivesse ali. Cludia chorou baixinho durante muito tempo, na sala dele e na cama dela, at o sol nascer. Quando as lgrimas 
secaram, Cludia decidiu que Dinis a rejeitara porque estava perdidamente apaixonado e no suportava sab-la com outro. Ou ento porque estava perdidamente apaixonado 
e no suportava faz-la sofrer, for-la a abandonar os amigos, a vida real. Nesse mesmo dia, Cludia disse a Ricardo Luz que estava tudo acabado.
     

     
     
      7
     
     Para comear, explicava Teresa, deve evitar-se qualquer meno de trivialidades quotidianas.  errado comear uma carta de amor assim: "Querida Alexandra. Estava 
a pr o lixo no caixote quando me lembrei do teu sorriso encantador."
     - Grande estpida, achas que eu ia falar-lhe do lixo?
     Teresa teve vontade de responder que sim, que o lixo era o mote mais apropriado para uma parva daquelas. Mas no ia adiantar nada. S conseguiria zang-lo, 
afast-lo, e j era to bom que ele a tivesse escolhido a ela para cmplice suprema.
     - Teresinha, fofa, no digas a ningum mas eu quero escrever uma carta de amor  Alexandra. Tenho de lhe dizer. E no consigo. No sei como  que se diz. Ajudas-me?
     Teresa ps-se ento a desenvolver. As adolescentes so admiravelmente imunes aos dotes domsticos de um rapaz, dizia ela. Isso no as seduz. Nesta idade, elas 
ainda mantm a plena maturidade da infncia; prendem-se apenas ao essencial. 
     - A Alexandra no  criana nenhuma.
     - No  isso que eu estou a dizer, burro. Antes fosse.
     - O qu?
     - Nada. V se percebes. As raparigas no gostam de rapazes bonzinhos.
     O que lhes interessa avaliar num namorado  a qualidade da exposio ("ou seja," dizia "se ele vai andar de mo dada na rua ou no"), a quantidade de ar que 
ele consegue guardar no peito ("ou seja," dizia "se ele  capaz de fazer com que um s beijo dure cerca de uma hora"), a variedade da conver-sao ("ou seja," dizia 
"se ele sabe falar de outras coisas para alm de motas, futebol e rock") e a sensibilidade do corao ("ou seja," dizia "se ele  capaz de a acompanhar ao dentista 
e ao supermercado ou se apenas est disponvel para festas e cinemas").
     -  s isto o que lhes interessa, e j no  pouco. Entendido?
     Joo fazia covinhas na cara quando sorria assim, com um jeito malandro.
     - Entendido, senhora doutora. E a beleza, no  fundamental? A minha cara linda, no serve para nada?
     - A beleza, meu filho, para as raparigas,  uma coisa espiritual. Sem explicao nem medida.  por isso que  muito difcil encontrar duas raparigas com a mesma 
opinio sobre a beleza de um rapaz. As mulheres no so todas iguais, como os homens. At so capazes de gostar de um monstro como tu.
     - O qu?
     - Nada.
     H sempre um halo fnebre de um ouro cego sobre a cabea do ser amado, pelo menos nos primeiros tempos, contava ela.  o medo que temos de que ele no olhe 
para ns, que nos abandone de sbito ou que simplesmente se esfume nos cus estrangeiros de onde veio. Os amados nunca so mortais como ns. So deuses, heris mitolgicos, 
ou, no mnimo, gnios. Nunca devemos esquecer-nos disto quando lhes escrevemos.  preciso ter cuidado no manejo do grau comparativo do adjectivo, que jamais dever 
utilizar-se em relao a outros seres humanos.
     - Livra-te de lhe dizeres que ela  to bonita como a Marilyn.
     - Mas julgas que eu sou estpido ou qu?
     - Pois. Ainda por cima ela tem cara de Neanderthal.
     - Cara de qu?
     - Nada, esquece.
     Para alm de deusas e ninfas, pode acrescentar-se  lista das comparaes permitidas algumas flores ("rosa mas no gladolo," especificava ela "orqudea mas 
no glicnia, no v a pequena pensar que est a ser comparada  vizinha do lado"), todas as estrelas ("do cu e do mar") e alguns outros elementos da natureza, 
como o Sol ou a Lua.
     Um elemento estilstico de efeito garantido, explicava,  a surpresa. Junte-se a um substantivo um adjectivo improvvel e obter-se- um resultado estrondoso. 
Exemplos, meditava ela.
     Corao guloso, pernas angelicais, olhos inflamveis.
     - Uf, nunca pensei que isto fosse to complicado.
     - Chiu. Ouve. 
     A subtileza  o segredo do sucesso, dizia ela. Reticncias e pontos de exclamao so de evitar, por redundantes.
     - O que  que quer dizer redundante?
     Se a paixo  to forte que te tolhe o discernimento, continuava ela, o melhor ser mesmo comear por um simples superlativo absoluto.
     - O qu?
     - Belssima princesa, por exemplo.
     No. Belssima princesa serve muito bem para uma segunda ou terceira carta.  que na primeira, para dizer a verdade, a vigilncia deve igualar a coragem. "De 
modo a domesticar a caa, percebes?" Sim, a caa ele percebia.
     - Temos que admitir a hiptese de o nosso alvo ainda no ter reparado em ns.
     - Em ns?
     Um cerco suave  o que  preciso, prosseguia ela. Menina bonita. Sim, menina bonita parece-me uma introduo adequada a uma primeira exposio do problema. 
"Menina bonita. Nestes ltimos dias tenho pensado muito em ti. No sei porqu. Podes explicar-me? Espero um sinal teu. O teu sorriso bonito. Uma luz secreta sobre 
a tua pele." 
     As frases curtas do muito arranjo, at porque se pode trocar-lhes a ordem, caso se pretenda tornar a coisa mais crptica e original. Ou caso se queira escrever 
duas cartas a duas pessoas diferentes de uma assentada.
     - Ests a gozar comigo?
     Deve sempre fazer-se um rascunho, tanto para assegurar a elegncia final do trabalho como para garantir a nossa segurana pessoal. Guardando o esboo prevenimos 
simultaneamente a limpeza do trabalho ("uma carta cheia de riscos e erros impressiona mal") e a possibilidade de uma catastrfica repetio.
     - Repetio? Eu s quero escrever-lhe esta carta.
     Pois, dizia ela. Pode ser que a Alexandra da tua actual predileco no conhea a Adozinda do teu futuro, mas - Adozinda? Que nome horrvel.
     - Mas  melhor no arriscar. Imagina que um dia o objecto um se cruza com o objecto dois numa festa qualquer. Podem chegar  concluso que ambas amaram aquela 
interessante pessoa. Podem depois mostrar mutuamente as cartas que receberam, de mulher para mulher.  por isso que convm puxar pela imaginao. Nunca repetir.
     - Mas eu hei-de gostar da Alexandra a vida toda.
     - Hs-de, pois.
     - Qu?
     - Nada.
     E h tambm a poesia. Uma declarao de amor por escrito pode ser apenas um poema.
     - Poemas, eu?
     "Teresinha, fofa, no digas a ningum. S tu e eu. No sei como  que se diz." Uma vez abrira devagar os lbios: "To querida". Duas palavras insuportavelmente 
quentes escapando-lhe por entre os dentes brancos, um murmrio que nem sequer ele mesmo recordava.
     - Podes simplesmente copiar, com uma caligrafia bem apurada, um belo poema de um profissional. Mas tens que resistir  tentao de fazer passar a obra por coisa 
tua. Mais vale parecer erudito do que mentiroso.
     - Parecer o qu? 
     Teresa olhou para ele com tristeza e disse que talvez a poesia no fosse uma grande ideia. At porque  difcil procurar poemas para um amor completamente novo. 
Os melhores poemas so sempre feitos de um amor j muito antigo, pensou ela, e temperados com mgoas, intimidades e memrias cheias de musgo.
     As cartas de amor escrevem-se sempre  noite e deixam-se de molho, num bom caudal de lgrimas, at  manh seguinte.
     Depois relem-se e, infelizmente, rasgam-se.
     - Toma Joo. Tens aqui o rascunho.
     - Est to bonito. Onde  que vais buscar frases assim?
     
     "Estou sempre ocupado a reparar em toda a gente e ningum repara em mim.
     Desculpa l estas lamechices. Pareo uma menina palerma. Mas  que passei duas tardes inteirinhas a marrar para o ponto de Portugus e a estpida da Cristina 
voltou a ter a melhor nota. E depois ainda vem cheia de falinhas mansas a dizer que eu merecia. Engraxa aquela professora de tal maneira que at faz aflio e ainda 
consegue ser a queridinha de toda a gente, a boazinha da escola.
     Ainda por cima engordei. Como montes de bolachas com o nervoso dos pontos. E depois ningum v. Prometo-te solenemente comear a fazer dieta a partir de amanh. 
E nunca mais falto ao judo. Estou to parvo que at prometo coisas a um caderno de linhas. Ao menos tu s obrigado a ouvir-me. A me comprou-me umas calas de ganga 
:, horrveis em vez das Levis que eu queria. Nem sequer tem marca. Hei-de meter-me com elas no mar para ver se apodrecem depressa. Para a minha excelentssima irmzinha 
so vestidos novos todos os meses. Ainda tem o desplante de dizer que as raparigas precisam mais de roupa.
     E por falar em raparigas, zero sobre zero. Ela hoje estava linda: o cabelo solto, a saia branca que eu adoro. Mas no  para mim que ela se pe bonita. Ou se 
calhar , s para me ver sofrer. Mandei-lhe aquele poema do Eugnio de Andrade que comea assim: "Tu s a esperana, a madrugada/Nasceste nas tardes de Setembro/quando 
a luz  perfeita e mais doirada."
     Nem sequer  o poema de que eu gosto mais, mas, como ela nasceu a 8 de Setembro, achei que talvez se comovesse. Mas nada. Nem sequer agradeceu. Ontem perguntei-lhe 
se ela tinha gostado do poema, assim como quem no quer a coisa, e ela riu-se e disse que no percebe muito de poesia. s vezes penso que ela talvez seja apenas 
tmida. Di-me o corpo todo quando me lembro dela agarradinha ao convencido do Joo, naquela festa. Mas deve ter sido s para me provocar. Ela no  do gnero de 
se embeiar por meninos de motas. No pode ser.
     Ando a juntar dinheiro para comprar uma Casal para a levar a passear. Ela h-de ver que eu a mereo. Hei-de ser famoso e ela h-de vir procurar-me, de lgrimas 
nos olhos. Ningum v como eu sofro. Sou sensvel de mais para este tempo. Mas eles ho-de ver.  impossvel que a minha paixo no pegue fogo ao corao dela. Ningum 
me v, ningum me compreende."
     Eles haviam de ver. Quando o Linhos acorreu alarmado da cozinha j toda a gente tinha visto o seu dirio. O Radar declamava, de p, em cima do cadeiro. As 
botas enlameadas, em cima do cadeiro favorito do pai, mas isso era o menos. O pior, aflitivo, tenebroso,  que ele declamava aquele dirio secreto. A pgina mais 
intima. No, isso ainda no era o pior.
     O pior  que aquilo nunca teria acontecido se o Linhos no fosse um paspalho. Um parvo, papalvo distinto, armado em bonzinho da parquia. O Linhos tinha ido 
 cozinha preparar-lhes um lanchinho e eles vingaram-se. Deram-lhe o desprezo devido a uma criada de servir. Estava mesmo a pedir.
     Queria que o seu bom corao saltasse  vista, e ali estava ele, obsceno, na voz do Radar. Figura caricata, o Radar, minscula, o bobo da corte em cima do cadeiro 
do pai, um sucesso. O Linhos atirou-se a ele, embrulharam-se, rebolavam no cho e os outros ululavam, as meninas atiravam almofadas, era a guerra. E de repente as 
folhas voaram, o dirio secreto do Linhos esfrangalhou-se, desfez-se entre risos agudos. Mas o pior, o pior  que o Linhos tambm se ria, carregado de raiva e humilhao 
e desprezo, faa-se em mim segundo a vossa vontade, no me abandonem, por amor de Deus, o Linhos ria como se pedisse desculpa, como se prometesse desexistir para 
sempre. Depois levantou-se e disse:
     - Ento vou buscar o banquete.
     A Isabel ficou com tanta pena que disse:
     - Deixa, eu vou l.
     Porque h um limite para a humilhao e o Linhos no sabia, no queria saber, esforava-se tanto por ser um deles indiferente, msculo, se possvel. E no, 
nunca era possvel.
     Seguiu a Isabel para a cozinha, ainda por cima com um dito de esprito:
     -Ai, Isabela, no vs sozinha que  um desperdcio.
     - Ouve, parvo. Gostas de ser o bombo da festa?
     Que no, respondeu o Linhos, confundido, baralhado, embrutecido. "No percebo nada", repetiu ele em falsete, que nervos, andava a mudar de voz h mais de quatro 
anos, nunca mais conseguia talar  homem, e logo agora. Estava ali a esfolar-se para parecer igual aos outros, e a Isabel encostava-o  porta da despensa a gritar:
     - Ouve, parvo. Gostas de ser o bombo da festa, ?
     A gritar, numa fria, a Isabel, nem parecia ela, no podia ser ela.
     - O que  que se passa?
     - Passa-se que eu sou tua amiga, e custa-me ver-te nestas
     tristes figuras.
     O Linhos enterneceu-se, respirou fundo, lembrou-se de Humphrey Bogart e pegou-lhe no queixo:
      - Don't worry, baby. I'll be fine.
     A porta da rua bateu. Cludia saa de vez.
     - Acabou, Ricardo. No me procures mais.
     

     
     
     
      8
     
     A rejeio apresenta-se s mulheres como um dos rostos da glria. Naquela noite, Ricardo Luz telefonou trs vezes a Cludia, que por trs vezes desligou o telefone 
sem dizer uma palavra. O sofrimento dele incomodava-a, era uma ingerncia absurda na dor que ela desejava intacta. Ricardo estragava-lhe o prazer de ser a mais infeliz, 
a nica infeliz. So assim cruis, da pior crueldade que  a da inocncia, os amores novos. "Ora. H-de passar-lhe depressa", considerava, de meia em meia hora, 
num rasgo de sensatez. Mas era uma sensatez postia, sem convico, que a punha mais melanclica do que trgica, como se andasse aos tropees numa floresta desconhecida. 
Queria uma desgraa faustosa, daquelas que oferecem de brinde a aura frrea da dignidade, e afinal sentia-se to desamparada que s lhe apetecia ir a correr para 
os braos do amante indiferente. No foi o medo de uma segunda rejeio o que a reteve; essa possibilidade exaltava-a, porque a conduziria ao den das grandes apaixonadas. 
Reteve-a, isso sim, o pavor da promiscuidade, que nem por um segundo a tolhera enquanto se dedicara aplicadamente a uma vida dupla. Abandonar Ricardo tinha sido 
um acto de fraqueza, uma cedncia ao egosmo.
     Cludia percebia agora o comprazimento que as mulheres experimentam em serem rejeitadas;  que rejeitar  uma deliberao da razo inadequada  grandeza da 
alma. Procurar imediatamente Dinis seria incorrer num segundo erro de voluntarismo. Na cabea de Cludia, semelhantes consideraes traduziam-se assim: "O que  
que o Dinis pensar de mim se eu for a correr ter com ele para lhe dizer que me livrei do Ricardo?"
     Deste modo pensava Cludia, e nem sequer pensava mal, porque nada incomoda tanto os homens como as atitudes de ostensiva arrumao que as mulheres gostam de 
tomar. As mulheres so muito mais dadas aos exerccios da razo do que os homens;  por isso que o Poder, repetitivo e ritual como um jogo de crianas, as atrai 
to pouco.  tambm por isso que sobrestimam as estratgias masculinas, sem que lhes ocorra que os homens possam simplesmente mostrar-se tal como so.
     - Cludia, no te importas de ir atender o telefone, que eu estou na cozinha?
     Telefonista de famlia  a definio profissional dos adolescentes. Comea-se a atender o telefone aos quatro ou cinco anos, num revolucionrio mpeto de afirmao, 
e acaba-se como secretrio do sistema. Cada toque do telefone  pretexto para uma denncia da escravatura materna e uma exibio da supremacia paterna. A me no 
pode atender, porque  a criada, o pai no deve atender, porque  o senhor.
     - Me,  a tia Vera. 
     - Vou j.
      superfcie, evidentemente, as coisas so um pouco mais subtis. O pai no atende o telefone porque est a ver televiso, e de qualquer forma, como o prprio 
sublinha com um certo azedume, a chamada nunca  para ele. Quanto  me, estava com as mos molhadas, e de qualquer forma, como a prpria insinua com uma certa malcia, 
a chamada  quase sempre para a sua encantadora filha. O certo  que, quando Cludia no est em casa, o toque do telefone  o gongo que anuncia o incio de uma 
trepidante peleja:
     - Podes ir atender, filho?
     Ao primeiro, ao segundo, e mesmo ao terceiro grito, o filho, que a lei reconhece como marido, compenetra-se no seu papel de surdo. Estava absorto, seguia as 
importantes guerras do mundo.
      quarta interpelao, o tom de voz da mulher cresceu muito, at porque ela j se aproximou da sala.
     - Desculpa l, querida, estava aqui a ver isto, no te ouvi.
     Mas passaram j muitos anos sobre a primeira representao desta cena, e agora a palavra "querida" enfurece-a. Se por acaso ainda est algum do outro lado 
da linha, ela comea a falar, trmula de raiva. Se por uma estranha coincidncia quem chama  uma amiga dela, a guerra esboroa-se, a pouco e pouco. Ele h-de murmurar, 
ciumento e pdico, que os telefones se fizeram para dar recados rpidos, e ela h-de encolher os ombros, vtima vitoriosa.
     
     Estes episdios criam nos adolescentes uma espcie de piedade para com os adultos. Aos quinze anos as pessoas so demasiado srias para que a trivialidade as 
possa entreter. Prefere-se o tdio  questincula, o silncio s palavras pequenas. Cludia tinha pena dos pais. Por mais que folheasse os lbuns antigos, no conseguia 
acreditar que aquele par radioso de juventude pudesse ter habitado os corpos deles. Pareciam sados de um filme mtico; ele chamava-se Gregory Peck, ela Ingrid Bergman, 
e o mundo rua aos ps daquele amor.
     Um dia, a me contara-lhe que o seu casamento tinha uma histria ainda mais romntica: o pai ia tornar-se padre, e conheceu-a  beira dos votos definitivos. 
A Igreja assustou-se, a me dele desatou a pedir a Deus que no o deixasse fugir, e o jovem seminarista foi enviado para o Vaticano, em honrosa misso de esclarecimento 
espiritual. Mas a amada desafiou as sedues divinas, e entrou a salto no estado sagrado. A me contara-lhe, mas Cludia no conseguia encontrar nos olhos dela essa 
rapariga capaz de voar para Itlia para roubar um homem ao prprio Deus.
     - No foi fcil, no, filha. Ainda por cima, as viagens eram caras e eu no tinha dinheiro nenhum. Felizmente, o teu av ajudou-me. s escondidas da tua av, 
claro. Acho que ainda hoje ela no sabe que foi ele quem me deu o dinheiro.
     E ento ria-se. Quando a me ria assim, de repente, era possvel ver nela uma garota resplandecente, pronta para as maiores ousadias.
     - Mas ento porqu?
     - Porqu o qu, filhinha?
     "Por que  que vocs so to infelizes, me. Por que  que so to iguais aos outros todos, me. Por que  que quando eu fiz quinze anos tu me deste um livro 
ridculo sobre o amor e a vida, para meninas dos oito aos catorze anos, me. Por que  que tu no vs que eu sou uma mulher." Cludia trazia estas perguntas entaladas 
na garganta mas tinha pena de mais. E sentia a voz longnqua do av Matias, pedindo-lhe que no exigisse respostas humanas para o que no  humano.
     - Vai ser me solteira, imagina. Que grande desgosto no ho-de sentir aqueles pais.
     Era assim que falava agora a salteadora do Vaticano. De cada vez que ouvia a me conversar com a tia Vera, Cludia decidia bater com a porta, sair de casa para 
sempre. E fechava-se  chave no quarto, para que os pais entendessem que ela no morava ali.
     
     Sonhava cada vez mais, ou antes, lembrava-se cada vez mais do que sonhava. Num dos mais insistentes sonhos, Cludia comemorava o seu aniver-srio. Entrava pelo 
brao de Ricardo num restaurante elegante. Os empregados curvavam-se diante dela, davam-lhe os parabns e conduziam-na at a uma mesa junto da janela. Um pianista 
acompanhava as refeies, tocando canes romnticas do Sinatra e dos Beatles. Os amigos iam chegando, davam-lhe pren-das, riam, sentavam-se  mesa com eles. Era 
uma mesa redonda, que parecia alargar infinitamente,  medida que as pessoas chegavam. Quando Cludia acabava de almoar, o pianista levantava-se e os empregados 
empurravam o piano, que tinha rodas, at junto da mesa dela. Ento Cludia dizia:
     - Que simptico!  to bom poder tocar piano logo depois do almoo!
     E comeava a dedilhar o piano. De repente lembrava-se que no sabia tocar piano, mas os seus dedos percorriam as teclas e as notas saiam certas. Cludia tocava 
as mesmas msicas que o pianista tinha tocado, e toda a gente aplaudia. At que, sem querer, olhava para a janela e via Dinis, do lado de fora, com os olhos fixos 
nela. Num instante, o sol desaparecera, era noite cerrada, Dinis entrava pelo restaurante e as toalhas floridas voavam das mesas levadas por uma tremenda ventania.
     Ricardo levantava-se, os outros riam-se cada vez mais alto, Dinis empurrava-a delicadamente, sem olhar para ela, sentava-se ao piano e dizia:
     - Vou ensinar-vos o que  a msica, grandes bestas.
     E comeava a tocar a abertura dos Mestres Cantores, de Wagner.
     Cludia suspirava de alvio, mas de sbito aparecia um velho senhor, com um rosto lvido e solene, que lhe sussurrava ao ouvido:
     - H respostas humanas para o que no  humano.
     E o corao dela comeava a bater muito depressa. Sentia que se tinha esquecido de alguma coisa muito grave. O beb! Era isso. Ela tinha um beb to pequenino 
que se estava sempre a esquecer dele. Tinha posto o beb dentro do forno, antes de sair, numa casca de noz, porque estava muito frio e ele no podia constipar-se. 
E tinha-se esquecido de apagar o forno. Que horror, que horas so? Quanto tempo passou? Queria correr, mas as pernas pesavam-lhe como chumbo. Arrastava-se penosamente 
para a sada do restaurante. Quando finalmente conseguia abrir a porta, deparava-se-lhe uma figura assustadora. Era uma mulher gorda e branca, muito gorda e muito 
branca e muito maquilhada, que lhe sorria. Cludia no conseguia andar porque a mulher ocupava o espao todo. A mulher tinha o cabelo cinzento e desgrenhado, e disse:
     - Que simptico!  to bom poder tocar piano depois de morta!
     Sangue. A boca daquela mulher escorria sangue. Ento Cludia acordava, em pnico, convencida de que o beb afinal dormia junto dela e apavorada de o ter esmagado 
durante o sono. Depois ficava o dia inteiro a matutar naquela mulher gorda e branca. Tinha a certeza que a conhecia de uma outra vida protegida pela memria. Aquela 
mulher era uma menina velha.
     Mariana? Mas o que  que Mariana podia querer de Cludia?
     Ainda no se inventou melhor guardi dos bons costumes do que a luz do dia. A noite, como se sabe,  a culpada de tudo. Dos amores emboscados e das emboscadas 
que se disfaram de amor, dos assassnios cruis e da crueldade de no ter ningum  mo para assassinar, s por uma noite. Confiados nesta teoria csmica, os paps 
das meninas mostravam-se-lhes avaros nos horrios nocturnos.  um mtodo de educao ingnuo, este, e os educadores estariam provavelmente conscientes disso. Mas 
afinal, no h seno ingenuidade -ou a presuno que lhe  parente prxima -em qualquer mtodo de educao.
     Destas coisas prticas entendem as mes bem mais do que os pais. Por isso se afadigavam a explicar s suas descendentes que no deviam andar at tarde pelos 
cafs "porque parecia mal". Neste discurso do mal parecer transmitiam s raparigas uma tranquilizadora cumplicidade; as meninas percebiam que a vergonha no estava 
nos actos, mas na publicidade deles, e aprendiam as artes do segredo e da astcia, em que normalmente os rapazes no tm o privilgio de se iniciar. Os pais acreditavam 
firmemente que as regras que impunham eram cumpridas na ntegra, sem que lhes ocorresse que as leis da famlia pudessem suscitar os imaginativos desvios que eles 
prprios encontravam para as leis fiscais.
     Levavam to a srio o seu papel de chefes que no lhes passava pela ideia que pudessem ser desobedecidos; se os filhos tinham boas notas e estavam a horas em 
casa, era porque se mantinham castos e imunes a qualquer delinquncia. Este sistema de dedues simples garantiria a harmonia familiar, se no fosse aplicado com 
a mesma linearidade no sentido oposto: ms notas eram sinnimo de droga-loucura-morte; horrios fluidos, sinal certo da mais negra gandulagem.
     Iniciadas pelas mes na boa estratgia das aparncias, as raparigas conse-guiam uma liberdade de movimentos bem mais ampla do que os rapazes; tratavam de estudar 
o suficiente para que as deixassem em paz. Arrumavam disciplinadamente os quartos, eram pontuais ao jantar, contavam  mesa mil e um pormenores irrelevantes do seu 
quotidiano. Ningum lhes fazia perguntas. De quando em quando concediam pequenas confidncias  me, pedindo-lhe por Deus que no contasse ao pai. As mes sorriam 
e intercediam por elas na hora das festas.
     Ora se a luz do dia nunca foi tropeo aos ardores do namoro,  verdade que sempre se mostra travo seguro s paixes desamparadas. Enquanto havia sol, Cludia 
pensava friamente que Dinis  que havia de a procurar. Quem a procurou, entretanto, foi Teresa, cheia de recados e juras de eterno amor da parte de Ricardo.
     - No o quero. - repetia Cludia.
     Teresa no via como argumentar, face a to curtas palavras.
     Tambm no se esforou por a alm; estava farta de ser mediadora de amores alheios, e cismava, mais coisa menos coisa, que d Deus nozes a quem no tem dentes. 
Tratou portanto de se dedicar ao consolo do abandonado, a ver se punha nos olhos do cruel Joo uns meigos laivos de cime.
     Ho-de concordar que  difcil espicaar quem se no v; Teresa, pelo menos, assim se viu forada a concluir.
     Aparentemente, Joo desertara. Dizia-se que passava dia e noite rondando a casa da tal Alexandra, que pelos vistos se mostrara sensvel  carta amatria que 
Teresa diligentemente escrevera, como se fosse para si mesma.
     Mas Alexandra bocejava enquanto fazia danar o gelo dentro do copo. Joo contava-lhe coisas, histrias de anjos sobre rodas ou marinheiros surfistas, herosmos 
valorosamente inventados.
     Pois , dizia-lhe ela. A princpio ainda levantava a cabea, a engolir o sono e a fazer-se fatal como nos filmes, os olhos muito esticados debaixo do rmel 
da me. Pois , dizia ela no ponto pargrafo, j a mexer-se na cadeira e a coar o nariz, daquela maneira que nunca se viu nos filmes romnticos. s tantas ps-se 
a olhar para o relgio e a meditar na vida. Mais ou menos assim: "Vamos ficar aqui a empatar toda a noite e eu que tinha tanto que estudar."
     Impaciente, mencionou os livros, tenho tantos livros para ler, disse ela. Joo aproveitou para se fazer interessante; declarou que viver lhe parecia muito mais 
importante do que ler. Pois , disse ela, fartinha.
     - Pois . Olha, sabes, isto  muito engraado, mas eu ainda no tenho idade para bares. Quando tiver trinta anos acho que vou gostar de ficar aqui sentada a 
conversar. Mas hoje no tenho grande coisa para dizer. Gosto  de discotecas, percebes?
     - Percebes? J no gosto do Ricardo. Se calhar nunca gostei.
     Isabel no respondia. Ouvia-a e sorria-lhe com doura. Cludia comeou a procurar Isabel em todos os intervalos do liceu, s porque aquele sorriso era exactamente 
o de Dinis. O espelho turvo da paixo oferece s vezes derivaes de igual intensidade. Numa semana, Isabel e Cludia tornaram-se inseparveis.
     

     
     
     
      9
     
     Isabel anotava as frases das pessoas:
     - Estes saltos altos matam-me. J no tenho idade para andar tanto.
     - Vamos s at quela loja. Quero comprar-te o leno que est na montra.
     - Mas eu no fao anos.
     - Tu nunca fizeste anos. Ests  a comear a ficar rezingona.
     - No me puxes pelo brao, homem! Agora j no te fujo, est descansado. E o que  que havemos de dar  nossa neta?
     - Ela j tem tudo. Tu estraga-la com mimos.
     - Os mimos no estragam ningum. J tinhas idade para perceber isso.
     Sobretudo as frases das pessoas velhas. Tinha um cndido fascnio pelos rostos enrugados. Envelhecer  revelarmo-nos  transparncia, cismava ela, embora esta 
premonio lhe surgisse de outra maneira.
     - So to verdadeiros, os velhos.
     - Pois.  uma tristeza, no ? 
     - Uma tristeza, Cludia? Quem me dera j ser assim velha. Como aquele casal que ali vai, vs? No tm medo, nem cimes. No tm este horror de no saber nada.
     - L isso  verdade. - atalhava Cludia. - No tm nada.
     Isabel olhou para Cludia, e depois para o caderno onde escrevera aquele comovente dilogo. Pelo menos a ela, parecia-lhe comovente. Mas tinha a certeza de 
que Cludia no pensava assim. Cludia, a bela, sabia que na velhice como na adolescncia a alma sobra-nos de um corpo demasiado pesado, destrambelhado, horrivelmente 
nosso. Um corpo assustadoramente estranho, intil como um relgio avariado. Um corpo fora do tempo, porque a data que nele marcam os olhares dos outros no coincide 
com a data que nele marcam os desejos que o animam.
     Os velhos esto to perto da morte como os adolescentes do suicdio - por excesso de idade. Aos adolescentes salva-os o sonho como aos velhos a memria.
     - Eu no gosto de velhos. - declarava Cludia. - O nico velho a que acho uma certa graa  Murinelo. Porque  um bocado esquisito, acho. Nem parece bem um 
velho.
     - Havias de conhecer a av Cu. Ias ador-la. At o Dinis a adora.
     Isabel utilizava sempre Dinis como referente, em casos limite de sensibili-dade.
     - Ah, ? E porque  que o Dinis gosta tanto dessa av?
     Cludia caa na armadilha, com a inocncia prpria do destempero, que nem sequer poupa as mulheres fatais.
     - Porque ela  feiticeira. S pode ser.  preciso bruxedo para o Dinis gostar de algum. 
     - Ele nunca teve nenhuma namorada?
     - Nunca. S amantes.
     S amantes, amores de recato, intransmissveis pelo escndalo, que serve como anestesia de desejos. Havia uma seriedade mais grave do que qualquer devassido 
no tom que Isabel punha naquela palavra: "Amantes." Um imprio de lumes, luminoso como uma lmina. O desejo demorado de dor. O corpo a aprender tudo ao contrrio, 
perro de pudor e depois preso de paixo. Da primeira vez julgaram que era s uma noite de lua cheia. Da segunda vez estremeceram. E depois? "Depois nunca mais houve, 
Dinis. Nunca mais houve depois, percebes?"
     - Se percebo, o qu?
     Aquele tempo doente, parado como uma faca dentro do corao dela, tortura sufocada, sem espectculo.
     - Esta noite no tem fim.
     Foi s isto o que ela lhe disse ao ouvido, entre beijos e beijos e beijos. Nessa noite, trocaram o corao pelo corpo todo. Havia cartazes de cinema nas paredes 
e um silncio que j no se adequava  vida.
     Cludia morria de vontade de contar tudo a Isabel: "Estou doida pelo teu irmo, sabes, quero estar sempre ao p de ti porque trazes o cheiro da casa dele, e 
o mesmo modo de falar pouco, o mesmo olhar distante, Isabel, se eu fosse rapaz apaixonava-me por ti por causa dele, v l tu, arrancava-te a essa submisso tranquila, 
se pudesse, mas posso to pouco, nem amante dele soube ser, ele no me quer, Isabel, se ao menos eu pudesse esquecer. Porque ele quis-me tanto, se tu soubesses, 
tanto e to devagar, a minha pele ficou suspensa. A minha pele prendeu-se no tempo, sim, agora nunca mais poderei ser feliz, sou uma desgraada, tive a revelao 
da felicidade inteira, j no posso envelhecer nem posso continuar a ser jovem, radiosa, veloz." Os hinos publicitrios exaltam as formas do corpo como higiene de 
proteco face aos abismos da alma. Os caminhos perigosos da sensualidade so substitudos por uma sexualidade bem ordenada, estudada como a decorao de uma casa, 
em zonas convenientes de luz e sombra.
     Entregarmo-nos  despedirmo-nos da presuno da escolha, da vaidade dos limites. "E agora estou presa num cu terrvel, oco, dentro do meu corpo no h nada, 
Isabel, ele sorveu o tempo todo que eu tinha guardado debaixo da pele, beijou-me com violentssimo rigor, amou-me com tal mtodo que me deixou sem mim, no me fales 
de velhos, Isabel, da serenidade das rugas que eu j no poderei ter, ele condenou-me  adolescncia eterna,  beleza desprezada."
     - Eu disse alguma coisa?
     - Pareceu-me que me perguntavas se eu percebia no seio qu.
     - Nem eu. Devo estar a ficar maluca. Noutro dia tive um sonho horrvel, j te contei?
     No, lembrava-se muito bem de no ter contado. Nem sabia porque  que ia contar agora aquele sonho da festa de anos e do piano e da mulher morta. Omitiu certos 
pormenores, evidentemente. Queria apenas mudar de assunto; julgava ela que era possvel, simplesmente, mudar de assunto. 
     - Tem graa. J ouvi essa frase em algum lado. Qual frase?
     - Bom. No ests nos teus dias, pois no, pipoca?
     Os eptetos ternos de Isabel eram um bocadinho invulgares. Desde h uns dias, passara a referir-se a si prpria como gonha e a Cludia como pipoca. No era 
um tratamento constante; reservava-o aos momentos de maior intimidade, que se apresentavam sob a forma de pontaps e encontres.
     - Acho que no.
     - Essa frase do teu sonho: "H respostas humanas para o que no  humano." J a ouvi, no sei onde.
     Um dos encantos de Isabel era a delicadeza. Tirava um prazer erudito das desgraas dos amigos. Dizia que  muito fcil ser-se amvel quando tudo nos corre bem. 
Observava atentamente as pessoas quando a adversidade as atingia, para ver como  que elas encontravam energia para continuar. No confiava nas palavras; nunca fazia 
perguntas embaraosas, nunca tentava devassar a tristeza alheia. Limitava-se  cumplicidade de uma pausa. Depois retomava o dilogo, como se nada fosse. Para que 
Cludia entendesse que estava tudo bem, e que podia dizer o que quisesse, quando quisesse.
     - Se calhar,  de algum filme. Sabes como , nos sonhos mistura-se tudo.
     - No, no era filme. Se fosse, eu no a tinha fixado.
     Lembro-me que foi uma pessoa. E que foi muito esquisito. E no foi h muito tempo.
     - No estou a ver o teu Filipo a largar filosofias dessas.
     - Pronto. Tinhas que ser mazinha, no ?
     Infelizmente, Isabel era muito dada a melindres. Cludia aprendera a dissolver-lhe os arrufos numa s tirada; punha os olhos em alvo e clamava:
     - Oh, ervilha rabitesa, salta desse colcho, no me incomodes a princesa!
     Isabel desatava a rir, e estava o caso encerrado. Mas desde que Cludia se tornara uma rapariga sensvel perdera a pontaria do humor. Agarrou-se aos beijos 
a Isabel, que a enxotou, vociferando que era o que mais lhe faltava, ser lambuzada por mulheres.
     Cludia sentiu-se humilhada e ofendida; ser rejeitada pela prpria personificao da meiguice, era de mais. Virou costas, furiosa de memrias adocicadas: Isabel 
a fazer festas na cabea do Linhos, daquela vez em que ele ia a correr atrs da Alexandra e o Radar lhe pregou uma rasteira que o estatelou no meio da rua, para 
gudio das massas; Isabel de mo dada com o Joo. Isabel de mo dada, at com o bruto do T de Luanda. E o Galar das barracas? Pois. Nem  ral ela negava mimos. 
Mimos simples, sem complicaes femininas, de carinhosa maria-rapaz. To antigos e castos que nunca o zeloso Filipe os vetara.
     Se o sentimento no lhe tolhesse a ateno, Cludia verificaria que nenhuma daquelas imagens inclua outras raparigas. Isabel manifestava um pudor absoluto 
no contacto com o seu sexo, como frequentemente acontece com as mulheres desconfiadas da sua luz interior. Quanto mais amava uma amiga, mais impensveis se lhe tornavam 
essas familiaridades.
     Pareciam-lhe ridculas, ou antes, invivveis de redundncia.
     Isabel tinha muito mais medo de ser abandonada pelas amigas do que pelos namorados; por isso, inconscientemente, fugira sempre de ser a maior amiga de algum. 
Julgava-se inspida, incapaz de merecer o empenho permanente de uma amizade absoluta. Que mulher poderia encontrar nela o seu eco embelezado? Espantava-a bastante 
a solicitude de Cludia, e recriminava-se secretamente pelos maus pensamentos que tivera acerca dela. Considerara-a sempre uma exibicionista a tender, na melhor 
das hipteses, para a perfdia. Afinal, Cludia era uma alma bondosa, o que s a fazia sentir-se ainda mais burra do que era costume. s vezes, duvidava da generosidade 
da amiga; cismava que aquele sbito afecto era movido por um qualquer objectivo recndito. Por exemplo, Dinis. Cludia corava quando ouvia o nome dele. Ou seria 
impresso sua? Mas no era tambm feia aco estar sempre a pr a amiga  prova, com conversas malvolas acerca das amantes de Dinis? Por outro lado, era muito esquisito 
que Cludia nem tivesse perguntado o que  que ela queria dizer com aquilo das amantes.
     As lgrimas actuam como uma espcie de amaciador sobre os afectos ressentidos. Convm, no entanto, ter mo nelas; quando se soltam a intervalos regulares tornam-se 
previsveis, e a previsibilidade contraria a misericrdia. Cludia havia de meditar nisto quando Dinis a visse chorar pela terceira ou quarta vez. Mas Isabel estava 
pouco acostumada ao favor dos prantos alheios; conhecia as lgrimas apenas pelo travor do sal no seu prprio rosto. Por isso, o choro de Cludia caiu-lhe na zanga 
como um presente quase impdico de luxo:
     - Desculpa, desculpa, desculpa, Claudette querida! Sou uma parva, uma estpida, uma bruta, uma ordinria. Perdoas a uma gonha desgraada que gosta muito de 
ti?
     O perfume, outra vez o titnico-inebriante-divino perfume dele nos cabelos dela, "ai Isabel no digas nada, no me abandones, abraa-me com mais fora."
     - Ai, Isabel, a parva, estpida, bruta sou eu que te ando a mentir. No me deixes, gonha, eu vou-te dizer tudo mas primeiro preciso que me jures que s a minha 
maior amiga e que nada neste mundo pode mudar isso. Jura que vai ser sempre assim. Jura.
     - Eu juro tudo o que tu quiseres, mas no chores, por favor, no chores mais, pipoca.
     - Com sangue. Tem de ser um juramento a srio, com sangue.
     - Com sangue? O caso  assim to srio? O que  que tu tens para me dizer?
     - Temos que trocar de sangue, Isabel. Seno no tenho coragem.  um segredo horrvel, gonha.
     Isabel abriu a mala, procurou o estojo de desenho e picou o pulso esquerdo com o bico do compasso, sem mais perguntas.
     Cludia estava to atrapalhada que se preparava para picar o pulso direito, mas a amiga travou-lhe o gesto:
     - O esquerdo, tonta. O corao fica do lado esquerdo.
     Misturavam riso nas lgrimas, esfregando aplicadamente os pulsos para que as duas gotas de sangue trocassem de corpo. O riso impunha-se cada vez mais, sacudindo 
para longe a incmoda memria do choro. Foi a rir que Isabel disse:
     - Pronto. Agora somos irms. 
     Foi a rir que Cludia respondeu:
     - Oh! Nem sabes como!
     - Como?
     - Estou apaixonada pelo teu irmo. Sou, ou fui, ou serei, amante dele.
     - Foste? s? Ou isso so coisas da tua cabea?
     - Da cabea, do corpo, do passado, do futuro, que diferena faz? Que diferena faz, hem? Ou se  amante, ou no se .
     Desde sempre, para todo o sempre, sabes?  uma maldio, a melhor maldio, a nica que existe, as bruxas das histrias  que tinham razo. No h mais nada 
no mundo.
     

     
     
     
      10
     
     Apaixonou-se por um homem aos quatro anos e meio e pelo medo aos cinco. O objecto da sua primeira paixo era louro, de olhos azuis e muito mais velho. Teresa 
passava tardes no quarto dos brinquedos a imaginar que o seu amor estava  morte (um incndio, um afogamento, um despiste, um tiro) e que ela perdia a vida para 
o salvar. Entretanto, as pessoas crescidas julgavam que Teresa odiava o rapaz, porque fugia dele a sete ps. Habituou-se a falar mais com amigos imaginrios do que 
com pessoas reais, como se habituou ao gosto das paixes dilacerantes.
     Esse primeiro amor sumira-se no mundo muito antes da adolescncia. Agora Teresa escrevia cartas de amor a um namorado inexistente. Passava as tardes de sbado 
assim, a escrever. Eram cartas longas, porque havia ainda o domingo. 
     Abria e fechava o envelope azul, durante todo o fim-de-semana.
     Havia sempre mais alguma coisa para contar. Depois lambia o selo muito devagarinho. Escrevia o nome dele no envelope, em letras grandes. O nome dele era a sua 
nica morada. Talvez um dia algum carteiro o encontrasse. s vezes sentia-lhe a presena como um excesso de corpo que a deixava paralisada.
     Acontecia-lhe pensar que ele podia ainda no ter nascido. E apetecia-lhe morrer para nascer no tempo dele.
     - E se ele vive do outro lado do mundo? E se ele j viveu antes de mim? E se ele est triste e eu no sei?
     Teresa acreditava num homem de olhos transparentes que esperava por ela para conquistar a cor. E procurava, magoava-se em amores casuais porque era a nica 
maneira de conservar intacta essa imagem de si.
     O amante imaginrio tornava-se particularmente ntido nas fases de maior provao. Como aqueles dias em que o Joo e a Alexandra estavam ali na sala ao lado. 
Passavam as manhs enroscados um no outro; de vez em quando, Teresa batia  porta a pretexto de um livro, de um lpis perdido. Era prdiga em arranjar pretextos 
que lhe acirrassem a dor. Se assim no fosse, teria recusado o pedido de Joo: a Alexandra tinha chumbado por faltas, os pais no podiam saber, ela tinha de sair 
na mesma todas as manhs, s oito e meia, como se fosse para o liceu.
     - E s tu nos podes salvar, Teresocas. s a nica que s tem aulas  tarde. E os teus pais saem cedo para o trabalho, no saem? V l, fofinha. Ajuda-nos. Ainda 
por cima, a Xana gosta tanto de ti.
     - Claro. Como  que ela no havia de gostar? Escrevi-lhe a carta de amor mais bonita que ela h-de ter na vida.
     - Tu no lhe vais contar que foste tu, pois no?  um segredo s nosso, no , chocolate?
     - No me chames chocolate. Nem fofinha. No precisas dessa manteiga toda. 
     - Mas no  manteiga, Teresinha!  amizade, pura amizade, juro.
     - Pior ainda.
     - V l, no sejas assim, eu sei que tu s boazinha...
     - As raparigas dividem-se em duas espcies: as boazinhas e as boas, no ?
     - O que te vale  que eu gosto de mulheres retorcidas, como tu.
     Teresa disse-lhe que sim, por causa do beijo que ele pousou na ponta do nariz dela, como remate de conversa. Disse-lhe que sim, e agora andava pelos cantos 
da casa a chorar. Virgnia, a criada, no se cansava de lhe ralhar:
     - Julgas que o conquistas por lhe arranjares um ninho, a ele e a essa galdria?
     Para Virgnia, galdrias eram todas as raparigas que namoravam as paixes de Teresa, o que deixava de fora, por junto, duas garotas. Virgnia olhava cada amor 
como uma guerra constituda por batalhas ininterruptas e assanhadas; o homem era um castelo a tomar aos infiis, que eram todas as mulheres do mundo. Mentir, difamar, 
morder, envenenar todos os processos eram lcitos desde que servissem a vitria. Certa vez, contava ela, a outra tentara roubar-lhe o homem com uma magia negra que 
consistia em misturar umas gotas de sangue menstrual ao molho dos morangos. Por azar, a vtima que Virgnia tanto amava adorava morangos, comia todos os que lhe 
pusessem  frente. Por sorte, a bruxa excedeu-se na dose; o rapaz comeou a sofrer de afrontamentos, vmitos, alucinaes, tonturas infernais.
     - Mirrou, coitadinho. Era um d de alma, uma coisa nunca vista. Parecia que nem tinha entendimento. Era mesmo isso o que ela queria, aquela cabra; que o homem 
ficasse um farrapo, um pau mandado nas mos dela. Ah, mas enganou-se bem, a desgraada.
     Primeiro, Virgnia arrastou-o para o mdico, que no descortinou a origem do mal mas o carregou de vitaminas e fortificantes  prova de qualquer feitio. Depois, 
inquiriu por portas e travessas at descobrir o nome da bruxa a que a outra recorrera.
     - Mas como  que tu sabias que a mulher tinha ido  bruxa?
     - Oh, filhinha, aquilo bastava a gente olhar para a cara dele.
     Apressou-se a comprar o sigilo deontolgico da especialista com as poupanas para o enxoval. A maga confessou-lhe a receita e vendeu-lhe o antdoto. Resultou, 
mas seis meses mais tarde apareceu outra galdria que sem bruxedo nenhum lhe levou de vez o Helder.
     -  o destino, querida. Quando o destino quer, no h nada a fazer. O que a gente no pode  desistir s primeiras.
     Esta filosofia intrpida conduzira Virgnia quase s portas da morte. O Chico reclamara-lhe a virgindade como definitiva prova de amor e imprescin-dvel passaporte 
para o casamento. E ela acabara por ceder, num dos primeiros domingos de sol.
     Chegara a casa aos risinhos, com os olhos a brilhar e metade da caruma da mata dentro da roupa. Mas o Chico nunca mais apareceu. Um dia, ela perdeu a vergonha 
e telefonou-lhe. Ouviu ento um Chico desconhecido que lhe explicava que no podia casar com uma mulher que j fora de outros.
     - De outros?
     Que no armasse em santinha, aconselhava a voz. No tinha havido sangue, e ele no era parvo nenhum. S no lhe tinha dito que tinha reparado para ela no ficar 
embaraada. Sim, porque ele era um homem de bem. A partir daquela tarde, estava o caso encerrado, era escusado falar mais disso. E no adiantava que ela jurasse 
e rejurasse. S conseguia enerv-lo, com aquelas desculpas de m pagadora. Ento ele no sabia o que era uma mulher virgem? Ora adeus, vai contar essa a outro.
     Nem quando soube da gravidez Virgnia voltou a procur-lo.
     Teresa fartou-se de insistir, mas Virgnia abanava a cabea, resignada e orgulhosa:
     - A gente tambm tem que ter dignidade, Teresinha.  o destino.
     Teresa no sabia que fazer de tanto destino. Virgnia preparava-se para ir bater  porta da primeira autodidacta do desmancho, quando Teresa se lembrou de Ana 
Carolina.
     - Tu no vais a lado nenhum antes de eu falar com a minha Mestra.
     - Por amor de Deus, no vs incomodar a menina Carolina por minha causa, que eu morro de vergonha.
     - Morres agora. A Carolina  que h-de arranjar uma maneira de tu no morreres.
     Ana Carolina tinha trinta anos e comeara por ser a explicadora de mate-mtica de Teresa. A pouco e pouco, Teresa perdeu o susto dos nmeros e as explicaes 
transformaram-se em grandes conversas. Um dia Ana Carolina disse:
     - Temos que acabar com este teatro de estudo, mida. Tu j te entendes perfeitamente com as contas, e no  justo que os teus pais estejam a pagar as nossas 
sesses de terapia sentimental.
     Agora encontravam-se regularmente no caf, e divertiam-se com a confuso que aquela amizade provocava nas pessoas. Uma vez a me de Teresa chegara a agradecer 
a Carolina a pacincia que tinha para aturar a filha.
     - Por favor. - respondera - No me ofenda. A Teresa  minha amiga.
     Aquela relao perturbava os pais de Teresa. Sentiam que a filha usava, contra eles, a prerrogativa adulta de escolher os seus prprios parentes. A delimitao 
etria das amizades tinha vindo atenuar o declnio da instituio familiar. Os bandos de jovens criados pelo desmoronamento das famlias confirmavam-nas ainda como 
lugares insubstituveis. A famlia deixou-nos em herana o interdito das geraes, para que a sua memria no fosse perturbada pela liberdade dos encontros emocionais. 
Nada inquieta tanto o poder que circula entre pais e filhos como as afeies estabelecidas  revelia dos acordos de idade.  possvel que a conscincia de uma infraco 
temporal tenha facilitado o nivelamento dos laos entre discpula e professora. Mas a diferena dos anos concedia-lhes sobretudo uma experincia de eternidade. Corrigiam-se 
uma  outra, continuamente, e era como se a memria e o sonho pudessem cruzar-se para vencer a fnebre inrcia das cronologias. 
     Ana Carolina estava longe da vida de Teresa, no pertencia ao seu meio habitual, o que limitava os perigos das promiscuidades bem-intencionadas. No lhe era 
prxima, e por isso podia ser-lhe ntima. Quando Virgnia entrou amparada em Ana Carolina, Teresa disse-lhe que no se preocupasse com a casa nem com nada, que os 
crescidos nunca haviam de saber. Fez as camas, passou a ferro, fez a sopa, limpou o p, enquanto, deitada no seu quarto de criada, Virgnia chorava baixinho. Ao 
fim do dia sentou-se ao espelho, e penteou muito devagar os cabelos longos. Orgulhava-se da cabeleira forte e farta que costumava escovar com gestos enrgicos. Para 
lhe puxar o lustro, dizia ela.
     - Deixa-te estar deitadinha, tonta, dizemos que ests com gripe.
     - Nem pensar, menina, a mezinha pode desconfiar.
     - Ah, agora sou a menina?
     -  para me habituar, Teresinha, no v acontecer como no outro dia, lembras-te, quando te tratei por tu  frente do paizinho?
     O episdio originara um verdadeiro drama caseiro, mas rendia-lhes agora um excelente lote de gargalhadas. Teresa ajudou Virgnia a levantar-se, deu-lhe um ch 
e cobriu-a de beijos. Passou a noite a ajud-la sub-repticiamente: um copo que o pai pedia, o po que faltava na mesa, a loua na mquina. A me louvou-lhe a prestabilidade 
e Virgnia piscava-lhe o olho sempre que se cruzava com ela. Os dias foram passando, neste ritmo aparentemente tranquilo, at quele sbado em que Virgnia se sentiu 
to mal que Teresa chamou um txi para a levar ao hospital. Um servio mal feito, foi o que disse a enfermeira. 
     - E agora no chores, aguenta. Ou tambm choravas quando estavas debaixo dele, hem?
     No domingo  noite, Virgnia acordou e sorriu para Teresa:
     - Ainda bem que isto aconteceu logo no fim-de-semana em que os paizinhos foram a passeio. Tenho que dar graas a Deus da sorte que tenho.
     Depois fechou os olhos e pediu:
     - L outra vez aquele bocadinho em que ela v o prncipe no navio iluminado.
     Era um navio que havia de voltar a Teresa muitos anos mais tarde.
     
     "Havia l em casa uma rapariga de dezoito anos que mal sabia ler. Na mesa de cabeceira do quarto dela, que era na altura o quarto da criada, estavam um frasco 
de gua-de-colnia e o saco de crochet que ela abria no colo depois do almoo e do jantar, enquanto ouvia a radionovela. Na mesa de cabeceira do quarto dela estava, 
de vez em quando, a fotografia de um namorado - mas isso era mesmo s de vez em quando. Normalmente ela guardava as fotografias no fundo das gavetas ou debaixo das 
almofadas, desesperada consigo mesma porque no as conseguia rasgar. Nunca me lembro de ter visto um livro na mesa de cabeceira dela, e, no entanto, foi ela quem 
me atiou o vcio dos livros.
     O banco da cozinha era nesse tempo muito alto e branco, e os ps balouavam-me longe do cho. Passvamos assim tardes inteiras; ela lavava a loia, descascava 
batatas, passava a ferro, e eu lia em voz alta. A nossa afinidade literria era total; nunca nos cansvamos de reler a deslumbrante odisseia da Sereiazinha apaixonada 
pela esttua naufragada de um prncipe demasiado terreno, e sonhvamos ir um dia ter com a esttua dela a esse extremo de Copenhaga dos postais ilustrados.
     - L outra vez aquele bocadinho em que ela v o prncipe no navio iluminado. - pedia-me ela ( ns tratvamo-nos por tu s escondidas), e eu lia outra vez e 
outra vez ainda. A casca de batata ficava suspensa no imvel bico da faca e eu nunca mais conseguia parar de ler.
     Quando as pessoas crescidas chegavam, ao fim da tarde, achavam-me j enroscada no canto da varanda do meu quarto, com um livro muito silencioso nas mos, e 
ralhavam-me meigamente:
     - Essa luz no chega, cansas os olhos.
     Os livros contraem-se assim irremediavelmente, tragicamente.
     No importa por onde comece a contaminao; h um cheiro, um restolhar de papel, e depois a gulodice alastra. Comea-se a ler muito antes de se saber localizar 
literaturas, nomes, gneros, e h nesse estrebuchar inicial qualquer coisa de sublime que definitivamente se perde quando crescemos e aprendemos a seleccionar o 
bom e o mau. Lembro-me de vaguear inebriada pelas prateleiras das livrarias, folheando as prateleiras de baixo  procura do livro que eu queria e no sabia qual 
era, revoltada com a ideia de que talvez o tal livro estivesse nas prateleiras de cima. Lembro-me dos dias em que um ttulo, uma frase, me faziam trazer para casa 
ratoeiras onde os dedos se entalavam e os olhos esmoreciam.
     Lembro-me de contar os dias que faltavam para a prxima mesada, jurando a mim mesma que desta vez no me precipitaria.
     Lembro-me, sobretudo, daquela rapariga de dezoito anos que nunca mais voltei a ver."
     

     
     
     
      11
     
     As pessoas felizes adoram exemplos; contendem com os prazeres do corpo, mas descansam muito a alma. As porteiras trocavam impresses sobre o fim do namoro de 
Cludia, que lhes parecia um pressgio divino para as rapa-rigas do bairro. Talvez as outras olhassem para aquele modelo, verrumavam, e deixassem de andar pelas 
ruas com rapazes de mau porte. As porteiras eram o mais rpido e eficaz boletim noticioso da zona; no havia beijo ou bofetada que lhes escapasse, fosse qual fosse 
a hora do dia ou da noite.
     Mantinham uma contabilidade apurada das riquezas e misrias das casas; cuidavam de manter olhos e ouvidos bem alerta, enquanto tricotavam ou varriam ou lavavam 
os vidros. Velhas ou novas, todas evidenciavam uma notvel capacidade de ouvir duas conversas ao mesmo tempo enquanto elas prprias tagarelavam.
     Dispunham de uma vasta e eficaz rede de correspondentes; um verdadeiro batalho de criadas de servir ou mulheres-a-dias, sempre dispostas a fornecer informao 
classificada a troco de uma boa palavra, ou de um desabafo cmplice sobre madames exploradoras. 
     Por extraordinrio que parea, nenhuma destas militantes da notcia tomou conhecimento do romance de Cludia e Dinis. Rejeitando Ricardo Luz, Cludia afastava-se 
dos holofotes da marginalidade. At porque ningum a via por cafs ou patamares; passava com livros debaixo do brao, e o seu caminho era sempre o mesmo; a casa 
de Isabel Marta. J no ria alto, e os seus passos no provocavam mais do que silncio e indiferena. Durante algumas noites, as janelas da casa dos seus pais foram 
alvo de um bombardeamento de cascalho; era a retaliao dos comparsas de Ricardo Luz, mas ningum lhe deu maior importncia do que a devida a uma brincadeira de 
garotos entediados. Certa vez, o pai de Cludia irritou-se e desceu de caadeira na mo, a tempo de ver uma quadrilha de pernas em definitiva fuga. A partir da, 
o grupo passou a adoptar estratgias mais subtis, e Cludia suportou-lhes uma intensa guerrilha de insultos. As cartas e os telefonemas annimos, carregados de ameaas, 
no lhe abalavam a alma; o que lhe custava eram os insultos gritados de lugares indetectveis, quando ela atravessava o bairro, a horas mortas. Tratou ento de evitar 
as sadas nocturnas; ligava para a me e dizia-lhe que ficava a dormir em casa de Isabel. Era verdade, e as famlias sossegavam, enquanto Cludia abria sorrateiramente 
a porta do quarto de Dinis.
     No havia perguntas nem respostas; da primeira vez, ele ergueu a cabea, ofereceu-lhe um sorriso imenso e disse-lhe:
     - Vem. No tenhas medo.
     Cludia pegou-lhe na mo, levou-a  boca, e entregou-se-lhe com o ardor das longas esperas, aferventadas pela experincia da dor. 
     - Diz. - pediu ela. - Diz s hoje.
     - S hoje. - repetiu ele, a rir.
     - No  isso, malandro.  a palavra. Diz l. S hoje.
     - S hoje. - insistiu ele.
     - Diz: amo-te. V l.
     - Por amor de Deus. Eu nunca digo essas barbaridades.
     - Nunca? A ningum? No acredito que nunca tenhas dito.
     - Eu no falo dos meus casos passados.
     - Mas ento como  que as pessoas sabem se tu gostas delas ou no?
     - Acho que no  preciso pr legendas.
     Cludia suspirou e calou-se. Era-lhe muito difcil conter a torrente de palavras que lhe espirrava do corao; mas se desse rdea quele tropel de acusaes 
lacerantes, corria o risco de enjoar o amado. Ora esse era o nico risco que Cludia no estava disposta a correr. E foi assim que implicitamente eles se tornaram 
cmplices.
     Eram cmplices. Gostavam de ir para a esplanada ouvir as conversas dos outros, como se fossem canes.
     Havia um jogo de cartas na mesa ao lado. O marinheiro espreguiou-se e disse:
     - O estrangeiro  um stio rodeado de Portugal por todos os lados. 
     Eles riram-se. Eram cmplices. Nunca falavam de amor. S falavam dos amores dos outros. A noite encontrava-os nos stios mais estranhos. Os outros diziam que 
eles eram muito amigos. Eles no diziam nada. Nem sequer se tocavam, na vida real. Ningum sabia que ela ficava horas a fio sentada nos degraus dele,  espera. Ningum 
sabia nada. Apareciam em toda a parte para melhor se esconderem. Um dia, ele esteve quase a dizer-lhe que no podia passar sem os sentidos dela.
     Mas no disse. Dinis Marta entendia que o sublime cintila no centro da vulgaridade. Seduzia. Jogava s cartas com o corao dos outros. Fazia batota. Sempre 
que perdia, ganhava. Guardar o que ficara perdido era a sua forma de vencer. Queria-se puro e perverso como um recm-nascido e crescia para trs, at se tornar digno 
das homenagens mais intimas. Sempre vivera assim, em queda imvel dentro do seu microscpio de sentimentos.
     Isabel gostava de o lembrar aos seis anos, a dizer  av: "Eu sei que o Pai Natal no existe. Mas no te esqueas de apagar a lareira antes de irmos dormir, 
que  para ele no se queimar quando vier." Dinis considerava que esta deixa no abonava as suas faculdades intelectuais, e declarava-a infame mentira.
     O humor  um poderoso corrosivo dos hbitos de irmos; neste particular, Dinis e Isabel no constituam excepo. Isabel alimentava a secreta esperana de ver 
fenecer o amor de Cludia,  fora purgante do convvio. Mas Dinis orquestrava a sua privacidade com talentos felinos. Cludia sugeria-lhe cinemas, praias, entrevistas 
sucessivas. Dinis acedia a um encontro e declinava o seguinte, de um modo doce e fluido que prescindia de qualquer negativa. Furtava-se s marcaes, que mascarava 
de acasos. Quanto mais Isabel porfiava em doutrin-la acerca das fraquezas do irmo, maior se punha o interesse de Cludia no rapaz. Que ele se fechasse no quarto 
dias a fio sem motivo aparente, ou que gritasse com a empregada porque as camisas estavam mal passadas, pareciam-lhe apenas singularidades de um ser mtico. Isabel 
desfiava pormenores de terrena eloquncia; era o quarto cheio de roupa suja, as horas em frente ao espelho, o roubo constante da carteira da cozinha, as covardias 
e as denncias minsculas.
     Mas Cludia continuava encostada  janela para o ver chegar.
     Dinis aterrorizou-se quando percebeu que o seu amor secreto trocava risos e confidncias com a irm. Passou do terror ao espanto e do espanto a uma seduo 
maior, porque nada fascina tanto os homens como a inabalvel conivncia das mulheres. Tinha a certeza de que Isabel daria dele uma imagem pobre, se no ridcula, 
e no compreendia que a paixo de Cludia pudesse sobreviver a essa devassa. Ora as paixes so fantasias e duram o tempo que souberem colher da morte que as inventa. 
Quanto mais real Dinis lhe surgia, mais Cludia o recriava em delrios invulnerveis.
     Entretanto, ele via-a agora contaminada pela intimidade de Isabel, ml-tipla, dbia, veloz e mansa como uma aranha, e sentia-se tentado ao assom-broso enlevo 
daquela teia. Amava-a com um prazer particularmente requintado quando ela escorregava sobre o seu corpo ainda quente dos lenis de Isabel, que dormia no quarto 
ao lado. Certos homens fraquejam perante a promis-cuidade; recusam-se a entender-lhe a voz oculta, em parte porque, ao contrrio das mulheres, so educados para 
a aritmtica da moral, mas sobretudo porque a solido os desprotege para os fascnios absolutos. Cludia enternecia-se com os monlogos ingnuos de Dinis. A propsito 
de coisa nenhuma, ele desfiava histrias de tringulos amorosos, verberando a ambiguidade das mulheres e o sofrimento em que punham os homens. Nada havia a responder. 
Estas narra-tivas eram as nicas declaraes de amor de que Dinis era capaz. Proferia-as contra si mesmo, s cegas. Expunha-se em plena inconscincia;  essa a mais 
perigosa forma de exposio - quase sempre masculina.
     Filipe reagiu mal  nova amizade de Isabel. A princpio, admoestava-a com manha. Mas cedo se cansou de subtilezas, e desvairou em ordens e proibies. Grosso 
erro, que o viria a perder; o conforto de uma maior amiga agua impacincias nas raparigas. Isabel deu em pensar que a amizade resiste s variaes climticas que 
matam o amor, e decidiu que nada a afastaria de Cludia. Varado de cimes, Filipe pintava a negro o retrato da rapariga que rejeitara Ricardo Luz: fez dela uma devassa 
de gelo, a ltima das falsas. Descreveu-lhe as faanhas sexuais com requintes demonacos. "O Ricardo contou-me que ela s queria aquilo, sabes. Uma ninfomanaca, 
enfim." Isabel respondia-lhe com um sorriso mudado. A tristeza que sempre nela o tranquilizara era agora mudo sarcasmo, e Filipe teve medo. Tanto medo que largou 
em gritos:
     - No te quero ver mais com ela, ouviste?
     - Ela faz-me bem.
     No seu modo sereno, Isabel voltou costas, sem sequer chorar.
     Filipe nunca gritara a uma mulher sem que ela retribusse com lgrimas esse esforo. As lgrimas de Isabel agiam sobre ele como um certificado de habilitaes. 
A ausncia das lgrimas havia de o enlouquecer. Filipe no tardaria a confessar-se completamente dependente delas. E nunca percebeu que foi essa dependncia subitamente 
visvel, mais do que todas as pobres infmias mil vezes repetidas, a causa das mudanas que depois vieram.
     Mas no  ainda o tempo. Estamos no fim da Primavera e as meninas preocupam-se com os exames. Isabel jura a Filipe que o adora e desculpa-se com os estudos 
para estar cada vez mais horas com Cludia. Enquanto suspei-tou do amor da amiga pelo irmo, desconfiou da pureza daquela amizade. A confirmao das suspeitas acabou-lhe 
com as desconfianas, o que s parecer estranho a quem nunca tiver experimentado uma amizade de mulher.
     O mundo inteiro podia ruir. Catstrofes, terramotos, guerras civis, tudo podia acontecer. Isabel e Cludia sabiam que sobreviveriam de mos dadas. Eram amigas.
     Os amigos. Entrariam por uma casa em chamas para nos salvarem.
     Mentem por ns  nossa prpria me. Sabem de ns mais do que somos capazes de lhes dizer. Jurariam que  hora do crime estvamos a tomar ch com eles. Mesmo 
que a polcia nos encontrasse com as mos cheias de sangue. "So rosas, senhores. Andei com ela toda a tarde a cortar rosas, senhores. Sangue de espinhos, senhores."
     Eles exigem-nos coisas de nada. As nossas lgrimas. O nosso leno de assoar. A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, 
por uma noite. Exigem-nos tudo o que nos do.  preciso reg-los regularmente:  nos ombros deles que cai toda a gua dos nossos olhos. Eles espevitam-nos o sentido 
de humor quando menos nos apetece. E depois ficam connosco quando as luzes se apagam e toda a gente se foi embora. S aos amigos  dado o espectculo da nossa misria.
     A paixo  uma fatalidade fcil. Uma apario divina, s. No h maneira de a prender para toda a vida. Por isso a embrulhamos no spero papel da amizade. Para 
preservar e esquecer.
      paixo aceitam-se confisses de cime, voragens de posse.
      amizade no. Somos capazes de confessar tudo aos nossos amigos menos essa insegurana que nos mi:
     - No, no gostes mais dele do que de mim.
     Cludia tinha medo que Isabel se risse dela. Que se cansasse, que lhe fugisse, que a contasse a outras. No h cime maior do que esse, porque os amigos so 
melhores do que ns a ser o melhor de ns. O sangue claro dos nossos afectos. Logo que olhou para elas, a gata Malvina apanhou este sentimento no ar, com uma destreza 
que escapa aos humanos. Seduziu-as metodicamente, do lado de l do vidro, durante dias a fio.
     Fazia-se alternadamente rf e bruxa, comovia-as e irritava-as. Numa manh dedicava os seus langores a Cludia, e na manh seguinte a Isabel. Decidiram que 
ela tinha de ser das duas, para sempre.
     - Para sempre, no. Os gatos morrem mais depressa do que as pessoas.
     - Mas tm sete vidas, e ns s temos uma.
     - Oh, oh. Ns temos as vidas todas que quisermos ter.
     - Foi o Dom Dinis que te ensinou essa filosofia?
     - No estragues, Bel. O Dinis no tem nada a ver connosco.
     - No tem, porqu, pode-se saber? No foi por causa dele que tu come-aste a andar comigo? No  para ires ter com ele que tu me deixas sozinha durante a noite?
     - Eu s vou ter com ele quando tu j ests a dormir. E quem  que vai contigo ao dentista? Quem  que te ajuda a trazer as compras do super-mercado? V l, 
quem ? O Macho das Avenidas?
     - No digas mal do Filipe.  completamente diferente. Eu no me fiz tua amiga para conquistar o Filipe.
     - Onde  que tu queres chegar, Isabel Maria?
     - A lado nenhum. S estou a dizer verdades.
     - Ests  a chamar-me interesseira. Mas escusas de ter problemas: acabou-se tudo.
     - Ah, ? Grande amizade, a tua. Pactos de sangue, promessas, e agora adeus, no ? J no precisas de mim para o Dinis te dar beijos na boca, pois.
     - Tu queres que eu te d um beijo na boca,  isso? V l se  isso o que tu queres, porque eu sou bem capaz de te agarrar aqui no meio da rua e  para j. Se 
fosse homem at te pedia namoro, roubava-te quele parvo que no te merece e calava-te para sempre.
     - O que  que tu ests a dizer, pipoca desgraada?
     - Coisas que pelos vistos tu nem mereces ouvir.
     - Desculpa. Acho que esta conversa se calhar  uma estupidez.
     - Ouve: o teu irmo , para mal dos meus pecados, o homem da minha vida. Bem gostava que no fosse. Mas  s isso, percebes?
     - S isso?
     - S. O teu irmo  s um homem. E ns somos ns. Pronto. Tu s a minha maior amiga.
     - Vou comprar a Malvina para te dar.
     - No sejas parva! Nem tens dinheiro que chegue. E alm disso,  de ti que a Malvina gosta.
     - Olha, olha! Ainda agorinha estava a fazer beicinho para ti!
     - Isso era para te fazer cimes, gonha maluca. J te conhece,  o que . Os gatos so muito espertos.
     - E as gatas muito mais.
     

     
     
      12
     
     Sopravam no pescoo uma da outra, e riam-se.
     - Deixa l, no vale a pena. O trabalho de estar a soprar s faz mais calor.
     - Uff! E se fssemos  praia, logo  tarde?
     -  que eu...
     - J combinaste outra coisa com o Filipe, no ?
     - No... Pois... Se fosse s o Filipe...  o grupo. Vamos todos  praia. Pensei que tu e o Dinis...
     - Sabes como  o Dinis. Nunca combina nada. E, de qualquer maneira, ele odeia praia. Diz que no tem pacincia para estar ali a esturrar sem fazer nada.
     - Ensina-lhe a fazer coisas.
     - Ai, ai.
     - Tanto suspiro desperdiado, meu Deus.
     - A propsito de Deus, no estamos a ficar atrasadas para a santa cerimnia da sada da missa?
     - Quero l saber. No estou para voltar com este carregamento para trs. Mais a mais debaixo deste sol horroroso.
     - Onde  que se ter metido o doido do Murinelo? 
     - Sei l. Mas se deixou escrito: "Volto j",  porque deve estar a a chegar.
     - No sei, no. O homem  passado do juzo.
     - Achas? Se calhar ele tem mais juzo do que ns todos juntos. s vezes as pessoas inteligentes de mais -poetas, msicos, pintores e assim -parecem malucas 
s pessoas normais. Eu tenho um primo pintor que  um bocado assim. Por exemplo, pe aranhas nas janelas de propsito para elas fazerem teias, e depois, quando as 
teias esto prontas, despeja as aranhas no campo outra vez.
     - Por que  que ele faz isso?
     - Ele diz que  por causa da luz. Gosta da forma como a luz se reflecte nas teias. Mas a me dele diz que ele  doido. Queria que ele fosse engenheiro em vez 
de pintor. De uma vez at lhe limpou as teias todas do quarto e fez uma fogueira com os quadros dele, para ver se ele desistia de pintar.
     - Essa me  que deve ter pancada. E forte.
     - Eu tambm acho. Mas as pessoas acham que ele  que  doido. Tens que ir l  Quinta. O quarto dele  lindo. Parece um ferro-velho, um sto cheio de segredos.
     - O que  que achas que h ali dentro?
     - No casaro do Murinelo? Roupas, milhares de roupas, deve ser. E p.
     - E se entrssemos?
     - E se ele chega?
     - Explicamos-lhe que s amos deixar estes jornais.
     - Mas temos que receber o dinheiro, no?
     - Deixvamos um bilhetinho ao p dos jornais e vnhamos c depois receber. 
     - s muito pateta! O homem pode ser doido mas no  maluco! Dizia logo que no tinha recebido jornais nenhuns.
     - At pode ser que esteja algum l dentro.
     - Quem? A Gata Borralheira?
     - O velho pode muito bem ter uma namorada.
     - At podia ser, se no cheirasse to mal. s vezes ele diz coisas bonitas. Bocados de poemas e assim. Olha, ainda no outro dia, fartei-me de rir. Eu estava 
na paragem do autocarro, e estava ele, vestido de toureiro, a cantar baixinho um fado muito dramtico, sobre pecados. Como  que era? Deixa ver. "Amar de mais foi 
errado/ foi meu pecado." Era assim, pois. Ests a ver? Nunca ouviste isto na rdio?
     - Acho que o meu pai tem o disco. Deve ser da Amlia. - Bom. No interessa. Entretanto chegou a porteira do 39 com a do 21. Vinham a falar da Mariana, e estavam 
a dizer que, no fundo, ela tinha feito bem em matar-se porque, com aquela gordura toda e aquela cara esquisita que Deus lhe tinha dado havia de ser sempre muito 
infeliz. E ento no  que o bom do Murinelo, que parecia distrado l nas cantorias dele, se vira para elas de dedo espetado e desata a berrar que elas eram umas 
vboras e que deviam olhar para o espelho para verem os monstros que so.
     - Essa  ptima! E as mulheres?
     - Nem imaginas. Puseram-se todas vermelhas e desandaram. S uns bons metros adiante  que se viraram a apontar os dedos  testa, e a chamarem-lhe doido. Mas 
foi muito bem feita, no foi?
     - Oh, se foi. Adorava ter visto. No sabia que o Murinelo tinha jeito para defensor dos pobres e oprimidos. 
     - Pelo menos como espantalho de porteiras,  um espectculo.
     - Fala baixo, que o pano est a subir.
     - O qu?
     - Chiu! O velho vem a. Olha que giro, hoje anda de palhao.
     - Onde? Ah, j estou a ver. Ainda bem. A ver se nos despachamos, e apanhamos os meus pais  sada da missa.
     - Ah! Afinal sempre ests com medo dos paps! Mas de que  que ests  espera para bater o p? O Dinis no vai  missa e a tua me no o obriga.
     - J obrigou. Mas ele  rapaz, e ela acha que a educao dos rapazes  com os pais. E o meu pai s quer que o deixem em paz. At nisso o parvo do Dinis tem 
sorte. A mim ela vem arrancar-me da cama.
     - Se tu no te vestisses, ela no podia fazer nada. No te ia levar  missa em pijama.
     - Pois. Mas proibia-me de sair o domingo todo. E alm disso, desde que tu venhas comigo, at  divertido. No custa nada fazer de conta que entramos na igreja 
e ir l  sada, pois no ?
     - No, desde que no faa esta caloraa.
     - No estamos aqui to bem a apanhar solinho? Vamos ficar uns brutos bronzes, s te digo. E ainda por cima, a minha me adora-te por causa destas missas.
     - Ah, sim?
     - Pois. Como eu deixei de refilar e passei a aceitar as missas de cara alegre, ela julga que eu me converti por tua causa. Olha que  raro cair-se nas boas 
graas da sogra. 
     - Coitada! Se ela soubesse que  minha sogra dava-lhe um chelique.
     - Enganas-te. Adorava-te ainda mais. O filho dela  que no ia gostar nada, pipoca.
     

     
     
     
      13
     
     Malvina revelava poderes sobrenaturais. Ainda presa por detrs do vidro da montra, j influa na ordem do universo. Foi por causa dela que Cludia e Isabel 
se tornaram visitas assduas de Murinelo. Chegaram a ir noite dentro aos caixotes do lixo, em busca de cartes e jornais velhos.
     - As meninas no me levam a mal se eu lhes perguntar uma coisinha?
     As meninas ficaram a olhar para o homem, estarrecidas. No havia memria de que Murinelo alguma vez tivesse feito alguma pergunta a algum. E aquela cortesia 
devia ser-lhe segredo absoluto; o comum dos mortais tinha-o por incapaz de praticar civilizadamente com tudo o que no pertencesse ao reino das almas penadas.
     - No se assustem, pombas de Deus. Ento eu fao assim tanto medo?
     Que disparate, medo nenhum, entaramelaram-se as raparigas, cada vez mais zonzas, se no mesmo desasadas. Murinelo queria apenas saber a causa daquela militncia 
pelo papel. Gostou de saber que o que as movia era o amor a uma gata. Dissertou longamente sobre a superior iluminao dos felinos face  cegueira das paixes humanas. 
E subitamente Isabel disse, numa voz firme que nunca havia de ser a dela:
     - H respostas humanas para o que no  humano.
     Esgazeado, Murinelo interrompeu o seu discurso, virou-se para o cu e bradou:
     - Eu sei, anjo das tormentas, eu sei! Mas que hei-de fazer, se o medo  tudo o que de humano vislumbro sobre este planeta amaldioado? Que hei-de fazer, se 
a morte me conduzir a um inferno mil vezes pior, onde no se conhece o teu perfume?
     Trajava de cavaleiro andante. A capa fora vermelha em pocas mais felizes e os cales enfunados haviam servido a pernas mais convictas; todo ele era p e raiva. 
Cludia ponderava no mau estado daquelas roupagens, estragadas pelo corpo do velho. Era isso; quando Murinelo despia os fatos, eles faiscavam de indiferena. S 
assim se compreendia a perenidade daqueles brocados: Murinelo esmorecia-os, mas a maldio do envelhecimento extinguia-se no instante em que eles se libertavam do 
seu corpo. O velho abriu os braos para o sol e depois curvou-se sobre si mesmo, num rompante de soluos.
     As duas amigas afastaram-se, p ante p, e foram sentar-se nas escadas do 22. O ar estava carregado de calor. Parecia que os sons circulavam em cmara lenta, 
esmagados pelo peso impdico dos cheiros. As coisas tinham decidido cheirar desenfreadamente: o cimento fresco das obras, a roupa a secar nos estendais, o po quente, 
os fritos, a fruta em decomposio nos sacos de lixo. Diante dos degraus do 22 as escavaes para um novo prdio tinham aberto um lago.
     Os trabalhos estavam interrompidos desde que se descobrira que passava por ali uma ribeira que dificultaria a obra. Os moradores do 22 aproveitavam este interldio 
para redigir protestos veementes. Aqueles apartamentos haviam de ser circundados por jardins frondosos, talvez mesmo uma piscina.
     Eles tinham visto os desenhos, os projectos todos, e eram encantadores. At um centro comercial cor-de-rosa e verde existia nas maquetes. Com um cinema. Paragens 
de autocarro. E metro, num futuro prximo. Uma aldeia de luxo, toda em torres modernas, ligada  cidade por um simples cordo umbilical. E afinal s havia prdios 
e prdios. O 22 recusava-se a acordar virado para as traseiras do prximo. Ainda por cima, um mastodonte de quinze andares, comendo o sol que sempre chegara a todos 
os dez pisos do 22. No podia ser, e foi isso mesmo que eles denunciaram na televiso, s trs e meia da tarde de uma tera-feira.
     Esteve para ir s o administrador do condomnio, como legtimo represen-tante dos interesses gerais. Mas o senhor do 9. -B deixara bem claro que sem a sua 
presena, nada feito. Afinal de contas, ele  que conhecia o operador de cmara do programa, ele  que tinha feito os contactos, ele  que estava em boa posio 
para. E a senhora do 6.o A acrescentara de imediato que as cmaras intimidam muito, nem se calcula.
     Recordava-se perfeitamente de casos de pessoas muito sabedoras que chegavam l e era uma desgraa. De modo que, explicava a senhora, era preciso experincia, 
hbito, -vontade. Graas a Deus ela j tinha ido  televiso uma vez falar da falta de condies da escola em que dava aulas e, por acaso, sara-se muito bem. Decidiram 
ento formar uma delegao democrtica, com elemen-tos de todos os apartamentos. Pediram dispensa nos empregos, avisaram as famlias, e finalmente o apresentador 
do programa s deixara entrar o adminis-trador e o amigo do operador de cmara, porque tinha poucas cadeiras na sala, infelizmente, e pouco tempo, infelizmente, 
os senhores compreendem. Compre-enderam mas no gostaram, e, dali para a frente, o 22 passou a ocupar-se mais com as suas lutas internas do que com o monstro que 
havia de vir roubar-lhe o sol.
     Mas enquanto o colosso no nascia, os midos das barracas deliciavam-se com a piscina improvisada que o buraco deixava.
     Passavam o dia inteiro a mergulhar na gua preta, traziam pneus velhos, faziam jangadas, inventavam urros de exploradores da selva. Cludia e Isabel divertiam-se 
com este espectculo, estiradas nas escadas, enquanto bronzeavam a cara e as pernas.
     - De onde  que te veio aquela frase, gonha?
     - Do teu sonho, pateta. No te lembras?
     No, assim de repente no se lembrava.  que est tanto calor.
      que  to difcil. " que o Dinis. Ainda ontem. Ah, Isabel, acho que nem posso contar.  to triste, e eu no consigo parar de o amar. Se ao menos por um 
segundo, estou to sozinha. O sonho da festa, e o velho, e a morta Mariana, claro. Mas o Dinis costuma dizer que o sonho da festa  sempre melhor do que a festa, 
sabes? O Dinis interessa-se tanto pelo mundo todo, a poltica, o sexo, as ideias, at fico cansada de tentar fixar os nomes, as pessoas, esforo-me tanto, concentro-me 
e esqueo, esqueo tudo menos os olhos dele, macios, dourados, e o nariz, ele ri-se e o nariz sobe, s vezes ele ri-se muito, distrai-se e ri-se como uma criana, 
 nessas alturas que acredito. Mas ontem, no imaginas."
     - Foi o Murinelo que disse aquela frase do teu sonho, quando o vi lembrei-me.
     - Quando?
     -  sada do funeral da Mariana.
     Um perfume fnebre de nascimento, rosas crepitando em fogo lento. Souberam desde o primeiro instante que haviam de fazer amor num bruto vagar de vampiro, e 
tiveram medo. Juntos, no sabiam quem eram. Ela representava tudo aquilo que o irritava nas mulheres: usava dos artifcios e da leveza das bonecas.
     Ele no correspondia aos modelos msculos que ela apreciava: no tinha olhos verdes, nem caracis de ouro, nem msculos viosos, nem mota, nem vontade de a 
ter. Comprava a roupa mais barata e gastava o dinheiro todo em discos de msica clssica, livros incompreensveis, filmes arcaicos. Vinham de mundos avessos e era 
essa trgica distncia que os fascinava, como uma cano piegas nos enerva de comoo. Sentiam-se iguais como duas lgrimas, mas Dinis no fora educado para prantos.
     Da primeira vez que ele a amachucou, Isabel aconselhou-a a chorar. Cludia nunca precisara de cultivar essa arte, mas saiu-se bem; Dinis comoveu-se o suficiente 
para dizer:
     - Sou um cobarde. Sou assim.
     Cludia quis ver nestas palavras um manifesto de amor e um acto de contrico, e foi isso que viu, porque a paixo s cega para as realidades. Apresentava-se 
em definitivo mudada; dois meses atrs, portava-se como um homem e os homens tornaram-se desesperadamente femininos nas suas mos. Agora disseminava-se em p de 
estrelas em vez de se construir como uma esttua. Ficou feliz quando se achou frtil em lgrimas e estranhou-se quando entendeu que de nada lhe valeria esta abundncia. 
Dinis deixara de se comover, pensou ela. Isabel explicou-lhe que Dinis deixara, pura e simplesmente, de fazer cerimnia com ela. Mas Cludia preferia mil vezes um 
amante insensvel, e por nada deste mundo o trocaria por um homem capaz de se habituar s suas lgrimas.
     -  sada do funeral da Mariana? No me lembro de ver o Murinelo.
     - Ultimamente no te lembras de nada, pipoca.
     - Mas o que  que o homem ia fazer ao funeral?
     - No sei. Por isso mesmo  que achei estranho. At me deixei ficar para trs, para ver se era mesmo o velho. E quando ele viu que eu estava a olhar para ele, 
apontou para mim e disse:
     "H respostas humanas para o que no  humano."
     - Mas eu nunca ouvi isso. Porque  que havia de sonhar com
     uma coisa que no sabia?
     - Os sonhos so feitos daquilo que no sabemos.  por isso que  to bom sonhar.
     - Detesto sonhar.
     Dinis invadia os sonhos de Cludia, e no h maior poder do que o de invadir os sonhos de algum. Cludia gostava de dizer que havia de dormir quando estivesse 
morta, e Dinis acrescentava que nunca sonhava. Mas Isabel no tinha medo dos sonhos. Quando alguma coisa lhe corria mal, fechava os olhos e concentrava-se no mundo 
ideal. Conseguia dormir horas sem fim e sonhar tudo o que queria. No havia desespero ou humilhao capaz de desfazer a muralha de sono que Isabel entrepunha  vida. 
Ao mnimo alarme, iniciava um habilidoso bordado de explicaes; era preciso que tudo fosse lgico, linear, e, sobretudo, saudvel. Isabel dizia muitas vezes a Cludia 
que aquela paixo por Dinis no era saudvel, e aplicava-se a demonstrar-lhe matematicamente que dali no sai ria nada de bom.
     - E quem disse que eu estou interessada nessa tua triste vidinha boa?
     Cludia respondia deste modo sem pensar, s para escandalizar e contundir Isabel. Tinha conscincia de que, apesar da armadura de bom senso e simplicidade, 
Isabel era sua irm na melancolia - caso contrrio, porque persistiria em ser torturada por Filipe? A ltima maldade de Filipe chamava-se Sofia e morava nas vivendas. 
Sofia resultara de um ultimato:
     - Sou eu ou ela. Escolhe.
     De olhos pregados no cho, Isabel murmurara que nem pensar.
     Que no podia escolher um grande amor que lhe exigia o sacrifcio da maior amiga. Estupefacto, Filipe s soube berrar que a maior amiga dela era a ovelha negra 
da zona, uma excomungada, uma alma do demnio. Tinha andado a ver exorcistas de mais. Isabel repetiu, em voz baixa:
     - Mas  a minha maior amiga. 
     Quando Filipe se instalou debaixo da janela dos Martas, aos beijos na mais linda das meninas das vivendas, Cludia suspeitou desta declarao de guerra, mas 
Isabel negou-a uma, e duas, e trs vezes.  quarta, implorou-lhe que no lhe fizesse perguntas e pediu-lhe para a vir ajudar a fazer um bolo de chocolate. Cludia 
via assim confirmados os seus pressentimentos e desistiu de ouvir da boca de Isabel a confisso que ansiava:
     - Ele mandou-me escolher, e eu escolhi-te a ti. Sofro muito, mas escolhi-te.
     Isabel no conseguia expor-se com esta serena abundncia. Como Dinis, respeitava as palavras ao pnico do pormenor, ou seja, mantinha-as a bom recato dos sentimentos. 
Encontrava num s sentimento tantas foras contrrias, tantos novelos de sangue, que qualquer expresso lhe parecia falsa. Escolhera, de facto, Cludia, ou escolhera 
merecer a considerao de Filipe?
     Movera-a a coragem ou o orgulho ferido? Voltaria a escolher Cludia, agora que sabia a velocidade com que Filipe recuperava dessa escolha? E se tivesse que 
deixar matar um dos dois, escolheria o amor ou a amiga? Os silncios de Isabel eram feitos da lava grossa que crescia debaixo destas perguntas. Cludia era demasiado 
vaidosa para acreditar na arrogncia alheia, e limitava-se a achar a amiga tocantemente tmida. Por isso estranhava a determinao com que a ouvia agora a dizer:
     - H um mistrio entre Mariana e Murinelo, e eu hei-de descobri-lo.
     Dois dias mais tarde voltaram ao casaro do louco em misso secreta. Levavam umas magras resmas de jornais, menos por amor  Malvina que as disputava do que 
por inocncia estratgica. Mas foi Malvina quem lhes abriu a porta da casa assombrada.
     

     
     
     
      14
     
     - Entrem. - ordenou o velho. - Tenho uma surpresa para as meninas.
     Olharam uma para a outra, como se assim activassem um oculto dispo-sitivo de segurana. A porta de ferro chiou ao peso do corpo do bobo que a empurrava. Murinelo 
ficava particularmente repelente no papel de bobo, e para l da porta eram as trevas absolutas. O homem evaporou-se no buraco negro, e Cludia procurou a mo de 
Isabel. Aproximaram-se da entrada. Ecos de outras portas que se fechavam. E depois uma ndoa de luz, uma melodia risonha.
     -  a Primavera. A primeira das Quatro Estaes de Vivaldi.
     Resolvi iniciar a educao musical dela. Vejam como ela gosta.
     Estirada num cesto forrado a damasco, Malvina ostentava a altiva indolncia que nos gatos assinala a felicidade. Cludia cravou as unhas nos dedos da amiga, 
tentando estancar a fria.
     Parvas, mil vezes parvas. A culpa  nossa. Denuncimos a Malvina e agora ela  dele. Isabel soltou a mo e avanou para Murinelo: 
     - Ela  a nossa gata.
     - Pois . - respondeu placidamente o bobo. - Podem lev-la. Ainda bem que vieram c hoje, porque eu j comeava a habituar-me a ela. As gatas tm muito de mulher, 
e depois e o diabo. Afeioamo-nos. At aos carunchosos como eu estas coisas se pegam, sabiam, minhas flores?
     Isabel afastou a cara, agoniada. Murinelo arregaava os beios num esgar ftido. A boca dele parecia uma cidade bombardeada.
     No percebia como  que Cludia, que tinha horror por qualquer ruga em particular e pela velhice em geral, podia simpatizar tanto com aquele destroo humano. 
E tratou de explicar, muito depressa, em nome das duas, que agradecia muito a inteno mas no podia aceitar a oferta da Malvina. Queria pagar. Murinelo tornou a 
sorrir, encolhendo os ombros. Este segundo sorriso flutuava-lhe sobre os lbios conferindo-lhe a inconsciente elegncia de uma tristeza antiga, e Cludia murmurou, 
no timbre precrio que costumava ser de Isabel:
     - Desculpe. No o queramos ofender.
     - Ofender? J no sei o que isso . S sei que tenho saudades do tempo em que se podia oferecer o mundo s mulheres, sem que elas sequer se curvassem para agradecer. 
Hoje querem pagar tudo, como os homens. Julgam que tudo se pode pagar, como os homens. Os homens querem que eu lhos venda esta casa, que  a minha vida, para construrem 
um progresso de quinze andares por cima dela. Mas eu no vendo. Nem depois de morto venderei.
     Ho-de andar meses a fio  cata do meu cadver, e no o ho-de encon-trar. Vo ter que esperar, e eu a rir-me, do lado de l.
     Querem pagar, infelizes? Ento paguem, que nem por isso esta gata deixar de me levar no corao. Paguem, e ela continuar a lembrar-vos de mim, por mais que 
o no queiram.
     Paguem, e ho-de sofrer do pior dos martrios, que  o do remorso. Paguem, que um dia chegaro a velhas e conhecero a misria de querer dar um presente e ser 
rejeitado.
     Dizendo isto, o velho girava pela sala como um possesso, arfava, urrava, escabujava, e os seus guizos de bobo faziam-se frenesim lancinante. A gata abriu um 
olho, espreguiou-se e ps-se em sentido. Terminado o discurso, Murinelo virou costas e entrou por uma das trs portas que davam para a sala. As raparigas permaneceram 
imveis at ao fim do concerto de Vivaldi, que as impedia de escutar os passo tilintantes do homem. Mas quando a msica cessou, a casa ficou mergulhada num silncio 
absoluto.
     Nem uma rstea de sol conseguia transpor as espessas cortinas de veludo negro que forravam as janelas. O ar tinha dificuldade em circular na sala demasiado 
carregada de sopros bolorentos, apenas iluminada pelo candeeiro de p, em cima da mesa coberta por uma camilha carcomida pelo labor conjunto dos anos e dos bichos. 
Aos livros amontoados pelos cantos sobrepunham-se peas soltas de mquinas diversas: uma campainha de bicicleta, um volante de triciclo, um prato de gira-discos, 
uns binculos partidos. S a grafonola de cobre reluzia, sobre uma coisa que talvez tivesse sido a primeira mquina de lavar roupa do mundo. As paredes ressumavam 
humidade e nenhuma das cadeiras se recordava de alguma vez ter tido quatro pernas e conhecido gente. Malvina entretinha-se agora em jogos de equilibrista. saltando 
gracilmente de um espaldar para outro, gozando os prazeres da instabilidade.
     - E se fssemos l dentro  procura dele? - sugeriu Cludia.
     - Ests doida, pipoca. O homem era capaz de nos matar. Vamos mas  embora. No gosto nada disto.
     - Saste-me uma detective de primeira, no h dvida.
     - O bom-senso  a primeira regra de qualquer detective que se preze.
     - Chiu! No fales to alto!
     - Ah! Afinal a nossa pipoca Sherlock tambm tem medinho!
     - Est bem. Vamos embora mas levamos a Malvina.
     - Elementar, caro Watson. No ia deixar a nossa fofinha  merc daquele doido.
     - Coitado. Ele gosta tanto dela como ns.
     - Ah, isso no pode.  proibido, ouviste? Ningum gosta da nossa Malvina como ns, pois no, mimosa?
     A mimosa fugiu s carcias de Isabel e saltou para cima das runas de um canap, arqueando a cauda. Cludia riu-se e declarou que Isabel no sabia entender-se 
com gatos. P ante p, aproximou-se do bicho e comeou a falar-lhe numa linguagem estranha, cheia de "chs" e de requebros de voz. Malvina esticou as orelhas e pulou-lhe 
para o colo. Isabel amuou; abriu a porta e saiu. Cludia correu atrs dela, abraou-a pelos ombros, fez-lhe festas no cabelo, mas nada. A irm de Dinis sacudia-a 
e estugava o passo, de cabea baixa e braos cruzados. Cludia perseguia-a, inebriada com os cimes da amiga, gritando que lhe ensinaria a gramtica da lngua dos 
gatos. De sbito, Malvina soltou-se dos braos vitoriosos de Cludia e correu para os ps de Isabel, que no teve outro remdio seno aceitar, de cara alegre, a 
reconciliao.
     O animal entendeu depressa o poder que tinha sobre aquelas duas almas; as raparigas desunhavam-se pelos favores de sua felina Alteza, e a gata administrava 
sabiamente mimos, arrufos e patadas. Morava alternadamente em casa de cada uma das donas. Era a soluo perfeita para todos - a bem dizer, era mesmo a nica soluo 
que os pais das meninas podiam, sem grandes protestos, tolerar.
     Mas os primeiros dias de Agosto trouxeram pressgios de tempestade: em Setembro, Isabel ia para a Quinta dos Regatos, e reclamava o direito de levar a Malvina 
consigo. Para mostrar  av. Para brincar com os primos. Para benefcio da espcie, que as gatas precisam de gatos e de gatinhos. E de espao, de ar puro, de campo. 
Cludia batia o p, chamava-lhe egosta, argumentava com a saudade.
     - Dinis, queres tu dizer.  do Dinis que tu vais sentir a falta, no me venhas com histrias. S tens olhos para ele. Se a Malvina estivesse  tua espera para 
comer, j tinha morrido.
     
     Em certos momentos, Cludia tinha conscincia de que ficaria completa-mente perdida se deixasse de amar Dinis. O mundo conhecido rura sob os seus ps para 
dar lugar a um abismo exttico, e ela pressentia agora que sobre o xtase se fechavam todas as possibilidades de Histria. A melancolia que a tomava na recordao 
de um stio ou de um gesto do grupo dizia-lhe que no havia regresso. Por delicadeza, Isabel omitia-lhe conversas, passeios e intrigas, e crescia entre as duas um 
silncio de embarao e distncia. Cludia dava por si encostada s portas ou colada aos intercomunicadores horas infindas, de respirao suspensa, para ouvir as 
bisbilhotices das porteiras. Foi assim que soube que Alexandra tinha acabado com Joo e que Ricardo namorava uma Rosarinho recm-chegada, loura, altiva e de boas 
famlias. Teve cimes, ou pelo menos sofreu como se os tivesse. Mais do que a velocidade sentimental de Ricardo, enervava-a pensar que o grupo se curvava perante 
Rosarinho como meses antes se curvava diante dela, em deslumbrado desejo. Alm disso, o barulho das motorizadas enchia-a de nostalgia.
     - O que  que eles dizem de mim? - perguntara um dia a Isabel, como quem no quer a coisa, a caminho do liceu.
     - Nada. Eles nunca falam de ti. - respondera Isabel, com a maior naturali-dade, mentindo para a proteger. As pequenas frases traem a virtude das almas. Isabel 
evitava falar-lhe de tudo o que se relacionasse com qualquer deles, incluindo Filipe. Tinha vergonha e medo de admitir que Filipe regressara aos seus braos porque 
Sofia se enjoara dele; tentava convencer-se de que no fundo, l bem no fundo, ele nunca amara a outra. No fundo, l bem no fundo, cismava Isabel, o Filipe era um 
rapazinho inseguro que s o amor dela podia salvar. No fundo, l bem no fundo, meditava Cludia,  o Dinis era um menino triste que s a paixo dela podia curar.
     No se imagina como seria a vida sem esta imensa presuno feminina. As mulheres fogem dos homens equilibrados como se de uma doena permanente se tratasse. 
Elogiam-nos e invejam-nos ostensivamente nas outras, com a mansa maldade de que s elas so capazes. A mesma maldade leve, divina, caridosa, que louva e promove 
as diminuies das desfavorecidas da sorte ou da beleza, para melhor as preservar e dominar. As mulheres gabam a felicidade alheia com o sorriso terrvel dos deuses 
a quem todos os sacrifcios so devidos porque muito sofreram, e buscam em cada homem um pretexto da imolao que conduz  glria.  por isso que no lhes interessam 
os poucos homens lcidos que ainda resistem; a perspectiva da pura partilha traz um cheiro a anestesia que lhes pe os nervos em p, em alerta de loucura. Dispem-se 
a morrer grandiosamente pelo maior miservel, desde que ele no se arrogue canduras de merecedor; quando correspondidas, elas bocejam, ameigam-se, fingem-se meninas 
e esfumam-se entre os dedos deles. As mulheres nunca foram meninas, para mal dos bons rapazes.
     
     A Dinis, valeu-lhe o desamor agreste da primeira eleita do seu corao. Tinha quinze anos quando se apaixonou por essa rapariga de dezoito que o amou por despeito 
enquanto o julgou imune aos seus encantos. Ela escolhia a mesa mais favorvel  luz, cruzava as pernas e oferecia-lhe sorrisos esplendorosos que pareciam morrer 
na sombra inaltervel dos olhos dele. Um dia deu-lhe um acesso de aco; levantou-se, dirigiu-se at  mesa dele, pousou um sobrescrito e foi-se embora. Dentro do 
sobrescrito havia um postal e no postal estava escrito:
     "Quero-te". 
     Dinis correu para a rua' onde j no a encontrou, e depois para casa, onde gastou todo o papel de carta de Isabel. quela tempestade de folhas cor-de-rosa sobreviveram 
trs pginas de arroubos e citaes em francs que podiam ser vantajosamente resumidas a um: "idem, idem". E foi isso mesmo o que ela lhe disse? no dia seguinte, 
assim que acabou a leitura.
     - No se pode dizer que tenhas um grande poder de sntese.
     - Ao p de ti no tenho poder nenhum. - explicou ele, desejando que o sol casse fulminado pela noite, para que ela no o visse corar daquela maneira.
     - Mas ele cora! Um homem que cora, que viso celestial!
     Poucos dias depois, ela comeou a ter muito trabalho. Deixou de ter tempo para ler as cartas dele, e sugeriu-lhe que se dedicasse mais ao estudo. Ele nunca 
tinha feito amor com ningum. Da primeira vez sentiu que entrar no corpo dela era conhecer o Paraso, e disse-lho. Ela sorriu e fez: "chiu!". Da segunda vez sentiu 
que a amava desde que nascera, e disse-lho.
     Ela zangou-se:
     - Por amor de Deus! Daqui a nada vais perguntar-me se foi to bom para mim como para ti, no ? Olha que no tenho a mnima pacincia para essas barbaridades.
     - Diz-me. S hoje. S uma vez. - suplicava Cludia.
     - Digo o qu?
     - Diz-mo a palavra.
     - A palavra. Pronto, j disse.
     - No  isso, grande parvo. Diz "amo-te".
     - Que horror! Recuso-me a dizer essas barbaridades. 
     - Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te. - repetia Cludia, muito baixinho. Que horror, que horror, gritava Dinis e ela sufocava-o de beijos para o calar e ele voltava 
a entrar nela, cada vez com mais fora e mais vagar, at a impedir de falar e de pensar e de ter outra dor que no a do corpo dele. Queria ficar para a eternidade 
naquele lugar de coma, sem ngulos nem segredos.
     Fazia-se depois instantaneamente adormecida no ombro dele, para que ele no parasse de a abraar, mas ele escorregava para o sono no minuto seguinte, desembaraando-se 
dela. Ela teimava em enroscar-se nas costas dele e ele teimava em sacudi-la. Cludia tentava ofuscar a tristeza com um siso maternal, ele est to cansado, coitadinho, 
no repara, est mesmo a dormir. Vigiava-lhe o sono at ao nascer do dia; no queria perder um s segundo daqueles escassos fins-de-semana de liberdade absoluta. 
E sobretudo, apavorava-a a ideia de acordar sozinha na cama dele, como daquela vez.
     - Porque  que vieste dormir para aqui?
     - Porque estava com insnias.
     - Podias ter-me dito. Eu adormecia-te. No me digas que o sof da sala cura as insnias.
     - Faltava-me espao. No gosto de dormir acompanhado.
     - Espao? Quase nunca podemos ficar juntos e tu falas de espao?
     - Pronto, pronto. Que horas so? Estou cheio de fome. Vais ver as torradinhas ptimas que eu sou capaz de fazer.
     No princpio de Agosto, Dinis declarara-se firmemente decidido a pres-cindir das frias de Setembro na Quinta  para organizar o ciclo de cinema musical que 
abriria o novo ano no liceu. Cludia olhou para o espelho e achou-se pronta para dar autgrafos; dez dias mais tarde encontrou no espelho um espectro alucinado de 
lgrimas. Dinis mudara de ideias, e nem sequer se dera ao trabalho de a informar. Foi Isabel quem lhe trouxe a notcia.
     - No tenho que prestar contas a ningum. - roncou ele, muito enfadado. - Nunca te prometi nada. Nada, ouviste? No sou o teu heri romntico.
     - Eu sei, eu sei, desculpa, faz de conta que eu no disse nada, d-me um beijo, depressa.
     - Agora no me apetece, morena. Mas que mania tm as mulheres! As pessoas no tem que andar sempre a lambuzar-se umas s outras, pois no?
     No dia da partida ela passou duas horas a escolher a roupa.
     At pintou os olhos com a sombra azul da me. Quando conseguiu sentir-se quase bonita, ele j se tinha ido embora.
     

     
     
      15
     
     Ana Carolina est sentada no cho, rodeada de cartas amarrotadas. Recita num tom neutro as frases escritas em ingls. s vezes traduz instantaneamente. Recusa-se 
a ler as frases escritas em noruegus. Diz que j esqueceu, que nunca mais quer ouvir o som daquela lngua horrvel. Mas no consegue evitar a memria, essa mesa 
de montagem onde a vida se desfoca at fazer um sentido estranho ao que o filme tinha quando era somente vida.
     As mos dela so angulosas, decididas. Acende o quinto cigarro. Deixou de fumar h meses. Diz que um dia no so dias. Nunca se enganou. Segue com os olhos 
cada uma das passarolas voadoras. Comenta a estatstica ascendente dos acidentes areos. Sorri. Oslo, 5 de Fevereiro. O nome da terra bruxuleia no ar, queima a hora 
louca do lusco-fusco.
     "Saudades. Saudades. And more saudades. It's so cold here since you've left!"
      assim que Teresa encontra Ana Carolina, a filsofa da maturidade. Do alto da sua sabedoria, ela costumava dizer:
     - Poucas coisas h to infelizes como a maturidade, que  aquela poca em que as pessoas tm imensas explicaes para no serem capazes de se aturar.
     Mas no h antes nem depois na vida, h apenas as coisas importantes e as outras. Aqui est ela, sentada em cartas amarrotadas, rodeada de cho:
     - Ol! Estava a arrumar umas tralhas e achei estas parvoces. J nem me lembrava.
     Era engraado ver Ana Carolina a mentir com tanta candura. Ela que sabia tanto de tudo. Que se fazia to desassombrada. J antes da traio do belo noruegus 
ela era assim, cheia de discursos auto-suficientes. Dizia que no tinha medo nenhum dos lugares-comuns, e era a absoluta verdade.
     
     Ouvia jazz. Declarava que nesse gnero musical se retratava a incomunica-bilidade do gnero humano. Passava horas a explicar que todos vivemos no tremendo equvoco 
de um dilogo de surdos, porque ningum quer ouvir seno o eco dos seus prprios solos. Achavam-na interessante e ela achava-se subitamente culta, embora tudo fizesse 
cada vez menos sentido.
     Alimentava-se desses antdotos do medo a que chamamos projectos; lavrava uma elevada opinio de si mesma, que os resultados do seu esforo no justificavam. 
Se o amor consistia apenas numa frmula de cortesia do amor-prprio, porque  que a voz dela no chegava para lhe aquecer a casa, nos seres de Inverno? "A msica 
das promessas aparece-me logo misturada com aquele barulho de partir pratos", dizia ela.
     Para espairecer, escrevia umas certezas sentimentais, consideraes melanclicas sobre o evoluir do mundo. Coisas assim: "Depois de sculos e sculos de existncia, 
c andamos todos muito aflitos a querer ser originais. Os primeiros cantos, as primeiras pginas, tinham um sentido, ou a saudade de um sentido perdido." "Ests-me 
a dar msica" ou "l vem este com a sua cantiga" eram expresses desconhecidas.
     A arrogncia com que olhamos os sentimentos dos outros  muito recente. A prpria noo de olhar  bem posterior aos olhos castanhos, verdes, azuis ou pretos 
que se viam distintos, fascinados." Azuis. Eram azuis os olhos do anjo tombado em voo directo para o colo dela, num congresso sobre computadores.
     Papis, ela flutua sobre papis. Pe-se desprendida a repetir que j nem sabe onde  que tinha as cartas. Quis conden-las ao ostracismo da igualdade. Por isso 
as despejou naquela caixa de sapatos para onde atira as facturas da gua e as cartas de negcios. Tudo contas saldadas. Mas afinal  fcil separ-las desse monte. 
So envelopes volumosos e esfacelados. A pressa de os abrir ficou ali marcada como uma gargalhada do tempo.
     Ana Carolina escangalha-se a rir:
     - De cada vez que me lembro do preo escandaloso que tive de pagar pelas aulas daquele dialecto ridculo, concluo que as mulheres no tm cura.
     Teresa lembra-se das mil vezes que a ouviu repetir Carolina  maneira dele. Que ele punha abracinhos no r dela. Carrrolina, como carrossel e caracol ao mesmo 
tempo. Teresa lembra-se mas faz de conta que no, faz de conta que o tempo existe e que Carolina tem o dom do esquecimento, esse famoso privilgio da maior idade. 
Teresa queria ser grande como Ana Carolina, conseguir amar tudo de uma nica vez, concentrar-se num s objecto. 
     Teresa ainda no sabe que todas as paixes so uma, e os objectos amados fico. Nos sonhos, duas pessoas distintas podem ter o mesmo rosto. O casamento, a 
viagem, estava tudo marcado. Da a trs meses ela voaria de vez para a Noruega.
     Quatro cartas sem resposta. E depois, o derradeiro telefonema.
     Ela repete que j se esqueceu e volta a contar tudo.
     - Liguei. Ele atendeu ao terceiro toque. Perguntei-lhe "Are you dead?" e ele fez um silncio. Depois disse: "I'm sorry".
     Assim s. Numa voz sumida. Mas devia ser da ligao, ele devia estar-se nas tintas. "I'm sorry", como se me tivesse pisado no metro. Desliguei logo. No queria 
ouvir explicaes.
     Desligou logo, porque sabia que no ia ouvir explicaes.  uma gentileza pouco prpria dos homens, esse arranjo de suaves mentiras. Mas Ana Carolina prefere 
guardar a memria de uma justificao repudiada, pelo menos enquanto Teresa est ali, com a cabea pousada no seu colo:
      -  para tu veres como  o amor. Para no teres pena nem pressa. Ele h-de vir, e depois h-de ir-se embora. Vem tudo nos romances.
     A noite estremece de calor. Uma nave iluminada levanta voo, quase rente aos telhados. Era uma nave espacial, e l dentro vinha o Prncipe das Estrelas para 
a salvar da terrvel maldio da identidade. Ela alugou esta casa s por causa dos avies. Para o ouvir voltar.
     - Parece um disparate, mas eu reconhecia o avio dele. Nem precisava de ligar para o aeroporto, a perguntar se ia chegar  tabela. Ficava em casa  espera. 
Quando ouvia o barulho do avio, saa a correr para ir ter com ele. Nunca me enganei.
     Estava farta de ser humana, de se cansar a provar quem era e de se cansar ainda mais a procurar algum que a amasse assim, por nada. Escondia-se nos nmeros, 
ria-se dos poemas perdidos nos dirios de menina. Sabia agora que a indeterminao atinge a raiz de todos os clculos e j no esperava nada daquele congresso de 
informtica. Podia comear a envelhecer comodamente. Do amor guardava os destroos costumeiros: hbitos ou hlitos decompostos pelas mars, lumes que se gastam como 
velas de circunstncia. And suddenly.
     Depois, s um poema de Sophia aberto sobre a mesa de cabeceira dela. "Terror de te amar/ num stio to frgil como o Mundo./ Mal de te amar neste lugar de imperfeio/ 
Onde tudo nos quebra e emudece/ Onde tudo nos mente e nos separa."
     Ela diz que quer esquecer, mas traz cada fragmento dele colado ao corpo como uma bia de salvao. A memria mente ao tempo.
     Impartilhvel, imortal, o cinema do segredo. Um filme encravado, ao arrepio dos dias, debaixo da pele.
     Em horas de maior insuportabilidade ela acusa a disperso do mundo. Porque  perigoso que o dio ganhe a intensidade da paixo que o gera. Pode morrer-se da 
humilhao de odiar sem descanso; Ana Carolina corria a sete ps para a glria da fatalidade sempre que sentia o corao  beira do gelo.
     - Foram as fronteiras do mundo que mo levaram. - repetia, s para si. 
      geografia cabe hoje o papel tirano que dantes cabia s famlias. Pelo menos consola pensar que h um tirano qualquer, uma fora maior a moldar a maldade humana. 
Consola pensar que, no fundo, l bem no fundo, o louro nrdico  um desvalido dos ventos, violentamente cego de amor. Um anjo cado por engano numa imagem humana.
     
     Nunca mais houve ningum. Aquele amor apagou o mundo. Quando, muitas lgrimas depois, ressuscitmos, estvamos sozinhos. O luto do grande amor torna-nos apenas 
numa pessoa. E ser uma pessoa  muito pouco para quem j foi nada. Para quem j deu tudo. Jurmos que nunca mais. Assim no. Nem pensar. "No te posso dar nada", 
dizem os amantes uns aos outros depois de terem dado tudo. O nada  aquilo que nos lembra aos outros, quando morremos de uma das mltiplas mortes que podemos ter 
para os outros. Agora contamos a histria tintim por tintim.
     Mas sobra sempre um tuntum. E se ele voltasse? Sim. Se? Chiu.
     Deixemos as meninas brincar com este baralho de papis precrios.
     
     " esta a carta que tu j no vais ler. Se ao menos eu tivesse uma fotografia tua. Assim no te posso rasgar aos bocadinhos. If only.  soidade ou saudade que 
se escreve? Aqui ningum sabe que tu existes.  por isso que no posso morrer aqui. Ningum te dizia nada. Ficava sozinha de luz apagada.
     Lembro-me da luz. Abria os olhos de propsito para ver o primeiro lume do dia sobre o teu corpo. Parecias-me ento apenas um anjo, un ange, tu sais? Como  
que estas coisas se dizem no teu portugus engelhado? Falta-me o desmazelo da tua terrvel ternura. Os teus dedos nos meus dentes, de repente.
     Era tarde, to tarde que se ouvia o rio a bater contra as pedras do cais, l em baixo. To tarde que o teu corao ancorava finalmente na minha pele.
     Chegvamos  praia e tu desaparecias no mar. Nadavas at muito longe s para me assustares e eu fingia que te admirava por isso. Admirei-te sempre pelas outras 
coisas que tu eras sem alarde. Mas amava-te tanto e to sem razo, so quietly deep in my heart, que no tinha mal fazer-me rendida quando tu me querias rendida. 
Ainda por cima era verdade. Se calhar foi essa verdade que te alarmou. Como  que se diz se calhar em portugus?
     Querias que eu te sacudisse. Que eu te irritasse de vez em quando. Que fosse uma tough girl, une fille mchante ou l como  que isso se diz na tua lngua de 
fogo. Eu faria tudo por ti. Podia ter-te trado sem convico. Podia at matar-te devagarinho, mansamente, numa daquelas conversas em que tu tentavas arrasar-me 
com os teus factos, datas e nomes. Quem  que quer saber de Histria em Portugal, pas inclinado sobre a gua? Mas tu precisavas dessas realidades confirmadas e 
eu no conseguia deixar de me comover com tanta e to evidente vulnerabilidade.
     Sentia j que te perdia, mas nada podia fazer a no ser pr-te os trunfos todos na mo. Fiquei sem ti, claro. Mas amei-te com paixo e passion bastantes para 
a minha vida inteira. Fui em ti o melhor de mim.  esse o teu peso, a minha calada vingana."
     Talvez seja ele, ainda, o segredo do riso dela. No h memria mais terrvel do que a da pele; a cabea pensa que esquece, o corao sente que passou, e a pele 
arde, invulnervel ao tempo.
     Se adolescentes so os que sabem das paixes como arroubos de morte que ampliam a vida, Ana Carolina  da idade da sua amiga Teresa. No suportavam demasiada 
realidade. Gabavam-se demais para poderem ser vaidosas. Apaixonaram-se pelas suas prprias sombras, pelos seus sonhos de si.
     

     
     
     
      16
     
     "Querida Cludia
     
     Como tu sabes eu tinha dois grandes amigos, agora parece-me que s tenho um. Nem calculas como eu gostava de ser tu.
     Eu tinha uma teoria errada sobre aquilo que  a vida, mas tu fizeste com que eu soubesse pensar. Talvez penses que eu devo estar estpida ( talvez tenhas razo) 
mas eu penso que s agora comecei a pensar como deve ser. C na Quinta as noites so lindas. O cu  um mar de estrelas. Todas as noites eu comeo a pensar qual 
ser a ideia que as outras pessoas tm de mim, mas fico sempre arrependida porque isso ainda me faz mais infeliz.
     J te disse muito disparate.
     Ainda agora estou a pensar como  que eu consegui escrever tanta coisa.
     Estou num stio maravilhoso:  um choupal (no sei se  assim que se escreve), um choupal pequenino, um bocadinho longe da quinta. Vim para aqui de bicicleta, 
e aqui estou a escrever-te. Estou bem acompanhada pelo ursinho de peluche da Luzia. A Luzia tem trs anos e adora histrias de bruxas, pelo menos quando est com 
raparigas adora, mas quando chega um rapaz pe-se aos gritinhos a dizer que tem muito medo das bruxas, esquisito, no ? Estou sozinha, no se ouve nada alm do 
barulho de um avio que est a passar e do vento a bater nas folhas secas.
     Desculpa, pipoca, j  quase uma hora e tenho que ir almoar.
     Ol.
     Aqui estou eu a chatear-te outra vez.
     Quando cheguei a casa o almoo ainda no estava pronto, tive de esperar.
     J almocei e agora estou outra vez no choupal com o ursinho.
     O Filipe chegou ontem. Chegou, esteve a ver a casa e depois foi ouvir discos com o Dinis e com os meus primos. Antes do Filipe chegar eu e os meus primos mais 
novos estivemos a arrumar um sto que era lixo por todos os lados. Depois do sto arrumado (por acaso ficou bestial, com luzes encarnadas e tudo) fui tomar banho 
e mudar de roupa.  noite fomos todos para o sto ouvir msica e jogar s cartas (O Filipe e o Dinis tambm foram). Uma das minhas primas (a Rita) comeou a propor 
que fssemos danar, mas acabmos por no danar porque uns no queriam, outros iam-se embora, enfim... Acabmos por ir todos embora.
     O Filipe passou a noite inteira com dores de garganta e de cabea. Desde que chegou ainda no me falou. Tenho a impresso de que ele j no gosta. No me importo 
que ele no goste, o que me chateia mais  saber que j no gosto. Dantes gostava tanto que era capaz de morrer por ele. Agora no sinto nada.
     Gosto dele como amigo. Tu e ele para mim so os meus maiores amigos, mas para ele penso que j nem isso sou.
     No sei como podias tu gostar de ser eu, passo os dias a pensar no que passou e a chamar a mim mesma estpida por ter feito coisas que no devia.
     Enquanto se gosta muito,  tudo muito bonito, mas quando se deixa de gostar  um inferno. Nunca se olha para as coisas boas, olha-se sempre para as ms. Na 
vida anda sempre tudo ao contrrio. Anda-se uns dias feliz e pronto. Razo tm os velhos em dizer que os novos nada percebem da vida. Razo tm os velhos em no 
nos deixarem fazer certas coisas.
      uma estupidez ser-se gente. Muito gostava eu de ser ave.
     Sou estpida por s pensar em mim. Sou estpida por no saber ver que as coisas mais simples da vida so as mais difceis.
     Sou estpida por s achar as coisas estpidas quando me afectam.
     Oh! Nem tu imaginas como eu gostei do Filipe.
     Bom. J deves estar farta de aturar esta gonha taralhouca.
     Porta-te bem ( que remdio, no , pipoca?). Vem depressa.
     
     Isabel"
     
     Cludia ficou aflita com esta carta de Isabel, porque Isabel detestava escrever cartas. Respondia em relatrios curtssimos s imensas exploses verbais de 
Cludia. Dizia que por mais que se esforasse, as palavras no lhe saam, e terminava invariavelmente com splicas ansiosas. "Escreve cartas maiores, pipoca." Desta 
vez, nem sequer utilizara o cdigo secreto que lhes defendia os segredos, transformando cada letra perigosa num nmero inofensivo. Faltavam cinco dias, cinco dias 
subitamente enfunados  dimenso de um sculo. O pai de Dinis vinha  cidade e levaria Cludia at  Quinta dos Regatos, para os ltimos dias de frias.
     - No digas nada ao Dinis. Quero fazer-lhe a surpresa. - pedira Cludia, eufrica, ao telefone.
     - No, no digo. Mas olha que ele no gosta nada de surpresas.
     - Ora, no gosta! Tu no conheces o teu irmo,  o que .
     - Pois, pois. Devia apaixonar-me por ele, para o ver tal como . Aposto que o teu Ni-ni ainda nem te escreveu. - atacou Isabel, com a ferina impiedade dos brandos.
     - Eu disse-lhe para no me escrever. Por causa dos meus pais.
     A pobreza do argumento aplacava o peso da mentira; Isabel condoeu-se e mudou de assunto. Percebia que Cludia lhe mentia muito a respeito de Dinis, e lastimava-a, 
porque mais transparentes do que as suas mil e uma comezinhas falsidades eram as vergonhas que entupiam a voz. Mentindo-lhe, a amiga violentava-se, e Isabel gostava 
do que essa violncia lhe dizia de Cludia.
     - J falei a toda a gente de ti. Esto todos ansiosos por te conhecer. 
     Isabel sabia que Cludia precisava desesperadamente de encontrar uma comunidade, ainda que transitria, que lhe devolvesse a estrutura humana que Dinis estilhaara. 
Mas s vezes amava-a tanto. Tinha frias de a deixar  deriva no mar revolto da paixo que os seus cimes pintavam de negro. Um dia Cludia havia de dar  costa, 
desmaiada e esquecida, e nessa altura ela estaria l para a ressuscitar. "Deix-la chocar contra os rochedos at fazer sangue; s assim ela entender que o meu amor 
por ela vale bem mais que o de Dinis, e aprender a v-lo como reflexo da minha luz."
     Ferida por estas imagens, Isabel partira para os Regatos sem formular o convite que Cludia esperara impacientemente.
     Arrependeu-se assim que chegou ao bosque e olhou para o cu.
     Concluiu que estava a dar razo a Dinis, que via no amor um artifcio do egosmo; pegou na bicicleta e voou para o primeiro telefone:
     - Cludia. Isto aqui no tem graa nenhuma sem ti. Tens que vir, mesmo que seja s por causa do Dinis. Desculpas uma gonha egosta?
     Cludia no tinha nada contra o egosmo activo de Isabel; o que a enlouquecia lentamente era o egosmo passivo de Dinis, que nunca lhe dera a honra de uma cena 
de cimes, por pequena que fosse.
     
     Era um show de music-hall. O cenrio comeara por ser azul, mas agora era j rosa e ouro. O palco estava coberto de folhas secas que faziam msica sob os passos 
da vedeta. Os espectadores tomavam ch e riam-se,  mesa do jardim, enquanto ela esgrimia languidas canes de amor. No fim de cada cano, pegava na orla do vestido 
e fazia uma vnia. Percebia-se ento que a causa dos seus frequentes desequilbrios no era a bomia, mas o tamanho dos sapatos de salto alto. Mantinha-se, no entanto, 
imperturbvel. O espectculo terminou com uma entrevista  estrela. "Diga-nos, Fiona, prefere cantar para as crianas ou para os adultos?", inquiria, solcita, a 
entrevistadora. A artista pegou num cigarro de chocolate, segurou-o pensativamente nas pontas dos dedos e respondeu, alguns segundos depois: "Prefiro cantar para 
a idade mdia."
     Fiona tinha nesse Setembro oito anos de idade e outros tantos de carreira. Chamava namorado ao primo Manuel, que tinha trinta anos e lhe dava muitas bonecas, 
e chamava marido ao Rui da carteira ao lado, que passava o tempo todo a dar-lhe pontaps. Agora chama-se apenas Cludia e est menos velha; no tem tempo a perder. 
Preocupa-se cada vez mais com o que os outros pensam dela. Aprendeu a medir as palavras. Suspendeu a vida artstica para se dedicar  experincia da maioridade.
     Comeou a apaixonar-se mais pelos outros do que por ela prpria, atitude que nem lhe passaria pela cabea nesses tempos ureos. s vezes apetece-lhe que muitos 
e muitos Setembros tivessem passado para que pudesse voltar a ser quem era: Fiona, meiga e mitmana, arguta no desleixe e no dislate.
     Cludia aprender com Fiona, a artista temporariamente retirada, que os namorados devem ser sempre velhos e os maridos sempre novos.
     

     
     
     
      17
     
     Quantos metros de dor foram precisos para fazer esta tranquilidade? Maria do Cu est atenta aos mnimos sinais do exterior, e deixa-se contaminar tranquilamente 
por eles. A serenidade que aparenta  ilusria, como todas as circunstncias dos afectos. Uma traduo secreta da constante turbao da vida.
     So redondas, impiedosas, as mos dela. Cada afago dos seus dedos convoca um perfume que fere o tempo com a lmina de uma insuportvel doura. Porque a recordao 
exige desapego, o gelo branco da saudade, distncia, terra, grandes pazadas de terra solta entre o corpo e a alma. Mas Maria do Cu nunca foi assim; cedo a alma 
lhe desabou sobre a pele, que embranqueceu e se ps a transluzir. Aos vinte e cinco anos chorou trs meses a fio a juventude que um homem lhe roubara, apavorada 
pelo poder do dio. Ao cabo desses trs meses tinha os olhos cor de violeta e estava pronta para voltar a amar cegamente.
     A nica coisa acesa  a lareira, mansa, e a voz dela, cada vez mais desprendida dos recatos do tempo, cada vez mais firme, exposta. Ri-se de novo. Como se em 
gargalhadas fininhas, bordadas, pudesse exorcizar a sufocao que a assombra. Estranha e ntima desde a infncia, nunca sentiu medo de inventar sobre o que aos outros 
era estrangeiro.
     
     Setembro. As mulheres voltam a comer doces. As paixes tornam-se lentas e carregadas como o cu. As noites crescem prodigiosamente.
     - So estranhas, as pessoas da noite. - dizia ela - Tm os olhos cercados de tinta e vontade de deixar o corao por escrito, tatuado na pedra da sepultura.
     Setembro. Cultivam-se as antigas artes da caa, breves jogos de morte e de amizade.  por estes dias que os cestos se enchem das uvas que os homens vo pisar 
at ficarem estonteados, extenuados, quentes e densos como o mosto. Porque  que no se diz de um vinho velho que est "senil"? Porque  que gostamos dos tecidos 
rugosos das rvores, dos frutos, dos livros antigos, e repudiamos o tempo na nossa prpria pele? Os mais velhos, como as crianas, sabem ter o corpo trpego, engelhado 
de tempo. A memria  uma espcie de agente duplo: mata-nos ao mesmo tempo que nos ressuscita.
     Maria do Cu dorme de manh, feliz dessa riqueza maior de no ter horrios. Passeia-se pela casa enorme sem ningum, a folhear papis velhos longe dos olhos 
prticos dos outros. Quanto mais gente tem  volta mais histrias inventa, de acordo com a frmula criativa da timidez. Gosta da velocidade que existe entre as pessoas. 
Repete que a Histria  um acto de f, e toda a gente acredita.
     - Os factos so um candeeiro de p baixo, iluminam pouco. - diz, e entretm-se na busca de variantes. - Os factos so s brinquedos de adultos sem imaginao. 
     Dinis gosta de a contestar um bocadinho, mas ela encolhe os ombros, numa lassido de rainha:
     - Tu, meu querido, tens uma alma deliberadamente turstica. No h nada a fazer, pois no, Cludia?
     Cludia estremeceu. Quem teria contado  av Cu? Mas a senhora pega-lhe na mo, puxa-a para si e segreda-lhe:
     - Desculpa, meu amor. Sou demasiado velha, apanho tudo nos olhos das pessoas.  um transtorno, porque ainda por cima falo pelos cotovelos. No sei medir consequncias. 
Nunca soube, alis. Mas no te rales. O Dinis no te merece, e o amor no quer nada com merecimentos. A propsito, j viste os meus amores-perfeitos?
     Maria do Cu, Isabel, Cludia. Todas trs esto reunidas em segredo dentro deste corpo de ilusria fragilidade, rindo baixinho do encanto que provocam em quem 
as olha. Deixam-se admirar, amam pela vertigem do verbo amar, mas no se deixam ver. Procura-se-lhes a alma e elas transparecem, pem-se a esvanecer. Platnicas 
pragmticas, dominam as sombras todas, fazem de sombra para melhor sorverem a luz.
     - Os melhores coraes so os que no tm defesas. Quando os atacam eles crescem e pem-se a faiscar.
     Parecia-lhe que s uma generosidade assim, pasmosa de perseverana, poderia vencer a vulgata dos dios, a exactido dos engenhos de matar. Uma mulher ama, e 
isso lhe basta. O cinzel da mgoa talhou-lhe imperceptveis rigores. Gere a intuio com uma preciso arquitectnica.
     - O problema com o amor, como com quase todos os substantivos abstractos,  que para o definir  preciso senti-lo, e nessa altura estamos demasiado ocupados 
para pensar. 
     Ele assinava-lhe os sapatos antes de sair. Com giz branco.
     - s vezes quase me comovia, o dedo dele sobre a sola, muito devagarinho. Muito cheio de medo.
     Como se nela se erguesse uma vontade firme para a alegria de cada vez que a vasculhavam triste, fechada na gaiola dos bichos ou das figuras exemplares. Manteve-se 
arredia dos exemplos, determinada  ironia onde lhe queriam desiluso, determinada ao amor onde lhe queriam a nvoa do romantismo separatista. H nela agora um puro 
prazer alheio  crueldade do olhar dos outros. Diz-se em verdade e conscincia e ganha sempre, mesmo que as palavras a percam.
     - Amei muitssimo. Muitssimo.
     Maria do Cu no resiste ao papel de madrinha de um bom amor de perdio.  por aqui que ela entra a matar e morre mil vezes.  aqui que o medo passa a ser 
dela e a chamar-se perturbao, derramamento ou fragilidade.  paixo deve a gula pela vida e o pavor do escuro, o horror de ficar sozinha em casa, o desamparo perante 
as coisas prticas da vida e a aguda luz das suas telas. Esforou-se durante alguns anos em cpias de salo. Auguravam-lhe um certo talento e ela punha nesses augrios 
esperana bastante para persistir. A idade ensinou-lhe a pintar amores-perfeitos de pssima qualidade.
     "So to tronchos os meus amores-perfeitos, no so?" Cludia discorda, gosta do desacerto das cores, da espessura das ptalas feitas de restos de vestidos 
pintados, parecem-lhe mais verdadeiras aquelas flores do que as do jardim.
     Alis, os amores-perfeitos botnicos foram ganhando vio e perenidade  medida que Maria do Cu distorcia os tons e as formas das flores pintadas. Floriam agora 
o ano inteiro; a av Cu achava que era a natureza a rir-se da sua falta de gnio. Foi o riso que espalhou as estrelas pela noite inteira, diz ela, feroz como uma 
adolescente. Se fosse hoje uma jovem artista desdenharia o apascentar dos meios e conversaria com os amigos nesse sitio mgico que so as casas, noites sem fim.
     Maria do Cu morou sempre num barco estranho onde se sentem as coisas bater. No h nela a nostalgia que tudo iguala.  tambm por isso que Maria do Cu assusta. 
Ela no se encolheu para caber no tempo, no viveu de menos e por isso no recorda de mais. Sabe ser beijada na mo. Deixou de fumar. Brinca com os dedos. H qualquer 
coisa de Isadora Duncan no movimento dos seus braos. Costuma dizer que, se pudesse, andava sempre de tnica. Desata a danar de repente, arrastando Henrique, o 
macambzio, o eleito, o pintor: "Hs-de vingar a minha falta de talento, querido, mas no consegues bater-me na valsa."
     A arte de Henrique herdou dela esse contgio infantil, quase cruel, entre o rigor e o amor. No procura explicar, nem denunciar ou sequer interrogar. Interessa-lhe 
ver e sentir, com a corrosiva lucidez das paixes intensas. O saber nunca lhe inibe o desamparo, antes o absorve at  vertigem.
     Henrique nunca tropea nos pequenos delitos das coisas que o fascinam. Abre caminho por dentro dessas imperfeies e constri com elas um inex-pugnvel castelo 
onde o feio surge como uma das mil e uma facetas do belo. Henrique sabe que o kitsch  o outro lado do trgico que  o outro lado do riso que  o outro lado da ternura 
ou da melancolia dela. No elabora hierarquias nem selecciona motivos. A razo vem depois, feita exerccio de imaginao sobre a descoberta. O quadro favorito de 
Cludia chamava-se "Crime e Castigo" e parecia um daqueles jogos de meninos em que os castigos so ilustrados e os avanos se contam em nmeros.
     -  que a dor  bem mais favorvel  ilustrao do esprito do que a afabilidade. - explicava-lhe Henrique, e Cludia sentia-se mesquinha porque procurara a 
companhia dele para espicaar Dinis, que dera em ignor-la.
     Isabel tinha razo; o mano no apreciava surpresas, achava de mau tom que lhe invadissem o territrio. Ouviu a travagem do carro, o bater das portas, o vozeiro 
do pai, as gargalhadas da amante, e correu imediatamente  cozinha informando que ia jantar a casa dos primos. Nessa noite, a av Cu perguntou por ele com o olhar 
posto em Cludia e soube. Na manh seguinte anunciou que ia organizar um sero de cinema com os filmes da infncia dos primos todos, em honra da amiga de Isabel.
     Sublinhou estas ltimas palavras e acrescentou:
     - Quero reunir a famlia toda. Toda. Ests a ouvir, Dinis? E quero ver o teu amigo Filipe, tambm.
     A av Cu era a nica pessoa que Dinis no podia deixar de ouvir. Filipe deixara de falar a Isabel desde que Cludia chegara, mas Isabel jurava-lhe que aquele 
amuo j vinha de trs.
     - Eu at te escrevi por causa disso, parva.  melhor assim.
     Isabel no queria que Cludia soubesse que Filipe a deixara por causa da vinda dela.
     - Mas ela  a namorada do Dinis. 
     - Mentira. O Dinis diz que no tem nenhum compromisso com ela. Tu achas que algum pega numa rapariga como ela?
     -  uma rapariga como as outras. E o Dinis  um safado.
     - No, no  uma rapariga como as outras.
     - Pois no.  a minha melhor amiga.  por isso que ela vem c. No  como tu, que te fizeste amigo do Dinis  pressa, para poderes vir connosco.
     Afogueado de raiva, Filipe levantou a mo e deu-lhe uma bofetada. Isabel fugiu para o jardim, chorando convulsivamente e jurando que nunca mais o voltaria a 
amar. Manteve esta deciso por vinte e quatro horas. Quando a carta chegou a Cludia, j se tinham reconciliado e zangado por causa dela mais duas vezes. Agora, 
Dinis deixara de falar  irm porque entendia o convite a Cludia como uma armadilha, e Filipe acompanhava em absoluto aquele voto de silncio. Cludia dedicava-se 
ao teatro da absoluta alegria, porque a humilhao ia para alm de todas as possveis lgrimas; essa encenao risonha conseguiu torn-la popular entre os primos 
e acirrar uma embirrao crescente em Isabel, que no lhe perdoava o fingimento, depois de todos os sacrifcios que fizera por ela.
     
     Setembro. O nono ms do ano, como se os bebs cheirassem a uvas e compotas, roupa guardada e fotografias antigas, sem a arrepiante acusao do futuro. Fundem-se 
verdes e castanhos, as cores muito novas ou muito velhas dos seres que habitam os parnteses dos adultos, Cludia chorando enfim no colo de Maria do Cu:
     - V Cu, eu quero morrer. Quero morrer j, aqui, para o ver chorar o mal que me fez, para o ouvir chamar-me querida. V Cu, eu dei-lhe tudo o que tinha e 
ele nunca me disse querida. Ele nem sequer me disse que era bonita, os outros todos diziam e eu nem ouvia, ele nunca disse...
     - Queridinha. Agora j sabes ouvir, nunca mais te vais esquecer de ouvir quando algum te disser essas coisas doces.
     - No, nunca mais quero ouvir nada. Quero morrer j. E por amor de Deus no me diga que sou muito nova, que tenho a vida  minha frente. Por amor de Deus no 
diga que eu no tenho mais ningum que me oua.
     - Eu sei, o tempo  terrvel. E se fssemos ver as teias de aranha do nosso Henrique? Podamos convid-lo para um piquenique nas vinhas. Est um dia to bonito, 
e Setembro est quase no fim... Sabes que o Henrique tambm escreve?
     - Escreve? O qu?
     - Poemas, frases, o que lhe vem  cabea. Milagres inventados,  por a que se comea. O Dinis  s um pretexto, minha filha. Hs-de arranjar outros, que quando 
se toma o gosto ao fel no se quer outra coisa. Digo-te eu, que graas a Deus amei muitssimo. Muitssimo.
     As frases comeam-lhe eufricas e terminam muitas vezes melanclicas. Como se a meio das explicaes se desse conta da inutilidade das palavras repetidas, da 
impossibilidade de passar assim um qualquer testemunho. A sua maior vaidade  deixar de perceber. Cansou-se de ler as linhas ordenadas do mundo. Cada ser  uma constelao 
de duelos insolveis, s vezes a espada lampeja e o olhar clareia. H em cada poeta uma aventura singular que articula o tempo que a vida escolheu para ele e o lugar 
que ele escolhe para si na vida.
     - Tens que levar uns amores-perfeitos, Cludia. Eu vou apanh-los num instante.
     - Eu vou consigo, v Cu.
     O sol apresentava-se radioso  despedida de Setembro. Porm, no segundo exacto em que Maria do Cu se dobrava para cortar as flores, o azul do dia fez-se cinza 
e desfez-se em gua sobre a sua cabea. A v Cu abriu um sorriso resplandecente e comentou:
     - H quanto tempo as minhas florinhas precisavam de uma molha! Deus Nosso Senhor  muito meu amigo!
     Cludia olhava para o rosto angelical da av Cu e cismava que se o mundo no estivesse todo desaparafusado, ela havia de ter encontrado o av Matias num jardim 
de amores-perfeitos, e teriam sido felizes para sempre. Se aquela chuva inesperada atingisse a av Lurdes, ela havia de praguejar contra o Demnio e contra a sua 
triste sorte. Recordava-se ainda do prazer demorado que a av Lurdes punha nas visitas ao cemitrio, conferindo um a um os vasos de flores sobre os jazigos, para 
tecer dissertaes interminveis sobre o desmazelo dos vivos e os pecados dos mortos.
     
     Cludia foi muda durante toda a viagem para a cidade.
     Isabel deixara de lhe falar na vspera. Filipe pegara-se  com Dinis, reconciliara-se com Isabel e absolvera Cludia, desafiando-a para um amvel jogo de cartas. 
Mas Cludia apanhou-o a fazer batota, insultou-o, e ele retorquiu com uma das suas famosas bofetadas.
     - Eu no me chamo Isabel, ouviste? No sirvo para bombo de festa. - rugiu Cludia, fora de si, erguendo a mo.
     Isabel travou-lhe o gesto e disse:
     - Livra-te. No tocas no Filipe. Tu  que comeaste.
     A indestrutvel cumplicidade de Cludia e Isabel ruiu de um s golpe, por causa de um baralho de cartas e de uma bofetada mal defendida. Um ano mais tarde, 
Filipe ergueu a mo a Isabel e ela aproveitou aquele movimento para derradeiro adeus.
     Nessa poca Cludia j no morava no bairro. Saiu de casa com a me pouco tempo antes do fim do grupo, no qual Teresa preencheu o lugar de rainha, durante alguns 
meses e por excluso de partes. Joo namorou-a por despeito e abandonou-a por fastio. Teresa concluiu que homem nenhum valia o seu amante ficcional e encerrou-se 
em casa a produzir um epistolrio. Joo decidiu que Alexandra nenhuma merecia o sacrifcio de um amor simulado e partiu de mota para parte incerta. As gmeas engravidaram 
ao mesmo tempo, no se sabia de quem, e foram desengravidar para um hospital da frica do Sul. Parecia que j no havia maneira de travar o tempo.
     Ricardo oficializou-se noivo da Rosarinho das vivendas e Radar disfarou a orfandade misturando-se aos midos da rua.
     J ningum o conhece por Radar; hoje  o Rei da Crianada, e passa os fins de semana a brincar  apanhada e a roubar gasolina dos carros para a mota. Cludia 
mora agora no centro da cidade. Sonha muito com Isabel e s vezes acorda triste, a imagin-la me de um Filipinho mando que esteve para se chamar Cludia e para 
ser mimado por ela. Quanto a Malvina, saltou para o colo da av Cu e recusou-se a voltar para a cidade, naquele ltimo dia de Setembro. Talvez tivesse pressentido 
que nem Murinelo estaria l para a receber.
     

     
     
      18
     
     Os sapatos dela estavam todos ali, na escada rolante, degrau a degrau Expostos e arrumados por pocas como num museu redondo.
     Quando a escada acabava o primeiro par voltava a aparecer no degrau de cima. Os primeiros sapatos de salto alto, bambos e cambados de danar em garagens ou 
de esperar quietos, tardes inteiras? por um passo que nunca chegou. E as sapatilhas de ginstica, de um branco esfolado pela persistncia. E os mocassins largos, 
que lhe caam dos ps assim que Dinis a atirava, entre lutas e gargalhadas, para cima da cama. Isabel  que costumava ficar tardes inteiras sentada no muro do liceu 
a descrever as pessoas que passavam s pela forma e pela cor dos sapatos. Isabel acertava sempre, como  prprio dessas deusas dilacerantes que o pudor da adolescncia 
distingue com o grau de "maior amiga".
     O que Isabel se riu desses sapatos altos amarelos. "Ficas uma sonsa", dizia ela. "E o pior  que tu no s uma sonsa. Por isso  que te ficam to mal, esses 
sapatos." Ela ajoelhou-se, abriu o saco de viagem e comeou a guard-los, um a um. As pessoas  sua volta falavam tantas lnguas que era impossvel adivinhar-se 
ali um pas. Mas um aeroporto no precisa de ter identidade. A nica coisa que lhe parecia estranha era a tranquilidade com que os sapatos voltavam a aparecer l 
em cima depois do ltimo degrau, brilhantes e gastos como se tivessem sido abandonados agora mesmo.
     - Senhor Murinelo! Senhor Murinelo!
     Cludia deambulava pelas traseiras da casa com a fotografia de Malvina na mo. Precisava de falar com algum, precisava desesperada-mente da voz do velho, louca 
e matreira. Sonhava cada vez mais com a morte, deixava-se ficar na cama para prolongar o sonho, primeiro adoecia, em dois dias diziam-lhe que ia morrer, e depois 
ficava prostrada, branca como uma santa de igreja e bela como uma estrela de cinema, e Dinis soluava sobre a sua mo.
     As lgrimas dele escaldavam, ardiam-lhe nos dedos, causavam-lhe pavorosos padecimentos e ela mordia os lbios para que aquele deleite no cessasse. Temia que 
Dinis se esvasse no ar se ela abrisse a boca, concentrava-se, no queria dizer nenhuma barbaridade, nem uma slaba de pieguice."Se ao menos uma vez, Dinis, s uma 
vez. Diz." Ela desejava que ele dissesse e ele dizia; Ele dizia, em catadupa:
     "Amo-te, quero-te, s a mulher da minha vida, no morras, por favor no morras." Depois ela morria mesmo e ele chorava muito, e Isabel dava-lhe a mo e choravam 
juntos. E depois o sonho acabava. Cludia fechava os olhos com fora e robobinava a fita, revia a declarao de amor em cmara lenta, acrescentava-lhe frases: "s 
a mulher da minha vida e eu fui to estpido, to cego. Tinha medo, percebes? Sou um cobarde.
     Fui um cobarde." Nestas verses mais buriladas Cludia guardava umas linhas para si, uns estertores de perdo e paixo, e as mos dele erguendo a cabea dela 
para a ajudar a respirar, e o revirar dos olhos. No derradeiro minuto vinha-lhe  ideia que tinha que fechar a boca e os olhos, no podia ficar para ali escancarada, 
no permitiria que ele a recordasse desfigurada.
     - Senhor Murinelo! Onde  que se meteu? - no aguentava tanta aflio, gastara os dirios todos, queria escrever tal-qual e no havia tal-qual para aquela doideira.
     
     "A minha cabea no teu ombro. A tua boca nos meus olhos. Os meus cabelos nos teus dedos. Qual era a cano? O meu corpo tremia tanto. Tinha medo que tu ouvisses 
o meu corao a bater. Os outros julgavam que estvamos a danar. Os outros julgavam. Qual era a cano?
     A minha boca nos teus dedos. A tua cabea no meu colo. Os teus olhos nos meus olhos. O sol do nosso tamanho pelas frinchas da persiana. Os teus pais tinham 
sado nesse fim-de-semana.
     Lembras-te?
     Os teus olhos nos meus olhos, atravs do vidro, no liceu.
     Compravas-me chocolates. Roubavas-me o saco dos livros.
     Rias-te de mim, e era to bom.
     Os teus pais tinham sado. Eram os primeiros dias de calor.
     Fizemos refrescos e pudim flan de pacote. Puseste o disco a tocar e baixaste as persianas. Lembras-te?
     Eu olhava para ti e faltava-me o ar. Escrevia o teu nome na areia da praia. Ficava horas  janela s para te ver passar de bicicleta. Mesmo quando no olhavas 
para mim. Onde  que tu ests, agora?
     Lembras-te? Jogvamos  verdade e consequncia. Ao quarto escuro. Aos namorados. Dvamos beijinhos s escondidas. Eu escrevia-te poemas e as minhas notas subiram. 
A minha me dizia que eu era uma rapariga sensata. Agora pergunta-me porque  que eu choro tanto. Toda a gente me diz que eu no tenho idade para chorar. E tu no 
vs. Tu j no me vs.
     Um dia vais voltar para mim. Um dia vou parar de chorar. Mas os dias passam to devagar. E as pessoas crescidas riem-se.
     Dizem que eu no tenho idade para desgostos de amor. Que eu vou ter muitos namorados. E eu no quero. Eu quero-te.
     S sei o teu nome. J no escrevo poemas. Nenhum poema pode fixar a luz que havia debaixo da tua pele.
     Contigo eu no precisava de imitar ningum. O corao da terra batia ao ritmo dos teus passos. De repente tu foste-te embora e ficou tanta coisa por dizer. 
     Os teus braos na minha cintura. A minha boca na tua boca.
     Estava escuro. Havia s a luz do aqurio ao lado do gira-discos. Como  que tu j te esqueceste?
     Os teus pais tinham sado. Os peixes flutuavam por entre as algas. Fechei os olhos. Era capaz de morrer de amor por ti.
     Como  que tu j te esqueceste?"
     - Muriiiinceeeelloooooooo!
     
     Murinelo desaparecera; h muitas semanas que ningum o via. A porta do casaro estava aberta, mas Cludia no teve coragem de entrar. Passaram muitos e muitos 
dias; as aulas estavam quase a recomear. Os pais de Cludia admiraram-lhe a domesticidade e o recolhimento. Deduziam que Cludia passava os dias a estudar; notavam-lhe 
um ligeiro alheamento, que interpretaram como "fruto da idade."
     Nos dias da infncia, Cludia esteve para ser fada. Mas muitas histrias depois, pensou que no devia haver nada mais insuportvel do que viver com uma fada.
     - Pareces uma fada. - disse-lhe ele, um dia, de repente. Era por isso que nunca poderiam viver juntos, pensou ela. Mesmo porque, na realidade a frase dele fora 
outra. 
     - Pareces uma fada do lar. - disse ele, um dia, escarnecendo-lhe as sedues domsticas.
     - Porqu? No posso lavar a tua loia?
     - Podes. Claro que podes.
     Ele deixava-lhe tudo. S nunca a deixava ser dele. 
     Zangavam-se por ninharias. Nessas alturas, o silncio rachava-se ao meio e os rudos da cidade invadiam o quarto.
     Eram buzinas, passos de gente, o chiar das roldanas, os pombos. Mas chegaria sempre o momento em que ela lhe pegava no dedo mindinho para o meter na boca. Muito 
devagar, o desejo era a nica voz. Repetiam incessante-mente os mesmos rituais.
     Sentada no caf onde h dez anos Teresa se encontrava com Ana  Carolina, Cludia folheia uma revista e sorri. Na mesa ao lado, uma mulher de meia-idade conta 
a histria de um bando de jovens desfeito por causa de uma paixo.
     - E dizem vocs que as paixes so divertimentos passageiros!
     - As mulheres so apaixonadas e os homens so solitrios, Carolina.  esse o problema.
      meia-noite o caf enche. Uns vm do cinema, outros tomam o pequeno-almoo. A partir da meia-noite, naquele caf, as evidncias desaparecem. At para coisas 
aparentemente simples, como a distino entre homens e mulheres.  meia-noite e meia, Cludia j nem pode jurar que a velhinha encarquilhada que come uma sopa, na 
mesa do fundo, seja de facto uma velhinha encarquilhada. 
     s vezes a polcia aparece e leva toda a gente na rusga: filsofos, velhinhas, escritores consagrados, homens vestidos de mulher, meninas bem comportadas. Os 
ladres que a polcia procura so a nica espcie no representada neste mostrurio; esses flaneiam pelas esquinas prximas, na esperana que a rusga esvazie as 
redondezas e faa sossegar os passeios onde os automveis repousam. Cludia sorri, folheia a revista. So pginas e pginas de receitas "para reavivar a sua vida 
sexual". Relatrios extensos de posies "originais", "surpreendentes" e "eficazes." Descries minuciosas dos "pontos-chave". Exortaes fervorosas ao malabarismo. 
Cludia fecha os olhos e v-se uma vez mais nos braos dele. Quantos homens a amaram com eficcia e surpresa e originalidade, depois? Todos. Um cardpio de homens 
dignos dos padres de qualquer revista, atlticos, simpticos, sensveis. E Cludia a fechar os olhos para encontrar o rosto de Dinis sobre o tempo. A invent-lo 
na definio da maioridade, com e sem barba, com e sem culos, combatendo a espessura do tempo.
     Cludia a arrepender-se do instante de fria em que lhe rasgou os retratos, sempre que acorda com um homem ao seu lado.
     Cludia procurando Dinis s cegas, como naquelas tardes em que lhe rebuscava gavetas e prateleiras em busca de um livro, um caderno, uma frase escrita  margem. 
Hoje ele est sozinho no quarto e o barco ficou parado no cartaz de cinema.
     A morte estava escrita nas horas daqueles corpos. Havia um halo. Uma aura. Um incndio de gua. O prazer preciso da vertigem. Incenso e cinza. gua. gua. gua. 
     Ainda hoje ele procura no mar o gosto da pele dela. Di-lhe o corpo, como se lhe faltasse um brao ou aquele dedo pequenino.
     
     Cludia ganhara coragem para entrar na casa de Murinelo.
     Encontramo-la em rota de regresso, na desiluso mansa e funda que  a memria triste de todos os desesperos. Cludia est cansada e vazia. To cansada e to 
vazia que confunde as saudades de um amor com o desejo do amante que a decepcionou; cansada demais para perceber que o seu vazio tem o contorno infinito da disponibilidade 
e que Dinis, o amor antigo, passou definitivamente para aquela assoalhada esttica do corao onde se guardam os amores amarelecidos pela decepo, como se a raiva 
nunca os tivesse desfigurado. Ela ainda ama o homem que a desiludiu, am-lo- sempre com essa compaixo meiga que nas almas limpas sucede  paixo para melhor a 
repetir.
     "No quero lembrar-me dos teus olhos arrefecidos", dizia a carta.
     Ela saiu da vida e s sobraram os dias. Zangaram-se tantas vezes, perderam tanto tempo em sofrimentos de refugo.
     Amor-prprio, amor-estragado, amor agora morto. Mas nunca falavam de amor. Foi quando o corpo de Mariana desapareceu que ele ancorou naqueles papis. Eram canes, 
poemas feitos das palavras que esquecera no corpo dela. Horas perdidas para o medo. Horas em que ela estava viva. Como se fosse para sempre.
     Amor pardo, amor avariado, amor entupido. E agora que ela saiu da vida, o que fazer de tanto amor?
     Partilhavam um convicto desprezo pela felicidade, incapaz de supor-tar a febre e a alegria negra do dilaceramento. Viviam de ressurreio em ressurreio. "Como 
podemos viver depois de encontrarmos o rosto da nossa morte?"
     Um imprio de lumes, luminoso como uma lmina. O desejo demorado de dor. O corpo a aprender tudo ao contrrio, perro de pudor e depois preso de paixo. Da primeira 
vez julgaram que era s uma noite de lua cheia, da segunda vez tremeram.
     Depois, no se lembram exactamente do que aconteceu.
     Hoje, os fragmentos que restaram do retrato dele esto ao lado dos cartazes de cinema que lhe deu. At que os cantos amareleam e a pele dela fique cor de spia, 
ali sentada a olhar para um lbio sem queixo, um olho sem testa.
     "Esta noite vai mudar tudo. Nesta noite, nada de novo se pode inventar mais." No se lembram exactamente do que aconteceu. Talvez no tenha passado de um sonho. 
Havia uma telefonia antiga a cantar baixinho coisas de cinema. Eles sabiam que um beijo  s um beijo e o tempo parou para os olhar. Faziam-se interessantes. A saudade 
ps cara de sonsa e atacou s escondidas. Sem o seu poder, o amor definha, e quando toma o poder,  o funeral do amor.
     Cludia perdera a noo de fronteira. Tinha a carta na mo e esfregava os olhos, incrdula. Para l do gigantesco salo do traje ocultava-se um estranho santurio. 
Em redor do Cristo crucificado, imagens de um jovem oficial - o filho do velho do carto. E entre os retratos expunha-se uma coleco de roupa ntima de mulher. 
Uma mulher gorda, gordssima. Mariana.
     "Minha Mariana". Assim comeava a carta.
     Um dia, ela dissera-lhe que no voltaria a ser dele. Queria crescer, emagrecer e casar. Depois havia de engordar para os filhos e tornar-se outra vez gulosa 
e flcida como um beb.
     Falava de costas viradas para ele.
     - No quero olhar mais para ti, Murito. No devias ter vindo visitar-me. Aqui em casa no consigo fazer nada de ti. H luz a mais, e eu quero que o meu corpo 
tenha direito  luz. Vou ao mdico. Vou ser bonita como as outras. s um velho devasso.
     Romntico, mas devasso. Desculpa.
     Falava de costas e avanava para a varanda. Ele seguia-a, p ante p.
     - Deixa ao menos que eu te beije as orelhas, Rainha das Neves. No precisas de olhar para mim. Tu nunca soubeste resistir ao calor da minha lngua. - sussurrava 
o velho - Hoje sou o Lus Vaz. No te recusars ao glorioso gal da Histria nacional, pois no, minha flor?
     - Larga-me. Cheiras mal, velho.
     Murinelo curvou-se lentamente, pegou nos tornozelos da sua bem-amada, levantou-a e despejou-a da varanda. Mariana ainda tentou agarrar-se s grades de ferro, 
mas era demasiado pesada para impedir a queda. O velho respirou fundo, atravessou a sala, fechou devagar a porta da rua, entrou no elevador e desceu.
     Morta, ela ficara-lhe mais intima. Nem uma fotografia possua para a recordar como era, a puxar do eterno  realidade.
     
     "Minha Mariana
     No quero lembrar-me dos teus olhos arrefecidos. A saudade guarda o que ficou por repetir. No se aprende nada com a experincia. S o que di  que se sabe. 
As histrias mais bonitas no so as que se contam. As coisas mudam, mas o corao fica. E tu dizias: tudo pode acontecer. Eu no queria que tudo pudesse acontecer. 
Tu eras minha. Querias ir-te embora e eu empurrei-te para o colo dos anjos. Espera por mim.
     Eu j no duro muito nesta Terra. Ia contar-te que tnhamos pouco tempo. Parece que adivinhaste. Despediste-te de mim antes que eu pudesse dizer-te adeus. Um 
dia vamos subir ao cu, os dois, sempre em espiral. Havemos de ter os olhos tristes das paredes do mundo."
     
     Cludia perdera a chave do crime pelos mltiplos corredores que vo do sonho ao sono, e do sono ao dia.
     Um crime perfeito, no fora o poder dos sonhos que crescem ao lado da vida para melhor denunciarem a mo da morte. Cludia acendeu uma das muitas velas que 
circundavam as fotografias do jovem oficial e queimou a carta pstuma de Murinelo. J ningum precisava de a ler; os mortos tornam-se secretos para apaziguar a alma 
dos vivos.
     
      Fim
